PRINCÍPIO DO COMERCIANTE

O símbolo de todos os relacionamentos entre tais homens, o símbolo moral do respeito pelos seres humanos, é o comerciante. Nós, que vivemos dos valores e não do saque, somos comerciantes, tanto na matéria quanto no espírito. O comerciante é o homem que faz jus àquilo que recebe e não dá nem toma para si o que é imerecido. O comerciante não pede que lhe paguem por seus fracassos, nem que o amem por seus defeitos. Ele não desperdiça seu corpo como sacrifício nem sua alma como esmola. Do mesmo modo que ele só dá seu trabalho em troca de valores materiais, ele também só dá seu espírito – seu amor, sua amizade, sua estima – em pagamento e em troca de virtudes humanas, em pagamento de seu próprio prazer egoísta, que recebe de homens merecedores de seu respeito. Os parasitas místicos que, em todas as eras, insultaram o comerciante e o desprezaram, ao mesmo tempo que honraram os mendigos e os saqueadores, sempre souberam o motivo secreto de sua zombaria: o comerciante é a entidade que eles temem – o homem justo.[1]

 

A ética objetivista sustenta que o bem humano não requer sacrifício e não pode ser alcançado pelo sacrifício de ninguém; sustenta que os interesses racionais dos homens não se chocam — que não há conflito de interesses entre homens que não desejam o imerecido, que não fazem sacrifícios, nem os aceitam, que se tratam entre si como comerciantes, trocando valor por valor.

O princípio da troca é o único princípio ético racional para todos os relacionamentos humanos, pessoais e sociais, particulares e públicos, espirituais e materiais. É o princípio de justiça.

Um negociante é um homem que merece aquilo que adquire e não dá, nem toma, aquilo que não é merecido. Ele não trata os homens como senhores ou escravos, mas como pessoas iguais e independentes. Ele trata com os homens por meio de uma troca livre, voluntária, não-forçada e não-coagida — uma troca que beneficia ambas as partes por seu próprio julgamento independente. Um comerciante não espera ser pago por suas negligências, mas por suas realizações. Ele não transfere a outros o peso de seus fracassos e não hipoteca sua vida em garantia pelo fracasso de outros.

Em questões espirituais — (por “espiritual”, quero dizer: “pertencente à consciência do homem”) — a moeda ou o meio de troca é diferente, porém o princípio é o mesmo. Amor, amizade, respeito, admiração são a resposta emocional de um homem às virtudes de outro, o pagamento espiritual dado em troca do prazer pessoal egoísta que um homem tira das virtudes de caráter de outro. Somente um brutamontes ou um altruísta afirmaria que a valorização das virtudes de outra pessoa é um ato do desinteresse, e no que concerne ao próprio interesse e prazer, não faz diferença se alguém trata com um gênio ou um bobo, se encontra um herói ou um facínora, se casa com a mulher ideal ou com uma prostituta. Em questões espirituais, um negociante é um homem que não procura ser amado por suas fraquezas ou fracassos, apenas por suas virtudes, e que não troca seu amor pelas fraquezas ou fracassos de outros, mas apenas pelas suas virtudes.[2]

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Tradução de Matheus Pacini

Publicado originalmente em Ayn Rand Lexicon.

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[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p. 345

[2] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p.42