Objetivismo Brasil - A Filosofia de Ayn Rand em Português.

Ensinando filosofia com A revolta de Atlas: Francisco D´Anconia versus Hume sobre razão e emoções

Na semana passada, postei a primeira aula que ministrei baseada em A revolta de Atlas. Estou apaixonado pela ideia de ensinar filosofia através da ficção, pois os alunos dedicam-se a discutir as ideias de um romance de cujos personagens passam a conhecer, mesmo que não concordem necessariamente com suas ideias. É uma pena que poucos filósofos decidiram dramatizar suas ideias sob a forma literária.

Hoje explico como utilizei o cap. 6 “Os não comerciais”[1] para discutir um tema filosófico importante, bem como personagens relevantes. Tenho certeza de que, quando li esse capítulo pela primeira vez há 20 anos, percebi o seu papel de intensificar do drama entre Rearden, Dagny e Lillian. Quem poderia esquecer a cena onde Dagny troca seu colar de diamante pelo bracelete de Lillian, feito do metal Rearden? Mas também estou certo de que, como muitos leitores, não concedi a devida atenção ao aspecto psicológico do capítulo, que toca numa questão importante em psicologia moral.

O capítulo 6 começa com Hank Rearden, industrialista do aço, angustiado se deveria participar de sua festa de aniversário. Olhando no espelho, ele lembra o esforço de sua esposa em fazê-lo sentir-se culpado pelo amor ao seu trabalho, o qual ela comparava à filiação a uma “religião obscura”[2]. Rearden disse a si próprio que tinha o dever de servir a sua esposa, participando da festa, mas mesmo assim, ele não conseguia encontrar motivação para tal, e muito menos sentir-se culpado como ela queria que ele se sentisse. Isso deixa Rearden perplexo, pois “durante toda a sua vida, sempre que ele se convencia de que era correto fazer algo, o desejo de fazê-lo surgia automaticamente.[3]

Se tal generalização é verdadeira, por que Rearden ainda não tem qualquer interesse em participar? Meus alunos sugerem que, talvez, ele, de fato, não entenda que tenha tal dever. Talvez, eles estejam certos. Esse cena de abertura desperta para um tema que aparecerá inúmeras vezes ao longo do capítulo. Embora aceite que o capítulo lida com diversas questões filosóficas importantes, é muito interessante notar o tratamento do capítulo à relação entre razão e emoção.

Apesar de sua angústia, Rearden se força a participar da festa e, após despistar alguns convidados, encontrou refúgio ao lado de uma janela:

Ao longe, a Siderúrgica Rearden pintava o céu com um clarão vermelho. Ficou a contemplá-lo, sentindo-se aliviado por um momento.

Virou-se e olhou para o salão. Jamais gostara daquela casa, fora Lillian que a escolhera. Mas, naquela noite, a multiplicidade de cores dos vestidos das mulheres disfarçava a aparência da sala e lhe emprestava um ar de alegria brilhante. Rearden gostava de ver pessoas se divertindo, muito embora não entendesse que graça elas achavam naquilo.

Olhou para as flores, a luz refletida nas taças de cristal, os braços e os ombros das mulheres. Lá fora, soprava um vento frio pelo descampado. Os galhos de uma árvore estavam retorcidos pelo vento, como braços implorando socorro. A árvore era uma silhueta contra o clarão vermelho da siderúrgica.

Rearden não sabia dar nome àquela emoção que se apossara dele de repente. Não conhecia palavras que definissem sua causa, sua qualidade, seu sentido. Em parte era felicidade, mas era algo solene – como o ato de tirar o chapéu, embora ele não soubesse para quem.[4]

Logo Rearden encontra Francisco d´Anconia (pela primeira vez), e Francisco interpreta o que Rearden tinha acabado de pensar:

– É uma noite terrível para um animal surpreendido nesse descampado – disse Francisco d’Anconia. – É nessas horas que a gente compreende o que significa ser homem.

Rearden não respondeu de imediato. Depois disse, como se falasse para si mesmo, com um tom de espanto na voz:

– Engraçado…

– O quê?

