ANARQUISMO

A anarquia, como um conceito político, é uma ingênua abstração oscilante: [...] uma sociedade sem um governo organizado estaria à mercê do primeiro criminoso que aparecesse e que a arremessasse para dentro do caos da guerra entre quadrilhas. Mas a possibilidade da imoralidade humana não é a única objeção à anarquia: até mesmo uma sociedade em que cada membro fosse completamente racional e perfeitamente moral poderia não funcionar em um estado de anarquia; é a necessidade de leis objetivas e de um juiz para desacordos honestos entre os homens que exige o estabelecimento de um governo[1].

 

Se uma sociedade não fornecesse uma proteção organizada contra a violência, ela obrigaria todos os cidadãos a andar armados, a transformar suas casas em fortes, a atirar em qualquer estranho que se aproximasse de suas portas – ou a unir-se a uma gangue de cidadãos que lutariam com outras gangues, formadas para o mesmo objetivo, o que, dessa forma, levaria à degeneração dessa sociedade para o caos do regime de quadrilhas, por exemplo, baseado na força bruta, em um combate tribal perpétuo de selvagens pré-históricos. O uso da força física – mesmo em seu uso retaliatório – não pode ser deixado a critério dos cidadãos. A coexistência pacífica torna-se impossível se um homem tem que viver sob a ameaça constante de que a qualquer momento um de seus vizinhos pode usar de violência contra ele. Se as intenções de seus vizinhos são boas ou más, se seu julgamento é racional ou irracional, se eles são motivados por um sentimento de justiça, ou por ignorância, ou por preconceito, ou por maldade, o uso da força contra um homem não pode ser deixado a critério da decisão arbitrária de outro.[2]

 

Uma variante recente da teoria anarquista, que está confundindo alguns dos defensores mais jovens da liberdade, é um absurdo chamado “governos competitivos”. Aceitando a premissa básica dos estatistas modernos – que não veem diferença entre as funções do governo e as funções da indústria, entre força e produção, e que defendem a propriedade de negócios por parte do governo –, os proponentes dos “governos competitivos” tomam o outro lado da mesma moeda e declaram que, já que a competição é tão benéfica para os negócios, ela deveria ser aplicada também ao governo. Em vez de um único governo monopolista, dizem eles, deveria haver um número de governos diferentes na mesma área geográfica, competindo pela fidelidade dos cidadãos individuais, com cada cidadão livre para “comprar” e defender o governo escolhido. Lembre-se de que a repressão aos homens é o único serviço que um governo tem a oferecer. Pergunte-se o que uma competição de repressão forçada significaria. Não se pode considerar essa teoria uma contradição de termos, já que é desprovida de qualquer entendimento dos termos “competição” e “governo”. Nem pode ser chamada de abstração oscilante, já que é desprovida de qualquer contato ou referência com a realidade e certamente não pode ser concretizada, nem mesmo aproximadamente. Uma ilustração será suficiente: suponha que o Sr. Smith, um cliente do governo A, suspeita que seu vizinho de porta, Sr. Jones, um cliente do governo B, o roubou; um pelotão da polícia A dirige-se à casa do Sr. Jones e lá encontra o esquadrão da polícia B, que declara que não aceita a validade da queixa do Sr. Smith e não reconhece a autoridade do governo A. O que acontece, então? A partir de agora, você decide[3].

 

O denominador comum de tais [proponentes de “governos competitivos] é o desejo de fugir da objetividade (objetividade requer uma longa cadeia conceitual e princípios muito abstratos), de agir por capricho, e de lidar com homens e não com ideias – isto é, com os homens de sua gangue, unidos pelos mesmos concretos[4].

 

Imagine um bando de forasteiros na rua, metralhadoras à mão. Quando confrontado pela polícia, o líder do bando anuncia: “meus rapazes e eu só estamos aqui para assegurar que a justiça será feita, portanto, vocês não têm direito de interferir”. De acordo com os anarquistas “libertários”, em tal confronto a polícia tem obrigação moral de se retirar, sob a pena de trair os direitos de autodefesa e livre comércio[5].

 

A força privada é força não autorizada pelo governo, não validada por suas garantias processuais, e não sujeita à sua supervisão. O governo deve considerar tal força privada uma ameaça – isto é, uma violação potencial aos direitos individuais. Ao barrar tal força privada, o governo está retaliando contra uma ameaça[6].

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Tradução de Felicia Volkweis e Matheus Pacini

Publicado originalmente em Ayn Rand Lexicon

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[1] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Tradução de Felícia Volkweis. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 173.

[2] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Tradução de Felícia Volkweis. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 166-167.

[3] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Tradução de Felícia Volkweis. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 173-174.

[4] RAND, Ayn. Philosophy: Who Needs It. New York: New American Library (Penguin Group), 1982. p. 44

[5] BINSWANGER, Harry. Q&A Department Anarchism”. The Objectivist Forum, p. 12

[6] BINSWANGER, Harry, “Q&A Department Anarchism”. The Objectivist Forum, Agosto de 1981, p. 11