Porque todo mundo precisa de filosofia?


"Você não tem escolha sobre a necessidade de integrar suas observações, suas experiências, seu conhecimento em ideias abstratas, isto é, em princípios. Sua única escolha é se esses princípios são verdadeiros ou falsos, se eles representam sua convicção consciente, racional – ou uma mistura de noções colhidas ao acaso, cujas fontes, validade, contexto e consequências você não conhece, noções que, com mais frequência que não, você largaria como uma batata quente se soubesse. (Ayn Rand, Philosophy: Who needs it. P5)".

Todo mundo possui uma filosofia, mesmo que não consiga expressar em palavras.

Agimos como se nossa salvação eterna dependesse do seguimento dos mandamentos de Deus, ou não. Sentimos a necessidade de acreditar em algo e buscamos conhecimento, ou adotamos a visão cínica de que a busca é inútil. Todas as pessoas têm uma noção do que é certo e do que é errado. Podemos ver a nós mesmos como seres nobres, merecedores de felicidade ou como agentes transgressores, contra o meio ambiente, a justiça ou Deus. Muitas vezes, decidiremos o que constitui o nosso dever. Achamos que sabemos o que é arte quando a vemos, e adotamos princípios políticos e defendemos políticos e partidos.

Todas essas são questões filosóficas.

Nós precisamos saber se aquilo em que acreditamos é realmente verdade.

Convicções filosóficas são, frequentemente, subconscientes ou desarticuladas. Pela emoção, experimentamo-las em que Ayn Rand chamou de “sentido da vida”. Esse reflete os aspectos fundamentais do seu relacionamento com o mundo e as outras pessoas; é o seu sentimento intuitivo de como as coisas são e como elas deveriam ser. Cada um de nós precisa compreender suas próprias convicções de forma consciente, para ser capaz de expressar o “sentido de vida” em palavras. Caso contrário, não temos uma ideia clara do que acreditamos ou o que está nos motivando a fazer nossas maiores escolhas – ou se elas são verdadeiras. Precisamos saber o que pensamos sobre as questões filosóficas, porque nossas respostas podem afetar o curso de nossas vidas. E o sentido da vida que domina nações ou culturas pode determinar seus destinos.

Necessitamos de uma metafísica (a teoria da realidade) porque precisamos saber se o mundo material da vida diária é o único que existe – aqui a diferença entre viver para esta vida ou seguir alguma ideia religiosa de vida posterior (celestial). Precisamos saber se o universo é organizado, ou caótico – aqui a diferença entre tentar melhorar as coisas ou ver a vida como absurda e sem sentido.

Você leva o seu carro até um mecânico por que ele falha ao ligar o motor em clima úmido. Não seria estranho se ele desse de ombros e dissesse: “bem, os carros fazem isso às vezes”. Mas o que há de errado isso?” Por que você não toma essa atitude com relação aos seus problemas familiares ou profissionais? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Uma epistemologia é uma teoria do conhecimento. Pode parecer que, se você sabe alguma coisa, você apenas sabe: qual o problema? Para você ter uma ideia clara da sua vida e contexto, é necessário que você saiba organizar a massa de informações, opiniões e ideias que recebe dos outros; essa habilidade é baseada na epistemologia. Afinal, no fundo, precisamos saber se aquilo em que acreditamos é verdade. Como você sabe que uma pessoa lhe convenceu sobre uma questão? Isso pode ser muito importante quando a validade de uma teoria cientifica, o diagnóstico de um médico, ou o resultado de um julgamento estão em jogo. Algumas pessoas dizem que palavras são arbitrárias e têm o significado que melhor nos convier. Quer dizer que não importa se alguém usa palavras que outrem não pode definir em termos reais? Devemos nos preocupar se sentimos que não temos intuições místicas, ou devemos nos preocupar se a possuímos?

