Objetivismo versus Estoicismo: o livre-arbítrio é mágica?

Uma concepção popular de causalidade leva muitas pessoas com mentalidade científica a rejeitar o livre-arbítrio.

Tanto o Estoicismo como o Objetivismo se propõem a oferecer orientação na busca de valores e melhoria de nossas vidas. Porém, diferentemente do Objetivismo – que defende o livre-arbítrio -, o Estoicismo adota uma visão determinista de mundo, incompatível com uma orientação moral, como defendo em meu artigo “A falsa promessa do Estoicismo”. “Para uma filosofia ser útil como guia”, escrevi, “deve, no mínimo, reconhecer que temos algum controle genuíno e volitivo sobre nossas ações e escolhas – ações e escolhas que impactam em nosso futuro.”

Professor de filosofia no The City College of New York e uma voz destacada no movimento estoico contemporâneo, Massimo Pigliucci discorda. Em seu artigo “Epic Battles in Practical Ethics: Stoicism vs Objectivism,” ele defende uma perspectiva que vários filósofos e cientistas defendem atualmente, que rejeitar o determinismo, como faz o Objetivismo, equivale a acreditar em magia.

Consideremos o argumento de Pigliucci.

Livre-arbítrio é magia?

Diz Pigliucci: “em sua mais simples e ampla definição, determinismo significa que coisas acontecem como resultado de causa e efeito, ou devido à existência de leis da natureza.”

Se você aceita que o cosmo funciona pela lei da causa e efeito, sua atitude quanto à vontade humana (“livre-arbítrio”), classifica-se em uma dessas categorias: (a) Você não acredita que haja algo como volição, sendo ela uma ilusão (incompatibilismo determinístico) ou (b) Você acredita que a volição é apenas um dos aspectos do comportamento legítimo das coisas no universo, o qual inclui os seres humanos (compatibilismo).

Se você não se encaixa em nenhuma dessas categorias, então a única alternativa que lhe resta é a (c) rejeitar a premissa do determinismo, concedendo uma posição especial ao livre-arbítrio humano (incompatibilismo contra causal). Os estoicos – como a maioria dos filósofos contemporâneos – optam pela alternativa (b). Smith, aparentemente, deseja algo como a alternativa (c), o que, conhecendo como o mundo funciona, equivaleria a crer em magia, posição adotada por alguns religiosos: isso se chama livre-arbítrio “contra causal” porque a ideia é a de que, de alguma forma (mas como??), a volição humana transcende as leis da Física e da Biologia[1].

Observe que o argumento de Pigliucci depende de equacionar determinismo com causa e efeito e legitimidade científica. Por certo, Pigliucci não está sozinho nisso. Daniel Dennett, um dos mais filósofos mais influentes no debate contemporâneo sobre livre-arbítrio, define determinismo de forma similar, como “a ideia de que todo evento tem uma causa, que tem outra causa, ad infinitum, criando uma cadeia causal até o Big Bang. Em resumo, não há eventos sem causas – eventos indeterminados[2] (ênfase minha).

Essa equação – que, como veremos, o Objetivismo rejeita – leva Pigliucci a restringir nossas opções teóricas como: (i) aceitar a universalidade da lei da causa e efeito e da legitimidade científica (e, portanto, determinismo) – rejeitando, assim, o livre-arbítrio como uma ilusão ou ação determinística ou (ii) aceitar o livre-arbítrio e, dessa forma, rejeitar a universalidade da lei da causa e efeito e das leis da natureza (ou seja. determinismo). Como o Objetivismo rejeita abertamente o determinismo, Pigliucci presume que Ayn Rand adota uma teoria não-causal (ou “contra-causal”) do livre-arbítrio.

Mas isso não é verdade. De acordo com o Objetivismo, a volição é tanto causal (não precisa de magia) quanto livre (não determinística). Talvez Pigliucci não entenda a posição de Rand porque a visão de livre-arbítrio (e de causalidade) do Objetivismo não se enquadra nas alternativas que ele e outros consideram como as únicas possíveis.

Para avaliar a perspectiva objetivista acerca do livre-arbítrio, precisamos entender o que Rand escreveu (ou endossou) sobre o tema, especialmente porque a sua concepção representa uma alternativa às opções mencionadas por Pigliucci[3].

Rand sobre livre-arbítrio e causalidade

Considere apenas alguns aspectos da perspectiva de Rand.

Segundo o Objetivismo, causalidade (ou causa e efeito) não é um princípio que relaciona eventos anteriores a suas consequências necessárias (determinismo), mas sim um que relaciona a identidade de uma entidade (o que ela é) a suas ações (o que ela faz). Rand defende que, como toda entidade possui uma identidade específica, formada por um conjunto específico de características, pode realizar apenas aquelas ações que pode realizar, ou seja, não pode agir contradizendo a sua natureza. Logo, não pode haver ações sem causas ou milagres (qualquer coisa, contra-causal).