– O senhor disse algo que pensei ainda há pouco…

– É mesmo?

– … só que não encontrei as palavras que exprimissem a ideia.

– Quer que eu continue a exprimi-la?

– Pois continue.

– O senhor contemplou essa tempestade com o maior orgulho que é possível sentir: orgulho por poder ter flores de verão e mulheres seminuas em sua casa numa noite como esta, uma demonstração da sua vitória sobre aquela tempestade. E, não fosse o senhor, a maioria das pessoas que estão aqui estaria impotente, entregue à fúria daquele vento num descampado como esse.[5]

Francisco chama atenção para o fato de que o sentimento de Rearden não é acidental. Rearden tinha ficado na janela, comparando o calmo interior de sua casa à cena tempestuosa (cujo contraste se intensifica com o clarão vermelho de sua siderúrgica). Menciono aos meus alunos que Rearden não é o primeiro a se sentir assim. Muitos poetas e filósofos experimentaram uma variação desse sentimento, normalmente chamado de o “sublime”. Um famoso teórico do sublime, Edmund Burke, descreveu-o assim em 1757: “Quando o perigo ou a dor se avizinham, eles são incapazes de trazer qualquer deleite, e são simplesmente terríveis; mas, a uma certa distância, e com algumas modificações, eles podem ser, e são, prazerosos, como os experimentamos diariamente.”

Viajantes normalmente sentem um tipo de prazer estético quando contemplam um deserto ou escalam uma montanha. Os poetas românticos o confundiram com uma experiência mística ou religiosa. Mas Burke está certo de que o prazer é uma função da distância, do afastamento do indivíduo da ameaça imposta pelas forças naturais. Quando a ameaça é ainda real, é difícil experimentar o prazer. Os colonizadores puritanos na Nova Inglaterra consideram o ambiente selvagem como maligno. Um dos primeiros visitantes ao Pico Pikes, hoje celebrado por sua beleza natural, descreveu-o como “sombrio” e “deserto”. O que tornou possível a distância de Burke de tais coisas terríveis? Os poetas românticos não passaram a reverenciar o terrível na natureza como belo até o início da Revolução Industrial. Tão logo os colonizadores se tornaram moradores de cidades que poderiam apreciar o contraste entre civilização e natureza. A versão desse sentimento em Rearden é muito particular: ao contrário do morador da cidade que considera como conforto estar separado da tempestade pela janela, Rearden construiu a siderúrgica que tornou a sua casa (e a festa) possíveis. A explicação de Francisco sugere que a emoção quase-religiosa sentida por Rearden não envolve um respeito por Deus ou pela natureza, mas por ele próprio.

Mas ao mostrar Francisco oferecendo uma explicação para o sentimento de Rearden por referência ao seus pensamentos, Rand está expressando um ponto-chave de sua psicologia moral: a sua visão de que as emoções são “o resultado automático dos julgamentos de valor de um homem integrados por seu subconsciente”. Essa visão terá um papel-chave na visão de Rand com respeito à integração corpo-mente, um tema ainda mais central em A revolta de Atlas. Mas essa é uma visão que fica em contraste total às visões expressadas pelos intelectuais que participam da festa de Rearden. O Dr. Pritchett expõe a explicação romântica padrão do sentimento do sublime, que o homem “não tem importância alguma no grande esquema do universo”. Ele diz que a razão (o pensamento) é “superstição” enquanto o instinto é o nosso único guia de vida”.

Tomando novamente do programa de Greg Salmieri, também pedi aos meus alunos que lessem uma seleção do Tratado da Natureza Humana de David Hume. Eles notaram que existe alguma semelhança entre as visões sobre a razão (o pensamento) de Pritchett e as de Hume: para Hume, a paixão é uma “existência original”, não devendo ser avaliada nem influenciada pela razão, e a razão é (infamemente) chamada de “a escrava das paixões”. A razão pode apenas descobrir meios para fins que são determinados pelas paixões. A razão não pode avaliar os fins: ele não pode derivar o “dever-ser” do “ser”.

