Steven Schub



Paixão pela razão e razão para a paixão


Em seu livro Objetivismo: a filosofia de Ayn Rand, Leonard Peikoff afirma que as emoções não são um meio para perceber a realidade, e que o ato da percepção “…implica uma responsabilidade epistemológica crucial. Se alguém se propõe a pensar racionalmente, precisa entender a distinção entre razão e emoção…”. A própria Rand enfatiza esse ponto, afirmando que “…o indivíduo precisa diferenciar de forma clara e precisa seus pensamentos de suas emoções para ser capaz de diferenciar julgamentos elaborados de sentimentos, desejos, esperanças ou medos”. O significado disso na prática é que, quando um indivíduo está tentando discernir os fatos envolvidos numa determinada situação - e que curso de ação tomar a respeito - não deve se guiar por seus sentimentos (se a sua meta for agir objetivamente). Os sentimentos não podem fornecer uma avaliação exata – nem mesmo o contexto relevante - da situação. Em outras palavras, nunca se deve colocar um “quero que seja assim” acima de um “é”.

Compartilho alguns exemplos pessoais para ilustrar esse ponto. Recentemente visitei minha mãe em Jerusalém. Ela, uma ex-professora de Inglês, já exibe alguns sinais de demência. Até 2017, ela ainda frequentava a academia todos os dias, lia um livro por semana, e divagava muito sobre poetas que havia lido na década de 1970. Hoje, aquela mulher não existe mais: em seu lugar, alguém que tem problemas até para comer.

Isso foi trágico para ela, mas também muito difícil para o resto da família. A minha mãe mantém a aparência de outrora. É muito difícil não se sentir frustrado e chateado ao vê-la repetir várias vezes as mesmas perguntas. Nós tentamos responder da mesma forma que responderíamos a qualquer adulto no controle de suas faculdades mentais.

Lembrar que estamos lidando com uma mulher que já não é capaz de controlar o seu próprio comportamento requer esforço e paciência consideráveis. Quando nos esquecemos dos fatos da situação, perdemos a calma, mas como o seu geriatra nos disse, é totalmente injusto responsabilizar a nossa mãe por seu comportamento. O seu cérebro está se deteriorando, e independentemente do quão difícil seja aceitar tal fato, é o que devemos fazer. Quando estamos prestes a nos irritar, devemos nos lembrar dos fatos: não é sua culpa, e ela não pode ser responsabilizada da mesma forma que um adulto normal e saudável.

Um segundo exemplo: a minha irmã mais velha trabalha em uma ONG em Israel chamada EcoPeace. Ela também tem dois filhos que estão em idade militar. Minha irmã deseja profundamente que haja paz entre israelenses e palestinos, e uma das premissas da EcoPeace é que, se Israel for mais prestativo em relação aos assuntos hídricos, como o acesso ao Rio Jordão e à construção de plantas de dessalinização para os palestinos, talvez isso os motive a aceitarem o Estado de Israel.

Não há evidências em que basear essa esperança. As lideranças palestinas nunca indicaram que uma redefinição dos direitos sobre os acessos hídricos levaria à sua aceitação de Israel, e, além disso, existem décadas de evidência que mostram que, não importa o esforço empreendido por Israel para melhorar a vida dos palestinos, eles continuam a se opor ideologicamente à própria existência de Israel. Um exemplo perfeito: quando Israel se retirou unilateralmente da Faixa de Gaza em 2005, deixaram para trás diversas estufas de alta qualidade, que poderiam ser utilizadas pelos palestinos para melhorar a vida de seu povo. Em vez disso, as estufas “sionistas” foram imediatamente desmanteladas e destruídas. E assim tem sido nos últimos 70 anos.

A minha irmã deseja que haja paz; ela tem esperança de que a generosidade de Israel venha a ser apreciada; ela tem medo da guerra. Mas, como Ben Shapiro explica: “Fatos não se importam com seus sentimentos.” Numa situação como essa, é responsabilidade do indivíduo manter, consciente e volitivamente, o contexto filosófico completo em sua mente, indagando-se: qual é a natureza do regime palestino? (Dedicam-se exclusivamente à destruição de Israel). Qual é o resultado da sujeição voluntária às vontades de um ditador para tentar acalmar a situação? (Os ditadores se tornam mais atrevidos). Qual é a única solução possível? (Derrotar o inimigo de forma inequívoca). Como a minha irmã é rápida para apontar, é fácil para eu dizer isso vivendo a 15 mil km de distância, e sem nenhum filho nas fileiras. Sim, é fácil para mim, mas fatos são fatos.

