VALORES

Para desafiar a premissa básica de qualquer disciplina, devemos começar pelo início. Na ética, deve-se começar perguntando: O que são valores? Por que o homem necessita valores?

“Valor” é tudo aquilo pelo qual alguém age para conseguir e/ou manter. O conceito de “valor” não é um conceito primário; ele pressupõe uma resposta à pergunta: de valor para quem e para o quê? Ele pressupõe uma entidade capaz de atuar para atingir um objetivo frente a uma alternativa. Onde não existem alternativas, não são possíveis nem objetivos e/sem valores.

Cito do discurso de Galt: “Há apenas uma alternativa fundamental no universo: existência ou não-existência — e ela pertence a uma única classe de entidades: à dos organismos vivos. A existência de matéria inanimada é incondicional, a da vida não: depende de um curso específico de ação. A matéria é indestrutível, eia muda suas formas, mas não pode parar de existir. Somente um organismo vivo enfrenta uma alternativa constante: a questão da vida ou morte. A vida é um processo de ação autogerada e autossustentada. Se um organismo falha nesta ação, ele morre; seus elementos químicos permanecem, mas sua vida cessa de existir. É somente o conceito de ‘Vida’ que faz o conceito de ‘Valor’ possível. É apenas para uma entidade viva que as coisas podem ser boas ou más.”

Para tornar este ponto totalmente claro, tente imaginar um robô indestrutível, imortal, uma entidade que se move e age, mas que não pode ser afetada por nada, que não pode ser mudada em qualquer aspecto, que não pode ser danificada, machucada ou destruída. Tal entidade não seria capaz de ter quaisquer valores; não teria nada para ganhar ou para perder; ela não poderia considerar nada como sendo a seu favor ou contra, servindo ou ameaçando seu bem-estar, preenchendo ou frustrando seus interesses. Ela não poderia ter nenhum interesse ou objetivos.[1]

 

‘Virtude’ é o ato por meio do qual se ganha ou se conserva o valor. ‘Valor’ pressupõe uma resposta à pergunta: valor para quem e por quê? Pressupõe um padrão, um objetivo e a necessidade de ação em oposição a uma alternativa. Onde não há alternativas não pode haver valores.[2]

 

Sem um objetivo último ou fim, não pode haver objetivos ou meios menores: uma série de meios que avançam em uma progressão infinita na direção de um fim inexistente é uma impossibilidade metafísicas epistemológica. É somente um objetivo último, um fim em si mesmo, que faz possível a existência de valores. Metafisicamente, a vida é o único fenômeno que é um fim em si mesmo: um valor ganho e mantido por um processo constante de ação. Epistemologicamente, o conceito de “valor” é geneticamente dependente e derivado do conceito antecedente de “vida”. Falar de “valor” separadamente de “vida” é pior do que uma contradição em termos. “É somente o conceito de ‘Vida* que torna possível o conceito de ‘Valor’.

Era resposta àqueles filósofos que argumentam que nenhuma relação pode ser estabelecida entre os fins ou valores últimos e os fatos da realidade, deixe-me ressaltar que o fato de entidades vivas existirem e funcionarem necessita a existência de valores e de um valor último, que para qualquer entidade viva é sua própria vida. Consequentemente, a validação dos julgamentos de valores deve ser obtida baseando-se nos fatos da realidade. O fato de que uma entidade viva é, determina o que ela deve fazer, isto é o suficiente no que se refere à questão da relação entre o “ser” e o “dever”.

Agora, de que maneira um ser humano descobre o conceito de “valor”? Por quais meios ele se torna pela primeira vez consciente da questão do “bem e do mal” na sua forma mais simples? Mediante as sensações físicas de prazer ou dor. Assim como as sensações são o primeiro passo no desenvolvimento de uma consciência humana no terreno da cognição, assim também o são no terreno da valoração.

A capacidade de experimentar prazer ou dor é inata no corpo do ser humano; é parte de sua natureza, parte do tipo de entidade que ele é. Ele não tem escolha a este respeito, assim como tampouco tem escolha sobre o critério que determina o que o fará experimentar a sensação física de prazer ou dor. Que critério é este? Sua vida.[3]

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Revisado por Matheus Pacini

Publicado originalmente em Ayn Rand Lexicon

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[1] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p. 23

[2] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p. 320

[3] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p. 25