Um vizinho bate na porta de sua casa com uma petição: pesticidas de fazendas próximas estão aparecendo em quantidades consideráveis (vestigiais) na água potável da cidade. O vizinho quer removê-los a todo custo, afinal, “ninguém provou que a segurança do uso desses produtos”, diz ele. Contudo, os agricultores distribuíram panfletos explicando que eles foram cientificamente testados e provados seguros. Ambos estão falando sobre provas, mas eles parecem não querer dizer a mesma coisa. Como dizer quem está certo? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Ética é a ciência que usamos para julgar o bem e o mal. Não queremos ser maus, e gostaríamos de fazer o bem se pudéssemos. Mas, para isso, precisamos saber o que significa fazer o bem, e que tipo de ações tende a alcançá-lo. As pessoas nos fazem cobranças: o que devemos aos outros e o que os outros nos devem? Para organizar nossa bussola moral e tomar um rumo certo na vida, precisamos evitar que nosso barco seja despedaçado por objetivos e princípios contraditórios.

Você está trabalhando em uma empresa e subindo em sua hierarquia. Você tenta trabalhar de forma eficiente e espera ganhar muito dinheiro, por meio de bônus para você e lucros para sua empresa. Mas você se sente um pouco desconfortável, e reflete: você está fazendo o bem, ou você está apenas jogando com a vida e seguindo seu fluxo? Afinal, a sua religião ensina que as melhores pessoas simplesmente vivem para servir os outros. Você se sente culpado por tentar ganhar dinheiro, ou se sente moralmente orgulhoso do seu sucesso? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Nós todos sabemos o básico sobre política, dado que temos de escolher em quem votar, e em quais causas investir o nosso tempo e dinheiro. Embora discutamos sobre tal, poucas pessoas têm tempo para organizar suas convicções fundamentais sobre as questões políticas. Existe um conflito entre o bem da sociedade e o que é bom para o indivíduo? A sociedade é responsável por servir aos pobres? Inculcar caráter e valores? Regular a economia? Em parte, as nossas ideias dependem de nossas crenças éticas, mas também precisamos de uma ideia clara do que é o governo e com que tipo de atividades ele deve se envolver, e se deve.

Em época de eleições, um candidato promete assegurar que cada pessoa terá um emprego decente criando uma lei que estabelece o salário mínimo justo e outra que restringe demissões. Outro candidato promete assegurar que seremos livres, dizendo que, ao final, mesmo que haja demissões e os salários sejam estabelecidos no mercado de trabalho, estaremos em uma situação melhor. Qual é o melhor? Afinal, o que os slogans como “justiça” e “liberdade” realmente significam? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Todos nós gastamos tempo e dinheiro com arte: pela leitura de livros, por meio de filmes e shows, pela música e etc. Mas, se não refletirmos sobre estética, não entenderemos claramente por que temos essa necessidade, e justamente como a arte a supre. Qual a diferença entre arte boa e ruim? A arte nos fornece o combustível espiritual do qual todos nós dependemos, e utiliza-lo sem saber nada sobre sua finalidade básica ou sobre os seus padrões de julgamento, seria como tentar ligar um carro com qualquer tipo de combustível.

Um novo objeto apareceu em frente a um edifício de destaque na sua cidade. É constituído por chapas de metal dispostas para ser algo grande e angular. O jornal diz que é uma grande peça de arte contemporânea, mas você quer saber, se isso é arte, o que não é? Com o que uma peça de escultura deve se parecer? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

As pessoas muitas vezes pensam na filosofia como um campo altamente abstrato e técnico, cheio de enigmas de interesse apenas para acadêmicos. Mas, na verdade, todos nós dependemos de conclusões filosóficas, e identificar a filosofia de uma pessoa é uma atividade altamente prática. Não precisamos ser todos filósofos, mais que devemos ser matemáticos. No entanto, todos nós aprendemos a somar na escola, e precisamos também ser capazes de responder algumas questões filosóficas básicas. É assim que sabemos qual nossa situação no mundo e aquilo que devemos fazer na vida.

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