O Objetivismo aceita a universalidade da causa e efeito, porém destaca que o princípio da causa e efeito em si não implica que toda relação de causa e efeito seja determinística (de modo que apenas um resultado seria possível – e necessário – frente a um conjunto de circunstâncias anteriores). Tampouco esse princípio que ações específicas uma entidade pode tomar num dado contexto: apenas estabelece que uma entidade deve agir de acordo com sua natureza e que, portanto, não pode contradizê-la.

Questões sobre quais ações específicas essas entidades são capazes de realizar devem ser estabelecidas com referência aos fatos observados sobre o seu comportamento. E, no que diz respeito à volição humana, o lugar apropriado para começar são os dados da introspecção – ou seja, o que podemos observar diretamente através de nossa consciência. Disso, o que vemos é que temos algum tipo de controle sobre a nossa consciência. Esse controle, esse poder causal para iniciar e direcionar a ação, é o que Rand chama de “livre-arbítrio”.

E, segundo Rand, o que está fundamental e diretamente sob nosso controle é o processo de pensamento:

Pensar é um ato de escolha … A razão não opera automaticamente. Pensar não é um processo mecânico. As conexões lógicas não são feitas por instinto. O funcionamento do estômago, dos pulmões, do coração, é automático; mas o da mente, não é. Em qualquer momento de sua vida, você é livre para pensar ou se esquivar desse esforço[4].

Dizer que temos livre-arbítrio, no Objetivismo, é dizer que a razão opera por escolha. Você pode escolher pensar – exercer suas faculdades cognitivas, conhecer, classificar, atingir um entendimento mais amplo e profundo. Ou, pode permitir que sua mente fique à deriva – no piloto automático, à mercê de estímulos indiretos, emoções e associações. Ou, pode escolher deliberadamente tirar sua mente de foco – recusando-se a conhecer, fingir que os fatos não são o que são, afastando sua mente do estado de consciência, subvertendo-a. Pode também perceber (clara ou vagamente) que está fora de foco e escolher fazer o esforço exigido por um estado de consciência focada em um objetivo – um esforço que a natureza não o obriga a fazer.

Diferentemente das suposições de Pigliucci, a visão objetivista do livre-arbítrio não pressupõe uma volição mágica que transcende a identidade e a causalidade – como a vontade de Deus é tradicionalmente entendida. Pelo contrário, o Objetivismo defende que a volição é uma forma de causalidade. De acordo com a teoria de Rand, ações livres não são causadas por eventos anteriores (como diz o determinismo), mas pelo agente escolhendo iniciar uma ação fundamentalmente cognitiva.

Dizer que um processo de pensamento é causado pelo próprio agente não significa apenas que seja causado por fatores internos – e não externos – à pessoa, como diriam muitos deterministas: significa que o agente possui a capacidade para iniciar a ação e escolher exercer essa capacidade.

Se a estrutura determinística aceita atualmente por tantos filósofos e por pessoas com mentalidade científica não permite essa forma de causalidade diretamente observável, então, essa estrutura deveria ser revista. As alternativas – negar o fator observável da escolha como ilusão (incompatibilismo determinístico) ou reescrevê-lo para se encaixar na teoria compatibilista da volição (como tenta Pigliucci) não são científicos[5].

A explicação compatibilista da volição de Pigliucci

Pigliucci, como alguém que oferece conselhos sobre como viver e o que valorar, parece querer manter uma noção genuína de livre-arbítrio, presumivelmente porque percebe que a ação moral é impossível sem ela.

“Nossas decisões resultam de causas externas (opiniões alheias, eventos, etc.), combinadas com causas internas (nosso caráter, julgamentos, etc.) Seres humanos não são receptores passivos de influências externas… somos parte integrante do funcionamento do universo. E o mais intrigante… é que a volição, como causa interna, pode agir sobre si mesma de forma repetitiva.” É uma forma elegante de dizer que podemos refletir sobre os nossos julgamentos e mudá-los. E, quanto mais nos envolvemos em etapas cognitivas e comportamentais, mais modificamos nossa causalidade interna. E, se nossas mudanças seguirem a direção correta, tornamo-nos pessoas melhores: a meta da prática estoica.

Esse é o mais perto que podemos chegar de uma concepção de livre-arbítrio num universo governado por leis e relações de causa e efeito.

Resumindo sua perspectiva, ele escreve:

Nada é realmente nosso, exceto os julgamentos a que chegamos. É com base neles que nos consideramos seres humanos dignos ou indignos. E, sorte nossa, eles estão sob nosso controle. Ou seja, o objetivo de viver uma vida que valha a pena também está sob nosso controle[6].

