JULGAMENTO MORAL

Não se deve nunca falhar ao manifestar um julgamento moral.

Nada pode corromper e desintegrar uma cultura ou o caráter de um homem tão completamente quanto o faz o preceito de agnosticismo moral, a ideia de que nunca se deve proferir um julgamento moral sobre os outros, que se tem de ser moralmente tolerante sobre qualquer coisa, que o bem consiste em nunca distinguir o bem do mal.

É óbvio quem lucra e quem perde com tal preceito. Não é justiça ou tratamento igual que você concede aos homens quando se abstém igualmente de elogiar as virtudes e condenar os vícios destes. Quando sua atitude imparcial declara, de fato, que nem o bem, nem o mal, podem esperar algo de você — a quem você trai, e a quem encoraja?

Mas pronunciar um julgamento moral é uma enorme responsabilidade. Para ser um juiz, o indivíduo deve possuir um caráter inquestionável; não precisa ser infalível ou onisciente, e não é uma questão de erros de conhecimento; ele precisa de uma integridade inviolável, isto é, a ausência de qualquer indulgência em relação ao mal intencional e consciente. Assim como um juiz num tribunal pode errar, quando a prova não é convincente, ele não pode evitar a prova disponível, nem aceitar suborno, nem permitir que qualquer sentimento pessoal, emoção, desejo ou medo obstrua seu julgamento da compreensão dos fatos da realidade — assim cada pessoa racional deve manter uma integridade igualmente rigorosa e solene na sala da corte de sua própria consciência, onde a responsabilidade é mais aterrorizante do que num tribunal público, porque ele, o juiz, é o único a saber quando foi acusado.[1]

 

Se as pessoas não se entregassem a abjetas evasões, como a declaração de que algum vil mentiroso “está com boas intenções” — de que um vagabundo vadio “não pode evitá-lo” — de que um delinquente juvenil “precisa de amor” — de que um criminoso “não conhece nada melhor” — de que um político caça-poder é movido por sua preocupação pelo “bem público” — de que os comunistas são simplesmente “reformistas agrários” — a história de poucas décadas ou séculos passados teria sido diferente.[2]

 

O medo é melhor expressado no preceito: ‘‘Não julgue, que não será julgado.” Mas este preceito, na verdade, é uma abdicação da responsabilidade morai: é um cheque em branco moral que alguém dá aos outros em troca de um cheque em branco moral que espera para si mesmo.

Não há maneira de escapar do fato de que os homens devem fazer escolhas; uma vez que os homens têm de fazer escolhas, não há como escapar dos valores morais; enquanto os valores morais estão em jogo, nenhuma neutralidade moral é possível. Abster-se de condenar um torturador é tornar-se um acessório para a tortura e assassinato de suas vítimas.

O princípio moral a se adotar nesta questão é: “Julgue e esteja preparado para ser julgado.” O oposto da neutralidade moral não é uma condenação cega, arbitrária e autoaprovada de qualquer ideia, ato ou pessoa que não se ajusta ao humor de alguém, aos seus slogans memorizados.[3]

 

“O homem que se recusa a julgar, que nem concorda nem discorda, que afirma não haver absolutos e acredita desse modo se esquivar das responsabilidades – esse homem é responsável por todo o sangue que está sendo derramado agora no mundo. A realidade é absoluta, a existência é absoluta, um grão de poeira é absoluto e uma vida humana também é absoluta.

“Há dois lados em toda questão: um está certo e o outro, errado, mas o meio é sempre mau. O homem que está errado ainda guarda algum respeito pela verdade, mesmo que apenas por assumir a responsabilidade da escolha. Mas o homem do meio é o calhorda que silencia a verdade para fingir que não há escolha nem valores, que está disposto a escapulir de todas as batalhas, a lucrar com o sangue dos inocentes ou a rastejar perante os culpados, que faz justiça condenando à prisão tanto o ladrão quanto a vítima, que resolve os conflitos obrigando o sábio e o insensato a encontrarem uma solução intermediária que agrade a ambos.[4]

 

A moralidade é a província do julgamento filosófico, não do diagnóstico psicológico. O julgamento moral deve ser objetivo, isto é, baseado em fatos perceptíveis e demonstráveis. O caráter moral de um homem deve ser julgado com base em suas ações, afirmações e convicções conscientes – não com base em inferências (normalmente, espúrias) sobre seu subconsciente.

Um homem não deve ser condenado ou perdoado com base no estado de seu subconsciente. Seus problemas psicológicos são sua preocupação privada: não devem ser tratados em público, e não devem se tornar um fardo nas costas de vítimas inocentes e, muito menos, campo de estudo de psicologistas aproveitadores. A moralidade exige que os homens sejam tratados e julgados como adultos responsáveis.

O significado disso é que se concede ao homem o respeito de supor que ele é consciente do que faz e expressa, julgando suas afirmações e ações filosoficamente, isto é, pelo que são – e não psicologicamente, isto é, como indícios ou pistas para um significado secreto, oculto ou inconsciente. Ninguém se dirige às pessoas em códigos.[5]

 

É a mente consciente – e não subconsciente – do homem que está sujeito ao seu controle direto – e ao julgamento moral. É a mente consciente de um indivíduo específico que se deve avaliar (com base em evidência objetiva) para julgar o seu caráter moral.

A alternativa não está entre (i) moralização imprudente e indiscriminada ou (ii) neutralidade moral evasiva - isto é, condenação sem conhecimento ou rejeição ao conhecimento, de modo a não condenar. Essas são duas variantes intercambiáveis do mesmo motivo: fugir da responsabilidade de cognição e de julgamento moral.[6]

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Publicado originalmente em Ayn Rand Lexicon.

Traduzido por Matheus Pacini.

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[1] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p. 92-93

[2] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p. 95

[3] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p. 93-94

[4] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p. 383

[5] PEIKOFF, Ayn. “The Psychology of ‘Psychologizing’,” The Objectivist, March 1971

[6] PEIKOFF, Ayn. “The Psychology of ‘Psychologizing’,” The Objectivist, March 1971