Se as emoções não são instrumentos cognitivos, qual deve ser a postura de um indivíduo racional frente às suas emoções, e qual é a função delas em sua vida? Rand afirma que: “um homem racional sabe - ou se propõe a descobrir – a origem de suas emoções, e as premissas básicas por trás delas; se estiverem equivocadas, ele deve corrigi-las… Emoções não são suas inimigas, mas a sua forma de aproveitar a vida. Mas não são o seu guia, pois o seu guia é a sua mente”. Então, mesmo que as emoções não sejam instrumentos de cognição, elas proveem dados para a cognição. Enquanto respostas para avaliações subconscientes, elas nos dizem quais são os nossos valores subconscientes (não quais gostaríamos que fossem).

É importante ressaltar que nem sempre nossas avaliações subconscientes estão erradas e nossas avaliações conscientes estão corretas. Exemplo: por anos fui vocalista de uma banda chamada The Fenwicks. Em um determinado momento, havia 17 músicos na banda, e estava muito difícil mantê-la unida. No papel, alguém poderia dizer (e meus pais diziam) que o tempo, a energia e o dinheiro que eu investia na banda eram completamente irracionais. Apesar disso, quando estava no palco olhando uma plateia cantando e dançando as músicas que eu havia escrito, quando via o CD que tinha produzido nas lojas, quando escutava minha música no rádio, a alegria era profunda - maior do que qualquer alegria que já havia sentido.

Eu prestei atenção aos meus sentimentos e não desprezei a profundidade daquela emoção. Ela me dizia que se eu acabasse com a banda, me arrependeria disso pelo resto de minha vida. Olhando para trás, sou muito grato a mim mesmo por ter “escutado” aquela alegria. Ainda assim, mesmo naquela época, era a minha mente que pesava as evidências: a minha alegria versus as dificuldades diárias - e foi a minha mente que decidiu agir com base na alegria que sentia.

Peikoff escreve que “emoções desempenham um papel essencial na vida humana, e nesse contexto, devem ser sentidas, nutridas e respeitadas. Sem elas, os homens não seriam capazes de atingir a felicidade, nem mesmo a sobrevivência; não teriam nenhum desejo, nem amor, nem medo, nem motivação, nenhuma resposta a valores”. Em outras palavras, emoções são a forma através da qual sentimos os nossos valores - e como tal, são psicologicamente motivantes.

Emoções fornecem o combustível espiritual que necessitamos para perseguir os valores que fazem a vida valer a pena ser vivida. Ainda assim, como as emoções são produto de nossos pensamentos subconscientes, Rand nos aconselha a ter um “… comprometimento brutalmente honesto com a introspecção - visando a identificação conceitual dos nossos estados internos”. Ela nos aconselha a sempre buscar orientação em duas perguntas-chave, “O que estou sentindo?” e “Por que me sinto assim?”. De forma simples: valorize as suas emoções, nunca as suprima ou as negue. Preste atenção nelas. Ouça cuidadosamente o que elas estão lhe dizendo. Depois, use a sua faculdade racional para verificar se os julgamentos subconscientes nos quais elas se baseiam correspondem à realidade. Se não for assim, faça um esforço para revê-los. Pois quando tanto as convicções racionais e como as emoções do indivíduo estão em harmonia, a vida se torna uma aventura lógica e apaixonada.

"This essay was originally written as a course assignment for the Ayn Rand Institute's Objectivist Academic Center (OAC®) and has been adapted for publication. The Ayn Rand Institute does not necessarily endorse the content of the essay."

_________________________________________

Traduzido por Bill Pedroso.

Revisado por Matheus Pacini.

Curta a nossa página no Facebook.

Inscreva-se em nosso canal no YouTube.

__________________________________________