Mas, quando Pigliucci diz que nossos julgamentos estão “sob nosso controle”, e que “podemos refletir sobre eles e mudá-los”, surge uma questão fundamental: ambas as alternativas – considerar ou não, refletir ou não, pensar ou não – estão ao alcance de nossa escolha, em qualquer circunstância? Ou nossa capacidade de refletir depende de eventos anteriores? Se levarmos o determinismo a sério, então, se seremos ou não pessoas melhores no presente ou no futuro não é algo que podemos escolher, pois tudo isso já foi determinado antes de nascermos.

Em seu livro Stoicism and the Art of Happiness, Donald Robertson apresenta a posição estoica a respeito do determinismo como, mais precisamente, “a ideia de que absolutamente tudo na vida acontece necessariamente como deveria”.

Nossos próprios pensamentos e ações são partes necessárias de toda a “cadeia causal” que forma o universo… de tal modo que, mesmo que existam coisas na vida que pareçam exigir grande esforço de nossa parte, não importa se o fazemos ou não, pois o resultado já está traçado.

O que acontece depois dependerá, em parte, do que você escolhe fazer em seguida, já que você é uma engrenagem minúscula, mas essencial, do maquinário do universo. Porém, as suas escolhas são consequência da grande sequência causal que iniciou bilhões de anos atrás, antes de seu nascimento, no início do universo[7].

O ponto essencial aqui é que, para uma engrenagem – de cujo todo e qualquer pensamento e ação é necessitado/gerado por fatores que estão fora de seu controle –, uma filosofia de vida é inútil. É justamente porque temos livre-arbítrio que precisamos, e podemos utilizar, uma perspectiva filosófica para guiar nossas escolhas em direção a uma visão do que nossas vidas e nosso caráter poderiam, e deveriam, ser.

Se você está procurando uma perspectiva filosófica sobre a vida que entende que realmente coisas que dependem de você – que você encara alternativas verdadeiras, de modo que, por exemplo, se fizer as escolhas certas, pode se tornar uma pessoa melhor e viver uma vida melhor – você precisa de uma filosofia que abraça o livre-arbítrio (e não uma que apenas lhe fornece uma ilusão de liberdade enquanto insiste numa visão de mundo que nega a sua existência).

This translation has not been reviewed by the author/essa tradução não foi revisada pelo autor.

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Publicado originalmente em New Ideal.

Traduzido por Roberta Contin e revisado por Matheus Pacini

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[1] Pigliucci, Massimo. “Epic Battles in Practical Ethics: Stoicism vs Objectivism.”

[2] Dennett, Daniel. “My Brain Made Me Do It (When Neuroscientists Think They Can Do Philosophy),” (European University Institute, Max Weber Lecture Series. 15 de dezembro de 2010), p. 2.

[3] Ayn Rand, Atlas Shrugged, pt. 3, chap. 7; Ayn Rand, “The Objectivist Ethics,” in The Virtue of Selfishness A New Concept of Egoism (New York: Signet, 1964 Centennial edition); Nathaniel Branden’s “The Contradiction of Determinism,” Objectivist Newsletter2 (Maio de 1963), “What Is the Difference Between the Objectivist Concept of Free Will and Traditional Concepts?,” Objectivist Newsletter 3 (Janeiro de 1964), “The Objectivist Theory of Volition,” Objectivist 5 (Janeiro-Fevereiro de 1966), e “Volition and the Law of Causality,” Objectivist 5 (Março de 1966). Veja também Leonard Peikoff, Objectivism: The Philosophy of Ayn Rand(New York: Dutton, 1991), cap. 2, e Harry Binswanger, “Volition as Cognitive Self-Regulation,” Organizational Behavior and Human Decision Processes50 (December 1991). Para uma discussão sobre a concepção objetivista de volição veja Allan Gotthelf and Gregory Salmieri, eds., A Companion to Ayn Rand(Chichester, UK, and Malden, MA: Wiley Blackwell, 2016), caps. 5 e 11. 

[4] Ayn Rand, “This Is John Galt Speaking,” For the New Intellectual (New York: Signet, 1964 Centennial edition).

[5] Como um acadêmico destaca: “segundo as teorias compatibilistas [da volição], determinismo e liberdade são compatíveis”, pois “liberdade” é entendida de uma forma que as ações de um indivíduo são predeterminadas.” (Gotthelf and Salmieri, Companion to Ayn Rand, 260)

[6] Pigliucci, Massimo. “Epic Battles in Practical Ethics: Stoicism vs Objectivism.”

[7] Robertson, Donald. Stoicism and the Art of Happiness. London: Hodder & Stoughton; New York, McGraw-Hill, 2013, p. 84.

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