Craig Biddle

Editor-presidente do The Objective Standard.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, filosofia, ética e política

Confira todos os artigos do autor no site do The Objective Standard.



Quais são os princípios de uma direita (liberal)?


A expressão “direita liberal” pode soar contraditória para algumas pessoas. Mas não é: é a integração de termos lógicos que devem andar juntos[1], e deve ser compreendida e aceita pelos defensores da razão e liberdade.

Ao longo da história, as características essenciais do liberalismo a serviço da vida (isto é, liberalismo clássico) têm sido a preocupação com raciocínio lógico, direitos individuais, liberdade de expressão e econômica. Da mesma forma, as características essências da direita americana têm sido os direitos de propriedade, livre mercado e o capitalismo.

Por esse prisma, os princípios fundamentais do liberalismo e da direita seriam os mesmos. Isso fica cada vez mais claro na medida em que delineamos os princípios básicos de cada um, revelamos sua essência e verificamos como se unem numa ideologia coerente baseada na observação e na lógica.

Os princípios apresentados abaixo não são uma lista exaustiva das ideias da direita liberal: para tal, seria preciso um livro. Pelo contrário, esses são os princípios mais básicos e gerais da ideologia. Outros aspectos sobre a natureza da realidade e, portanto, importantes para uma cultura de razão e liberdade poderiam ser inclusos em uma apresentação mais abrangente. Mas nosso objetivo aqui é focar no essencial.

Não cabe aqui derivar ou induzir cada um dos princípios. Isso também exigiria um livro ou, pelo menos, um artigo dedicado a cada um. (Dito isto, incluirei links e citações de artigos ou livros que se concentrem em tais derivações.) O objetivo aqui tampouco é mostrar como esses fundamentos se aplicam aos assuntos cotidianos. Esse é o propósito de periódicos como o The Objective Standard, que publica artigos nesse sentido de maneira constante.

O objetivo do presente ensaio é estabelecer de forma simples um conjunto de princípios integrados, baseados na observação, em apoio à cultura da razão e da liberdade.

A razão é o único meio de conhecimento do homem.

Toda a história da civilização, ciência e progresso humano demonstra que o meio de obtenção de conhecimento do homem – seu único meio – é a razão, a faculdade que identifica e integra todas as coisas fornecidas pelos seus sentidos[2]

Adquirimos conhecimento ao observar a realidade, ao integrar nossas observações em conceitos, generalizações e princípios, ao verificar nossas conclusões frente às da lógica e, se for necessário, ao corrigir quaisquer contradições descobertas no caminho. Foi assim que descobrimos os princípios da física e engenharia, biologia e nutrição, química e medicina, agricultura e economia, pedagogia e psicologia, moralidade (objetiva) e política, e todos os outros campos (genuínos) de conhecimento.

A razão é o meio pelo qual descobrimos a natureza das coisas e suas propriedades, e como podemos usá-las para melhorar as nossas vidas. É por isso que pais incentivam os filhos a “usarem a cabeça”; professores recomendam aos alunos que estudem, tribunais de justiça exigem evidências para julgar ações. E é por isso que vamos a médicos de verdade – os que aplicaram a razão para se tornarem especialistas em suas áreas – ao invés de curandeiros ou videntes.

O conhecimento não vem da fé, revelação, ou qualquer outra forma de percepção extrassensorial (PES): ele é produto da observação perceptiva, integração conceitual, e lógica. É um produto da razão.

A direita liberal reconhece e sustenta a razão como o único instrumento de conhecimento do homem[3].

Os requisitos vitais da prosperidade humana constituem o padrão objetivo de moralidade e da legitimidade política.

