FELICIDADE

Introdução de Franciny Constantin Senra

 

O conceito de “felicidade” é central para a compreensão da filosofia moral objetivista de Ayn Rand. A felicidade deve ser compreendida como o ponto de partida, bem como o objetivo final a ser alcançado pelos indivíduos. A felicidade envolve um estado de vida bem-sucedido, sendo o prazer efeito cuja causa é a realização de um valor. No sentido contrário, um indivíduo que desvaloriza e renuncia à própria felicidade valoriza o fracasso de seus valores, negando assim a própria moralidade. Numa definição geral, a felicidade é considerada um estado de consciência resultante dos valores alcançados por uma pessoa.

Cada indivíduo deve ser considerado como um fim em si mesmo, encontrando valores que direcionem sua vida ao encontro de seus objetivos. Desse modo, os homens devem buscar o próprio benefício através da valorização do autointeresse racional – onde, por consequência, a finalidade será a própria felicidade, conquistada através do alcance das metas estabelecidas. Entretanto essas metas e objetivos não podem ser baseados em desejos e caprichos irracionais. A razão é a principal orientação do homem em direção à moralidade. Ao estabelecer metas a serem alcançadas, os indivíduos não podem ser responsáveis pelos outros. Sendo assim, o homem deve retomar sua autoestima, preocupando-se com seus próprios interesses, guiado por um egoísmo racional – ou seja, a razão (e não os caprichos emocionais) é o guia das ações que culminam no autointeresse. É válido ressaltar que o egoísmo se apresenta racional na medida em que está de acordo com o padrão de valor máximo (a própria vida) – daí o altruísmo ser irracional ao não colocar a vida do indivíduo em primeiro lugar.

Chegamos assim na proposta central de Rand em sua ética egoísta: não devemos nos sacrificar pelos outros assim como não devemos sacrificá-los por nós. Caso o nosso amor ao próximo seja maior do que nosso amor-próprio, teremos problemas.

O homem está destinado à própria felicidade, e por isso deve, por si mesmo, tomar medidas para alcançá-la sem esperar que os outros busquem fazê-lo feliz.

Citações de Ayn Rand

 

“A felicidade é o estado de sucesso da vida; a dor é um agente da morte. A felicidade é aquele estado da consciência que decorre da realização dos valores que se tem. Uma moralidade que ousa lhes dizer que vocês devem procurar a felicidade na renúncia à sua felicidade – valorizar o fracasso de seus valores – é uma insolente negação da moralidade. Uma doutrina que lhes dá como ideal o papel de animal a ser sacrificado em holocausto no altar dos outros lhes dá a morte como padrão. Por obra e graça da realidade e da natureza da vida, o homem – todo homem – é um fim em si, existe por si, e a realização de sua própria felicidade é seu mais elevado objetivo moral.

“Mas nem a vida nem a felicidade podem ser alcançadas pela busca de caprichos irracionais. Assim como o homem é livre para tentar sobreviver de qualquer maneira aleatória – mas há de morrer se não viver de acordo com as exigências de sua natureza –, ele também é livre para buscar sua felicidade em qualquer fraude irracional. Nesse caso, porém, a tortura da frustração é tudo o que ele encontrará, a menos que busque a felicidade própria do homem. O objetivo da moralidade é ensinar não a sofrer e morrer, e sim a gozar a vida e viver.”[1]

 

A felicidade não se atinge por meio de caprichos emocionais. Ela não é a satisfação de todo e qualquer desejo irracional que vocês tentem satisfazer às cegas. Felicidade é um estado de alegria não contraditória – uma alegria sem castigo nem culpa, que não entra em conflito com nenhum dos seus valores e não contribui para sua própria destruição –, não o prazer proporcionado pela fuga da sua consciência, e sim pela utilização plena dessa consciência; não o prazer de falsear a realidade, e sim o de atingir valores que são reais; não o prazer de um bêbado, e sim o de um produtor. A felicidade só pode ser atingida por um homem racional, o que não deseja objetivos que não sejam racionais, que não busca nada senão valores racionais, que só encontra prazer e alegria em atos racionais.

