Adelina Fendrina



Howard Roark e a importância da criação de valor


Em seu discurso no tribunal, Howard Roark explica a natureza, a motivação e a importância daqueles que criam valor, sejam novas obras de arte, inovações tecnológicas ou avanços no conhecimento teórico. Por que Roark crê que a criação de valor, bem como o que ela exige dos criadores, é de crucial importância desde uma perspectiva moral? Em sua resposta, considere o que um personagem de outro romance de Rand, A revolta de Atlas, tem a dizer sobre o processo de criação de valor no discurso A natureza de um artista.

“Nada é dado ao homem na Terra, exceto um potencial e o material para realizá-lo.”[1]

Embora seja uma citação de um ensaio filosófico de Rand sobre ética objetivista, ela se encaixa perfeitamente no tópico central de seu romance A nascente. Todas as ideias do romance culminam em um ponto focal da narrativa, a saber, no momento quando Howard Roark, agindo como seu próprio defensor no tribunal, faz um discurso em que explica sua filosofia de vida ao examinar o contraste e o conflito entre pensadores independentes, chamados de “Criadores” e os parasitas, chamados de “homens de segunda mão”.

Em A ética objetivista, Ayn Rand também afirma que os “dois pontos essenciais do método de sobrevivência próprios a um ser racional são: pensamento e trabalho produtivo.”[2] Howard Roark, sua primeira representação formal de um ideal moral, incorpora totalmente esse princípio. Para uma compreensão clara desse fato, é crucial esboçar o conceito central da moralidade, associado com a filosofia objetivista e manifestado mais claramente nos próprios protagonistas de Rand.

A definição textual de ética são os princípios morais que governam o comportamento da pessoa, determinando suas escolhas e, consequentemente, o destino de sua vida. A filosofia de Ayn Rand define a ética como uma necessidade metafísica objetiva para a questão fundamental da vida – a sobrevivência do homem. A sobrevivência em si pressupõe utilizar todo recurso à sua disposição que aumente suas chances de permanecer vivo. Tal fato, por sua vez, exige que o homem conquiste a natureza, e a curve à sua vontade – e ele não pode fazer isso sem usar a sua mente e o seu raciocínio criativos. Assim, a razão é o meio básico de sobrevivência do homem. É apenas através da avaliação objetiva de seu entorno que ele pode tomar as decisões, desenvolver os processos, tomar as medidas cabíveis e criar os bens que permitirão a manutenção de sua existência.

Como resultado, o trabalho produtivo é o objetivo central da vida de um homem racional, além de motivar suas outras virtudes na formação do seu ser. O resultado do trabalho produtivo é a realização criativa, que preserva e avança a vida de um indivíduo. Todo feito desse tipo é mais um passo em direção a um mundo onde o indivíduo molda seu entorno à imagem de sua própria mente, em oposição ao mundo primitivo de sub-humanos, cuja vida é dominada por seu ambiente imediato.

Consequentemente, os criadores de valor são a fundação e a força vital da sociedade humana, bem como o elemento crucial de sua sobrevivência. Ainda assim, eles não são dirigidos a tal objetivo por um fator externo (como Quentin Daniels nota em A revolta de Atlas: “Pesquisa científica governamental é uma contradição em termos”), nem motivados pelo desejo de servir aos seus irmãos que, no mais das vezes, os repudiam. Suas criações são um produto de sua mente e, portanto, manifestação de seu gênio criativo: “A criação, não seus usuários. A criação, não os benefícios que ela trazia para os outros. A criação que dava forma à sua verdade.[3]

Outro personagem dos romances de Rand oferece uma explicação semelhante para o processo de criação de valor na manutenção da humanidade. Em A revolta de atlas, o brilhante compositor Richard Halley faz uma defesa apaixonada da motivação por trás de seu trabalho. No discurso chamado A natureza do artista, ele se distancia da crença popularmente defendida de que o processo criativo por trás de uma obra de arte é uma iluminação espiritual abstrata, como se fosse um jato espontâneo de vômito de um bêbado, mas sim a define como a realização de uma mente propositada, focada em dar forma à própria verdade do indivíduo.

Ele equipara a arte que produz às realizações de outros em campos aparentemente não relacionados de trabalho – dos triunfos de Ellis Wyatt, magnata do petróleo, e de Ken Danagger, proprietário de minas de carvão. O que os une não é um produto específico, mas sim a força propulsora por trás de seus feitos, que é sempre a mesma, independentemente de sua ocupação – seja a composição de uma sinfonia, o desenvolvimento de um poço de petróleo ou a exploração de uma mina de carvão. O próprio Halley a define como um “fogo que queima” que ele, músicos e poetas, empresários e inventores, todos possuem. E essa é a capacidade de ver e fazer o que nunca foi feito antes, a habilidade rara e única de aceitar por completo “uma dedicação intransigente à busca da verdade.”[4] Seu discurso demonstra que a necessidade de criar valores é vista e expressada de diversas formas, mas está sempre aí, nunca renegando seu papel como força motriz do desenvolvimento, e da própria existência, da sociedade.