A única maneira de determinar quais princípios morais ou políticos estão certos e quais estão errados é através de um padrão objetivo de moralidade. Tal padrão é derivado da realidade e se baseia em perguntas como: “o que são valores e por que o ser humano precisa deles?” Ao buscar respostas para essas questões, descobrimos que nossos valores são ações realizadas para ganhar ou manter coisas, e o motivo pelo qual precisamos obter ou manter coisas é a vida e a prosperidade[4]. (Se não quiséssemos nada disso, não precisaríamos de nenhum valor; poderíamos apenas ficar parados e morrer por inanição.)[5]

A direita liberal têm nos requisitos da vida e da prosperidade humana o padrão de valor moral (moralidade) porque esses são os únicos baseados na razão. Embora a sequência de observações e integrações que dão origem a este princípio esteja além do escopo deste artigo, tal conclusão faz sentido até mesmo numa análise superficial de nossas próprias vidas e do mundo ao nosso redor. A única razão pela qual as pessoas necessitam de valores e princípios morais é porque eles dão a elas a capacidade de pensar a longo prazo em uma vida inteira de prosperidade. Pessoas que desejam viver uma vida de significado, propósito e felicidade precisam de orientação para isso. Nós não nascemos sabendo, tampouco adquirimos tal conhecimento de maneira automática. Se quisermos, devemos observar a realidade e desenvolver verdades gerais para guiar nossas ações de acordo com elas. Daí a urgência de princípios morais: axiomas sobre escolhas, valores, ações e condições sociais necessários para a prosperidade humana.

A direita liberal reconhece tanto a necessidade de um padrão objetivo de moralidade quanto o fato de que os requisitos da vida humana constituem esse padrão.

A vida e a felicidade de cada indivíduo são seus valores absolutos.

Porque seres humanos são indivíduos – cada um com seu corpo, sua mente, suas experiências – a vida de cada indivíduo é, com efeito, seu valor absoluto. Isso significa que cada indivíduo deve buscar os valores que servem a sua vida, onde cada um é responsável pelas suas escolhas e ações, e cada um deve respeitar o direito alheio de buscar seus valores. (Mais sobre o princípio dos direitos abaixo.)

Tratar sua própria vida como valor absoluto não significa tratar outras pessoas de forma injusta. De forma clara, outras pessoas – desde que sejam racionais, produtivas, honestas e respeitem direitos – são de grande valor (ou valor potencial) para quem é racional e ama a vida. Elas proporcionam amizades, romances, relações comerciais, bens e serviços, lazer, e todo tipo de valor social. Tratar pessoas de forma justa – como devem ser tratadas – é do interesse de todos, afinal, maximiza os relacionamentos bons (pró-vida) e minimiza os ruins (sufocantes). Toda pessoa racional percebe a importância disso em sua vida, bem como na vida de amigos e familiares.

Tratar a sua vida como seu valor absoluto significa usar a mente para orientar o aproveitamento máximo de suas conquistas e felicidade ao longo da existência. Significa saber que sua mente controla suas escolhas e ações, que você é responsável por elas, e que elas constituem seu caráter e determinam, grosso modo, o curso da sua vida. Do mesmo modo, significa reconhecer que a mente de todo indivíduo controla suas escolhas e ações, e ele é responsável por elas.

A direita liberal reconhece o autointeresse e a responsabilidade pessoal como virtudes morais por elas serem requisitos básicos para a vida e prosperidade humana – e porque buscá-las é, com certeza, o dever moral de cada indivíduo[6].

O meio básico de vida de um ser humano é o julgamento racional de sua própria mente.

Os seres humanos vivem e prosperam, de maneira fundamental, através do uso da razão – observação, conceituação e lógica – para entender o mundo e suas necessidades e escolher um sentido de ação que sustente suas vidas e as façam avançar. Em suma, vivemos de acordo com nosso julgamento racional.

Por este motivo pais incentivam crianças a pensar antes de agir. Por isso que valorizamos o julgamento racional em sócios, políticos, amigos e parceiros. E é por causa disso que atribuímos “Prêmio Darwin” a pessoas cuja irracionalidade óbvia lhes causam danos ou morte.

A direita liberal reconhece o fato de que, para viver e prosperar, o indivíduo deve pensar de forma racional e agir de acordo. Em suma, deve agir conforme seu julgamento racional.

Se a força física é usada contra uma pessoa, ela não é capaz de agir de acordo com seu julgamento racional.

O que pode impedir uma pessoa de agir conforme o julgamento de sua mente? Outras pessoas e governos lançando mão do uso da força física contra ela.

