JUSTIÇA

Justiça é o reconhecimento do fato de que não se pode falsear o caráter dos homens assim como não se pode falsear o caráter da natureza; de que é necessário julgar todos os homens de modo tão consciencioso quanto se julgam objetos inanimados, com o mesmo respeito pela verdade, a mesma visão incorruptível, pelo mesmo processo de identificação puro e racional; de que todo homem deve ser julgado por aquilo que é e tratado como tal; de que, do mesmo modo como não se paga mais por um pedaço de escória enferrujada do que por um de metal reluzente, assim também não se dá mais valor a um canalha do que a um herói; de que o seu julgamento moral é a moeda que paga os homens por suas virtudes e seus vícios, e esse pagamento exige de vocês uma honra tão escrupulosa quanto a que demonstram nas suas transações financeiras; de que não desprezar os vícios dos homens é um ato de falsificação moral, e não admirar as virtudes humanas é um ato de peculato; de que colocar qualquer outro interesse acima da justiça é desvalorizar a sua moeda moral e fraudar o bem em prol do mal, visto que somente o bem pode sair perdendo quando a justiça é fraudada, e somente o mal pode lucrar – e que o fundo do buraco no fim daquele caminho, o ato de falência moral, é punir os homens por suas virtudes e recompensá-los por seus vícios, que essa é a entrega à depravação total, a Missa Negra do culto à morte, a dedicação da consciência à destruição da existência.[1]

 

Qual fato da realidade deu origem ao conceito de “justiça”? O fato de que o homem deve tirar conclusões sobre coisas, pessoas e eventos ao seu redor, isto é, deve julgá-los e avaliá-los. O seu julgamento é automaticamente correto? Não. O que pode levar o seu julgamento a ser incorreto? A falta de evidência suficiente, ou sua evasão da evidência, ou sua inclusão de considerações outras que os fatos do caso. Como, então, pode-se chegar ao julgamento correto? Baseando-o, exclusivamente, na evidência fatual e na consideração de toda a evidência relevante disponível. Mas essa não é uma descrição de “objetividade”? Sim, “julgamento objetivo” é uma das mais amplas categorias a qual o conceito de “justiça” pertence. O que distingue “justiça” de outras instâncias de julgamento objetivo? Quando se avalia a natureza ou ações de objetos inanimados, o critério de julgamento é determinado pelo propósito particular para o qual você os avalia. Mas como determinar o critério de avaliação do caráter e das ações dos homens, em vista do fato de que os homens possuem a faculdade da volição? Qual ciência pode oferecer um critério objetivo de avaliação com respeito a questões volitivas? A Ética. Agora, eu preciso de um conceito que designe o ato de julgar o caráter e/ou as ações do homem exclusivamente com base em toda a evidência fatual disponível, e de avalia-la por meio de um critério moral objetivo? Sim. Tal conceito é “justiça”.[2]

 

Não é justiça ou tratamento igual que você concede aos homens quando se abstém igualmente de elogiar as virtudes e condenar os vícios destes. Quando sua atitude imparcial declara, de fato, que nem o bem, nem o mal, podem esperar algo de você — a quem você trai, e a quem encoraja? [3]

 

Visto que os homens nascem carentes de dados ou padrões, quer cognitivos, quer morais, um homem racional julga estranhos como inocentes até que se provem culpados, e lhes concede aquela boa vontade inicial em nome de seu potencial humano. Depois, ele os julga de acordo com o caráter moral que demonstram. Se ele os achar culpados por males importantes, sua boa vontade será substituída por desprezo e condenação moral. (Se se valoriza a vida humana, não se pode valorizar os seus destruidores.) Se ele os achar virtuosos, lhes concederá valor pessoal e individual e reconhecimento, na proporção de suas virtudes. [4]

 

A nova “teoria da justiça” [de John Rawls] demanda que os homens combatam a “injustiça” da natureza através da instituição da mais obscenamente impensável injustiça entre os homens: privar os “favorecidos pela natureza” (isto é, os talentosos, os inteligentes e os criativos) do direito à recompensa pelo seu trabalho (isto é, seu direito à vida) – premiando os incompetentes, os estúpidos e os indolentes com o direito ao proveito sem esforço das recompensas que não poderiam produzir ou imaginar, e com as quais nem saberiam o que fazer. [5]

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Tradução de Matheus Pacini

Publicado originalmente em Ayn Rand Lexicon

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[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p. 342

[2] RAND, Ayn. Introduction to Objectivist Epistemology, “Definitions”. p. 51

[3] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p. 92

[4] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Trad. de On Line-Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, 1991. p. 62

[5] RAND, Ayn. Philosophy: Who Needs It“An Untitled Letter”. p. 110