PECADO ORIGINAL

A maldição é o princípio da sua moralidade, a destruição é seu objetivo, meio e fim. Seu código começa amaldiçoando o homem por ser mau, depois exige que ele pratique o bem, que é definido como algo impossível de ser praticado por ele. Como primeira prova de virtude, o código exige que o homem aceite a depravação sem provas. Exige que ele parta não de um padrão de valor, e sim de um padrão de mal, que é o próprio homem, por meio do qual ele terá então de definir o bem, que é aquilo que ele não é.

Não importa quem venha a lucrar com a renúncia da glória do homem e com sua alma atormentada, se um Deus místico com algum desígnio incompreensível ou se um indivíduo qualquer cujas feridas pustulentas, por algum motivo incompreensível, imponham obrigações ao homem. O bem não é coisa que o homem possa compreender – seu dever é aceitar com humildade anos de penitência, expiando a culpa de sua existência para qualquer cobrador de dívidas ininteligíveis, tendo como único conceito de valor o zero: o bem é aquilo que é não humano.

O nome desse absurdo monstruoso é pecado original.

Um pecado que careça de poder de escolha é um atentado à moralidade e uma contradição insolente: aquilo que está fora do âmbito da escolha está fora do domínio da moralidade. Se o homem é mau de nascimento, ele não tem vontade, nem tem o poder de alterar sua condição. E, se ele não tem vontade, não pode ser bom nem mau. Um robô é amoral. Considerar pecado humano algo que não depende de sua escolha é escarnecer da moralidade. Considerar a natureza do homem um pecado é escarnecer da natureza. Puni-lo por um crime que ele cometeu antes de nascer é escarnecer da justiça. Considerá-lo culpado de algo em que não existe a possibilidade de inocência é escarnecer da razão. Destruir a moralidade, a natureza, a justiça e a razão por meio de um único conceito é um ato de maldade difícil de ser igualado. No entanto, é essa a base do seu código moral.

Não se escondam por trás da evasiva covarde de que o homem nasce dotado do livre-arbítrio, porém com uma tendência ao mal. Livre-arbítrio dotado de tendência é um jogo com cartas marcadas que força o homem a ter o trabalho de jogar, a arcar com a responsabilidade do jogo e a pagar por ele, porém a decisão já favorece previamente uma tendência da qual ele não pode escapar. Se a tendência é escolha sua, ele não pode possuí-la de nascença. Se não é escolha sua, então ele não tem livre-arbítrio.

Qual a natureza da culpa que seus mestres denominam pecado original? Quais os males adquiridos pelo homem quando ele decaiu de um estado por eles considerado perfeito? Segundo o mito, o homem comeu do fruto da árvore da ciência – ele adquiriu uma mente e se tornou um ser racional. Essa ciência era o conhecimento do bem e do mal – ele, então, se tornou um ser moral. Foi condenado a ter de ganhar o pão por meio do trabalho – e assim se tornou um ser produtivo. Foi condenado a experimentar o desejo – e assim adquiriu a capacidade do prazer sexual. Os males pelos quais seus mestres amaldiçoam o homem são a razão, a moralidade, a criatividade e o prazer – todas as virtudes cardeais da sua existência. O mito da queda do homem não visa explicar nem condenar os vícios do homem, não considera seus erros sua culpa. Ele condena, sim, a essência de sua natureza de homem. Fosse ele o que fosse, aquele robô do Jardim do Éden, que existia sem mente, sem valores, sem trabalho, sem amor, não era homem.

A queda do homem, segundo seus mestres, consistiu na aquisição das virtudes necessárias à existência. Estas, segundo os padrões deles, constituem o pecado do homem. O mal do homem – acusam eles – é o fato de ele ser homem. Sua culpa – segundo eles – é estar vivo.

É essa, para eles, a moralidade da misericórdia, a doutrina do amor ao homem.[1]

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Tradução de Matheus Pacini.

Publicado originalmente em Ayn Rand Lexicon.

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[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p. 348