Existe desenvolvimento sem liberdade?

É possível restringir a liberdade econômica sem abdicar de outras liberdades?

É possível desenvolver inovações tecnológicas em contextos socialistas?

Nossa sociedade prioriza a inovação e o desenvolvimento de alternativas que buscam o melhor para cada indivíduo ou segue o corporativismo e os interesses de poucos?

Ser liberal é sinônimo de ser individualista?

Somos livres para debater?

Mesmo após 85 anos de seu lançamento, essas e outras reflexões ainda se fazem presentes na leitura da obra Cântico de Ayn Rand, em que nos é apresentada uma sociedade distópica que rejeita todos os ideais de liberdade.

E bem sabemos que não existe transgressão mais grave do que fazer ou pensar algo por si sós”1.

Assim se dá a primeira ideia da sociedade descrita pela autora, em que “não há homens exceto o grandioso NÓS”, conforme definido pelo “Conselho Mundial”, e em que “tudo que não é permitido por lei é proibido”.

Nesse cenário vive Igualdade 7-2521, um varredor de ruas, profissão que lhe foi imposta pelo “Conselho de Vocações”, e um culpado confesso e reincidente pelo crime da “Transgressão da Preferência”.

Igualdade 7-2521 é constantemente reprimido pelos seus pensamentos de liberdade, individualidade e pelo seu desejo de saber. Ser diferente é considerado maligno em uma sociedade em que todos devem concordar com todos, em que todo o conhecimento é aquele já posto e ensinado pelos professores, e em que o único sentido da existência é dedicá-la aos demais cidadãos e ao Estado.

Apesar disso, Igualdade 7-2521 encontra um esconderijo em que consegue passar algumas horas por dia dedicando-se a seus pensamentos “impróprios” e à sua curiosidade, chegando até a descobrir a eletricidade. Tal descoberta, contudo, foi prontamente recusada pelo “Lar dos Eruditos”, não apenas por ter sido trabalhada individualmente, e tudo aquilo “que não é feito coletivamente não pode ser bom”, mas, principalmente, pois arruinaria o “Departamento de Velas” e a “labuta humana”.

Diante de tal recusa, Igualdade 7-2521 foge para uma floresta desconhecida, onde posteriormente é encontrado por Liberdade 5-3000, sua amada proibida, com

1 Cântico – Ayn Rand. 1a edição. Setembro de 2015 – CEDET. Pg. 28

quem segue rumo até encontrar abrigo nas montanhas. Chegando lá, descobrem o conhecimento dos “Tempos Não-mencionáveis” e tudo aquilo que lhes era escondido pela ordem vigente, descobrem a cultura e a ciência e, principalmente, descobrem o livre-arbítrio e a palavra “EU”, esperando um dia levar todas essas descobertas aos demais2:

Chegará o dia em que eu romperei com todos os grilhões da Terra e farei desaparecer as cidades daqueles que estão escravizados. Minha casa se tornará a capital do mundo, onde todos os homens serão livres para existir para si próprios.

Para que esse dia chegue eu lutarei e também meus filhos e amigos escolhidos. Pela liberdade do Homem. Pelos seus direitos. Pela sua vida. Pela sua honra.

E aqui, à frente dos portões do meu Forte, cunharei na pedra a palavra que constitui minha referência e minha bandeira. A palavra que nunca morrerá, mesmo que morramos em batalha. A palavra que não pode morrer nesta terra, pois ela representa seu coração, sua glória, seu sentido…

A palavra sagrada:

EGO.

Rand traz em sua obra uma crítica às políticas coletivistas, deixando claro que apenas a liberdade individual pode trazer prosperidade e avanço social, trazendo reflexões que, mesmo escritas em 1937, seguem necessárias.

De início, mesmo que de forma fictícia, o livro demonstra o que efetivamente significa uma sociedade socialista no longo prazo. Muitos dos que se dizem socialistas ainda hoje acreditam que isso implicaria apenas maior intervenção do Estado na economia, mas que a liberdade seguiria inalterada nos demais ramos, ignorando que é mais que comprovado que, inexistindo liberdade econômica e de mercado, todas as outras liberdades deixam de existir.

Da mesma forma, as repressões a que o personagem se submete no livro e suas justificativas coletivistas ainda são verificadas em grande escala, vez que o discurso socialista segue disfarçado de moralidade, com alegações de que aqueles que se opõem aos seus conceitos são individualistas, quando, na prática, o resultado é exatamente o oposto.

O fato é que apenas a liberdade plena e a concorrência permitiram o desenvolvimento dos recursos que temos hoje. Hoje vivemos mais, erradicamos doenças, temos acesso amplo e instantâneo a informações e produtos etc., e isso só foi possível por meio da liberdade. Apesar disso, ainda hoje a regra costuma ser a rejeição inicial das inovações pelo sistema, que acabam se impondo exatamente pela demanda social e pelos benefícios que elas trazem.

A recusa à eletricidade, buscando não prejudicar o setor de velas, parece exagerado e poderia até ser cômico, se não fosse verificada até hoje nos mais diversos ramos. Taxistas rejeitaram os aplicativos de transporte, hoteleiros rejeitaram os aplicativos de hospedagem, rodoviários rejeitaram os aplicativos para fretamento de

2 Cântico – Ayn Rand. 1a edição. Setembro de 2015 – CEDET. Pg. 84

ônibus, sempre com forte influência junto ao setor político, implicando em restrições a tais aplicativos por meio de regulamentações corporativistas com o objetivo de impedir que empresas de tecnologia concorram com os setores “tradicionais”.

O mundo nunca esteve tão desenvolvido e os povos nunca estiveram tão felizes como hoje, consequência direta do sistema capitalista, da potencialização das liberdades individuais e da liberdade de debate. Isso é um fato.

É triste ver que ideais facilmente refutáveis já em 1937 seguem difundidas em 2022, que a realidade é negada por diversos setores da sociedade e que ainda temos que seguir lutando não apenas pelo fortalecimento de políticas de mercado, único meio para o desenvolvimento, mas pela própria liberdade de expressão em uma sociedade adepta a “cancelamentos” daqueles que pensam diferente.

Nosso “Conselho Mundial” e nosso “Lar dos Eruditos” seguem por aí disfarçados, considerando-se moralmente superiores e “donos da razão”, e a escolha é nossa: vamos nos curvar ou vamos seguir lutando?

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Revisado por Matheus Pacini.

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