Portanto, a criação de valores é crucial desde uma perspectiva moral porque requer que um homem seja o seu melhor, faça o melhor de si, aja de forma íntegra e conquiste a natureza usando sua força motriz e condição de sua existência – sua mente racional. É o ingrediente que sustenta a vida como a conhecemos e, além disso, permite-a evoluir e progredir; e o criador de valor é o seu epitome moral.

Howard Roark, o protagonista de A nascente, é uma representação ficcional dessas convicções – ele é uma ideia filosófica transformada em personagem físico/real, a manifestação do indivíduo independente e propositado, cujo único objetivo em vida é a sua felicidade. Ele é o criador, cuja preocupação é conquistar a natureza. Ele é quem percebe que é o arquiteto de seu próprio destino, que não precisa que outros vivam para o seu bem, e que não vive para o bem dos outros. Ele é todo indivíduo que foi ridicularizado por suas realizações, e que as viu serem tiradas dele; ele é toda mente que nunca foi escravizada pela ideia degradante de servir ao “bem comum” à custa de sacrificar sua própria verdade. Ele é quem quebra os grilhões.

Nem a história, nem a sociedade têm sido caridosas com indivíduos como ele – ao longo dos milênios, eles foram vitimizados, combatidos e amaldiçoados – os primeiros mártires da mente humana. Tal dilema foi causado por suas grandes habilidades. Em diversas épocas, indivíduos suspeitos de serem melhores que seus pares foram condenados como bodes expiatórios de sua sociedade, sendo desprezados por sua capacidade superior – de cientistas a industrialistas, passando por empresários. Nesse sentido, o romance distópico “Cântico” ilustra brilhantemente a jornada do criador de valor, lutando ao longo da história contra toda restrição e tentativa de acorrentar e restringir a sua mente, quebrando, assim, os grilhões de deuses, reis, nascimento, parentesco ou raça “pois seu é o direito do homem, e não existe direito na Terra acima do seu.” Ele molda o mundo de acordo com sua visão – e sua visão é a forma que ele dá à sua verdade.

Em seu discurso, Roark destaca que a sobrevivência não é garantida – e só é possível pelo produto do próprio esforço do homem. E, portanto, o homem encara a alternativa constante – de depender de sua própria mente e habilidades, ou existir como um sanguessuga, alimentando-se do trabalho produtivo de seus superiores morais. “O criador origina. O parasita toma emprestado.”

Os criadores de valor são independentes – homens e mulheres que não tem medo de se defender com sua própria mente, agindo de acordo com sua vontade; que criam, não roubam; que, agindo com base em seu próprio interesse racional, sustentam a humanidade e a protegem de ladrões, estelionatários e coletivistas.

Por outro lado, a existência do homem de segunda mão é totalmente social – ele acredita que o homem existe apenas como meio para os outros homens. Sua preocupação é conquistar os homens de habilidade, aprisionando-os à sua própria forma sub-humana de vida. Seu método de vida é parasítico, sua vida não pertence a ele, sendo meramente uma sequência de tentativas fúteis de escravizar a mente humana e levar crédito pelas realizações dela. Ele é aquele que abdica a responsabilidade do julgamento independente em prol da existência vergonhosa como marionete cognitivo da sociedade, comandado pelas ideias dominantes de seu entorno cultural. Na batalha interminável entre o individualista e o coletivista, o homem de segunda mão é todo rei, deus, religião e filosofia de via que busca despojar os indivíduos de seus meios básicos de sobrevivência. Ele, o homem de segunda mão, é o forjador dos grilhões que devem ser quebrados.

Ao apontar as visões opostas desses dois grupos quanto à natureza da existência, Howard Roark oferece uma sanção moral para a decisão que o fez ser menosprezado e levado à julgamento. Seus inimigos acreditam tê-lo envergonhado. Ele veste essa vergonha como símbolo de sua existência. Ele é atacado por ser fiel às suas crenças e manter sua integridade – pilares irrefutáveis de sua filosofia devida e de seu ideal moral mais elevado – a busca de sua própria felicidade, alcançável apenas ao agir e viver de acordo com os princípios objetivos da realidade, e sendo fiel aos seus próprios princípios.

O triunfo de Roark marca a vitória na luta da mente humana contra todo obstáculo que a limita. Roark incorpora um conjunto de princípios, fundado na ideia de progresso, desenvolvimento e melhoria da existência da humanidade. Sua filosofia de vida celebra a criação de valor e a realização, que são mostradas como crucialmente importantes desde uma perspectiva moral porque são produtos da mente pensante do homem, aplicada não apenas para responder a uma questão fundamental da existência do homem, mas também para assegurar a evolução continuada da humanidade.

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Publicado originalmente em Ayn Rand Institute.

Traduzido por Matheus Pacini.

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[1] Virtude do egoísmo pagina 30

[2] Ve 32

[3]

[4] Revolta de atlas