María Marty

CEO do Ayn Rand Center - Latin America



Egoísmo racional: o caminho para uma sociedade benevolente


Quando Ayn Rand, romancista e filósofa russo-americana, publicou seu livro A virtude do egoísmo, seu título gerou uma série de reações pouco favoráveis. Até hoje, quando recomendo o livro, várias pessoas me perguntam: “que posso esperar de uma autora que cita o egoísmo como uma virtude?” “Isso não é nada”, – respondo –, “porque ela fixa o egoísmo como base de sua ética.”

É importante esclarecer aqui que o egoísmo de Rand difere radicalmente da concepção errônea adotada pela maioria, a qual não identifica o egoísta como quem se ocupa ou age de acordo com seu próprio interesse, senão como quem é capaz de agir contra tudo e todos para obter o que deseja.

Atualmente, existe uma forte tendência a separar as pessoas segundo uma falsa alternativa ética: os doadores/altruístas versus os predadores/egoístas. Ou você é do grupo que prioriza os outros antes de si próprio (não importa quem sejam esses outros), ou é do grupo que faria qualquer coisa para satisfazer os seus desejos. O doador/altruísta é a criança que compartilha seus brinquedos mais caros com quem nem sequer aprecia quando, internamente, não desejaria fazê-lo. O predador/egoísta é a criança prepotente que arranca os brinquedos das mãos alheias, guiado por seus desejos e caprichos ou, simplesmente, pelo prazer de exercer seu poder.

Frente a essa falsa alternativa, os país parecem ter apenas dois caminhos ao educar os seus filhos.

Vemos tal dilema quando alguns pais se esforçam para matar o vírus egoísta de seus filhos desde a infância, fazendo-lhes sentir que pensar em si próprio, buscar seu próprio benefício, ter sentido de propriedade e sentir orgulho são coisas ruins a que eles [seus filhos] devem renunciar. Um amigo presenciou um exemplo claro dessa atitude durante uma missa, quando viu sua vizinha pressionar a própria filha a doar sua boneca mais adorada. Ela não consegue esquecer a angústia daquela menina, obrigada a oferecer em sacrifício o que, para ela, era um grande valor, por causa do dever de se encaixar no padrão ético imposto por sua mãe. Possivelmente, ela aprendeu que ser uma “boa filha” significava subordinar seus próprios desejos aos desejos e necessidades alheias.

Também vemos isso nos pais que preferem ver seus filhos inseridos no grupo que faz o que quer, sem limites, que ensinam a seus filhos serem lobos por medo que se transformem em ovelhas, que os motivam a buscar seus propósitos não importando como ou à custa de quem. Eu mesma posso dar um exemplo que testemunhei numa partida de futebol de adolescentes. Um dos pais que observava o jogo de fora do campo gritou para seu filho – que estava disputando a bola com um rival -  – “quebre as pernas dele e tire a bola!” Para eles, o fim justifica os meios.

Numa sociedade onde só existem essas duas alternativas, a relação entre as partes será um jogo de soma zero. Se quiser ser bom, deve estar disposto a renunciar aos seus desejos. Se quiser conquistar seus objetivos, então, deve estar disposto a atropelar os demais. Vítimas e vitimadores. Bons e maus. Altruístas e predadores. Em nenhum dos casos, todavia, as pessoas podem se sentir, ao mesmo tempo, plenas, íntegras, respeitosas de si mesmas e dos demais, sendo capazes de estabelecer relações de benefício mútuo.

O outro problema dessa falsa alternativa é que acaba por fazer as pessoas julgarem as ações humanas não por suas consequências objetivas na realidade, nem pelas virtudes e habilidades que demandam de seu autor, mas sim por quem são seus beneficiários diretos. Assim temos aqueles que creem que uma ação é boa apenas quando os beneficiários são os outros, bem como aqueles que creem que uma ação é boa pelo simples fato de ser eu mesmo o beneficiário. Nenhuma das posições foca na natureza da ação. Se um homem morre ao tentar imprudentemente salvar um total desconhecido, os altruístas baterão palmas em seu enterro. Se um empresário obtém um privilegio porque ofereceu dinheiro ao político do momento, os predadores baterão palmas por seu esforço. Se um homem decide gastar parte de sua fortuna obtida honradamente em duas mansões e um iate, os altruístas criticarão a sua cobiça. Se um homem íntegro se nega a fazer uma negócio milionário mas sujo, os predadores o chamarão de estúpido.

Mas existe uma terceira opção, proposta por Rand em seu livro: o egoísmo racional. O egoísta racional tem a própria felicidade como objetivo fundamental de sua vida, e a encontra em valores objetivamente bons, aceitando a realidade como árbitro, a razão como juiz, e os direitos alheios à vida, à liberdade e à propriedade como limite intransponível.

A ética do egoísmo racional é baseada no fato de que o homem é um ser individual, com seu próprio corpo e sua própria mente, com suas próprias habilidades, desejos e sonhos, com direito a viver para si próprio e levar a cabo as ações que lhe permitam conservar seus valores. O egoísta racional considera que tem direito a viver para si próprio, e não está disposto a se converter num animal de sacrifício para satisfazer os desejos alheios, e muito menos num parasita de seus irmãos, pedindo-lhes que se sacrifiquem por ele.

O egoísta racional é a criança que conserva seus próprios brinquedos quando assim deseja e também os compartilha quando e com quem deseja. Ele não considera que qualquer criança mimada merece a sua generosidade, mas apenas aquelas que ele valoriza e respeita. Quando uma criança egoísta racional compartilha um brinquedo, ela não interpreta sua generosidade como um sacrifício em que ela perde (como aquela criança obrigada a doar sua boneca), senão como um prazer a que ela se vê recompensada com um valor maior do que o valor cedido. Ela segue seu próprio autointeresse, e não sua própria imolação.

Com sorte, essas crianças se transformarão em adultos egoístas racionais, que não estarão dispostos a serem sacrificados nem por indivíduos ou grupos predadores, e que tampouco estarão interessados em sacrificar ninguém para lograr seus próprios objetivos.

Até agora, a falsa alternativa doador/predador com a que temos lidado não fez outra coisa a não que gerar divisões dentro da sociedade, entre aqueles já cansados de viver, por dever, para os demais, e aqueles já muito acomodados a viver à custa dos primeiros, e com poucas intenções de renunciar aos seus privilégios.
 

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Publicado originalmente em PanamPost.

Traduzido por Matheus Pacini.

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