De forma adequada, o capítulo “Os não comerciais” ilustra as consequências de levar a sério a ideia de Hume, não apenas em nível pessoal, mas também social: mostra a variedade de formas pelas quais a razão de Rearden está sendo escrava das paixões não avaliadas dos outros. O pensamento e o esforço de Rearden tornaram possível essa casa para essa família e essa festa para intelectuais irracionalistas que comem canapês enquanto mordem a mão de quem os alimenta. Mesmo o resquício da melodia do quarto concerto de Richard Halley foi explorada, dando forma à versão pop de Mort Liddy, O paraíso está em seu quintal.

Francisco chama a atenção de como Rearden está carregando o fardo de sua família, quem o próprio Rearden descreve como “crianças miseráveis”. Francisco diz que abordou Rearden "para lhe dar as palavras que necessitava, para quando ele as necessitasse", logo depois de seu diálogo com Rearden sobre a tempestade. Realmente, como descobrimos no início do capítulo, Rearden precisa entender as palavras por trás de sua dedicação ao seu trabalho, e sua inabilidade de sentir-se culpado por fazer o mesmo.

Rearden é o personagem mais psicologicamente complexo em A revolta de Atlas. Conhecemos mais ao final desse capítulo a sua visão de sua própria psicologia sexual. Após encontros com mulheres que aceitavam sexo como apenas “prazer casual”, ele passou a odiar o seu desejo sexual, pensando que era um "desejo puramente físico, não da consciência, mas da matéria […] uma escolha insensível à vontade de sua mente". Sem se dar conta, Rearden aceita a teoria de Hume e (Platão) sobre as emoções: elas não são nada mais que instintos animais cegos para quais ele, o homem racional, não é nada além de “escravo”.

Como, então, o fim do capítulo ajuda a desafiar a teoria das emoções de Rearden (e de Hume)? O próprio Rearden, no início do capítulo, notou que era sempre motivado a fazer o que achava estar correto. E, ficando na janela, Francisco explica o seu sentimento pela tempestade. O capítulo ainda retrata a forma como os sentimentos de Rearden mudam junto com o seu pensamento. Os alunos lembram o final do capítulo, quando ele novamente está na janela, perguntando-se por que Lillian tinha se casado com ele. Ele lembra que seu desejo por Lillian tinha acabado na primeira semana de seu casamento, quando ele soube que ela não era a mulher que representava ser, alguém que tornou visível seus próprios sentimentos por seu trabalho. E, após ele ver Dagny tomar o bracelete de Lillian na festa, sua psicologia sexual muda de foco: até o momento, ele ainda se aproximava de Lillian por sexo, mas agora ele estava livre desse impulso, e sente apenas repulsa por ela.

Como mencionei, há muito ocorrendo nesse capítulo. O título do capitulo (Os não Comerciais) lança luz sobre o contraste entre os comercialistas supostamente não espirituais (Rearden e Dagny) e os intelectuais e artistas supostamente espirituais da festa. Paradoxalmente, o capítulo apresenta os comerciais como tendo vidas profundamente emocionais, enquanto os não comerciais, vidas superficiais. Rearden considera seu trabalho em termos religiosos (embora ainda o veja como uma religião “obscura”, ele experimenta emoções quase religiosas sobre seu sucesso material, e seus desejos sexuais passam a ser focados em Dagny, que é capaz de apreciar, de forma que Lillian não pode, o valor sentimental do bracelete de metal Rearden, que é, como Onkar Ghate menciona, um símbolo material de uma realização profundamente espiritual”. É claro, todo mundo, seja comercial ou não, tem emoções. Uma coisa que pode distingui-los nesse capitulo é a medida em que estão dispostos a avaliar suas emoções, possibilidade essa que esse capítulo nos ajuda a examinar.

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Publicado originalmente em Ayn Rand Society.

Traduzido por Matheus Pacini.

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[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 137-173

[2] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 137.

[3] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 141.

[4] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 146-147.

[5] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 157-158.

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