“Do mesmo modo que sustento minha vida não por meio do roubo nem de esmolas, e sim por meu próprio esforço, também não tento basear minha felicidade na desgraça dos outros nem nos favores que os outros me concedam, porém a ela faço jus por minhas realizações. Do mesmo modo que não considero o prazer dos outros o objetivo da minha vida, também não considero o meu prazer o objetivo das vidas dos outros. Assim como não há contradições nos meus valores nem conflitos nos meus desejos, também não há vítimas nem conflitos de interesse entre homens racionais, que não desejam o imerecido nem se encaram uns aos outros com uma volúpia de canibal, homens que nem fazem sacrifícios nem os aceitam.[2]

 

Em termos psicológicos, a questão da sobrevivência do homem não confronta sua consciência como uma questão de “vida ou morte”, mas como uma questão de “felicidade ou sofrimento”. A felicidade é o estado de triunfo da vida, o sofrimento é sinal de alerta do fracasso, da morte. Assim como o mecanismo de prazer-dor do corpo humano é um indicador automático do bem-estar de seu organismo, um barômetro de sua alternativa básica, vida ou morte — também o mecanismo emocional da consciência do homem está programado para executar a mesma função, como um barômetro que registra a mesma alternativa por meio de duas emoções básicas: alegria ou sofrimento. As emoções são os resultados automáticos dos juízos de valor do homem integrados pelo seu subconsciente; as emoções são estimativas daquilo que promove ou ameaça os valores do homem, daquilo que está a favor ou contra ele — calculadores-relâmpago que lhe dão o somatório de seu lucro ou prejuízo.[3]

 

Felicidade é aquele estado da consciência que provém da realização dos próprios valores. Se um homem valoriza o trabalho produtivo, sua felicidade é a medida do sucesso alcançado no seu serviço. Mas se um homem valoriza a destruição como um sádico — ou a autotortura, como um masoquista —, ou a vida além-túmulo, como um místico —, ou a excitação momentânea como um corredor de automóveis —, sua pretensa felicidade é a medida de seu sucesso no serviço de sua própria destruição. Deve ser acrescentado que o estado emocional de todos aqueles irracionais não pode ser adequadamente designado como felicidade ou mesmo prazer: é meramente um alívio de momento de seu estado crônico de terror.[4]

 

A manutenção da vida e a busca da felicidade não são duas questões separadas. Considerar a própria vida como o valor último, e a própria felicidade como o mais alto propósito, são dois aspectos da mesma realização. Existencialmente, a atividade de perseguir objetivos racionais é a atividade de manter a própria vida; psicologicamente, seu resultado, recompensa e concomitância é um estado emocional de felicidade. É experimentando a felicidade que o indivíduo vive plenamente cada hora, ano ou a totalidade da vida. E quando se experimenta o tipo de felicidade pura que é um fim em si mesma — o tipo que nos faz pensar; “por isto vale a pena viver” — o que estamos saudando e afirmando em termos emocionais é o fato metafísico de que a vida é um fim em si mesma,

Mas o relacionamento de causa e efeito não pode ser invertido. É apenas através da aceitação da própria vida como princípio fundamental e pela busca dos valores racionais que a vida requer, que se alcança a felicidade — não tornando a “felicidade” como um princípio indefinido e irredutível e então tentando viver por essas diretrizes. Se você conquistar aquilo que é bom pelo critério racional de valor, isto o fará necessariamente feliz; mas aquilo que o faz feliz, por algum critério emocional indefinido, não é necessariamente o bom, Aceitar “qualquer coisa que faça feliz” como um guia de ação significa: ser guiado apenas por caprichos emocionais. Emoções não são ferramentas de cognição; ser guiado por caprichos — por desejos cuja fonte, natureza e significado não se sabe — é transformar a si mesmo num robô cego, operado por demônios que não podem ser conhecidos (por vãos intentos de evasão), um robô nocauteando seu próprio cérebro imobilizado contra as paredes da realidade que se recusa a ver.[5]

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Revisão de Matheus Pacini

Publicado originalmente em Ayn Rand Lexicon.

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[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p.337

[2] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p.344

[3] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p.37

[4] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p.39

[5] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p.40