Se, e na medida em que uma pessoa ou governo força um indivíduo a agir contra seu julgamento, ele não poderá agir de acordo com o mesmo. Ele deve agir conforme as ordens de quem está no comando; nessa circunstância, ele não consegue viver como ser humano. Ele é forçado a “viver” como algo menor. Por esta razão, escravidão e ditaduras são imorais, assim como o são formas menores de violência contra seres humanos. A vida humana é conduzida pelo julgamento de sua própria mente.

Podemos ver os efeitos maléficos do uso da força física ao longo da história – por exemplo, os horrores da escravidão no Sul antes da Guerra Civil Americana (e, hoje, na África), o comunismo na URSS (e, hoje, na Coréia do Norte), e a teocracia na Europa medieval (e, hoje, no Irã). Também podemos ver o mal de tal força de forma imediata, pessoal, em nível perceptivo: se uma pessoa ou governo coloca uma arma em sua cabeça e lhe diz para calar a boca, entregar seu dinheiro, tirar suas roupas, entrar no trem, você não consegue agir conforme seu julgamento, isto é, resta obedecer ou morrer. Na medida em que a força impede você de agir conforme julga adequado, você não pode viver como ser humano. Está fadado a viver como algo menor – ou não viver de modo algum.

A direita liberal reconhece que, quando uma pessoa é forçada a agir contra sua razão - seu meio básico de vida – ela não consegue viver a vida digna de um ser humano.

Cada indivíduo deve ser moralmente livre para agir de acordo com o próprio julgamento, desde que não viole os direitos alheios.

Este é o princípio dos direitos individuais. Observe a declaração em termos morais. “Cada indivíduo deve ser livre pela moral para agir de acordo com o próprio julgamento.” Direitos são de forma primária, questões morais, e entender este fato é fundamental para entender porque direitos precedem governos e não são criados por eles.

Como Ayn Rand explica, direitos formam a ponte entre a ética e a política:

“Direitos” são um conceito moral – conceito que fornece uma transição lógica dos princípios que guiam as ações de um indivíduo para os que guiam sua relação com os outros – conceito que preserva e resguarda a moralidade individual no contexto social – o elo entre o código moral de um homem e o código legal da sociedade, entre ética e política. Direitos individuais são a maneira de submeter a sociedade a uma lei moral[7].

A lei moral em questão aqui é o reconhecimento de que, para viver, um indivíduo precisa agir de acordo com seu julgamento. Os direitos individuais submetem a sociedade – incluindo todas as políticas governamentais e leis – a esse princípio mais fundamental. Qualquer ação ou política que infrinja a liberdade de um indivíduo de agir conforme com seu julgamento é errada e ilegal perante a moral. (Mais sobre a lei objetivista abaixo.)

O princípio dos direitos liberais inclui o direito à vida, liberdade, propriedade, busca da felicidade e liberdade de expressão – todos requisitos essenciais da vida humana, cada um com uma ênfase diferente:

• O direito à vida é o direito de tomar todas as ações necessárias pela natureza de um ser humano para fomentar e possibilitar sua vida.

• O direito à liberdade é o direito de agir de acordo com o próprio julgamento, livre de coerção por outros governos ou pessoas.

• O direito de propriedade é o direito de manter, usar e dispor os frutos de seu trabalho.

• O direito à busca da felicidade é o direito de se dedicar à conquista de objetivos e valores de sua escolha.

• O direito à liberdade de expressão é o direito de expressar pontos de vista, independente do que os outros pensam ou como se sentem a respeito.

É importante ressaltar que todos esses direitos condizem com a liberdade de agir. Não são “direitos” para receber bens ou serviços. Na lógica, não pode haver tal coisa – como direito à comida, saúde ou educação. Tal “direito” implica uma contradição: alguém deve ser forçado a fornecer o bem ou serviço. De maneira lógica, direitos se resumem à liberdade de ação – e só essa liberdade não viola os direitos alheios[8].

A direita liberal defende o princípio de que todos os indivíduos possuem o direito inalienável de agir com base em seu próprio julgamento e de manter e utilizar os frutos de seu trabalho – desde que não violem os direitos alheios.

O indivíduo – não o coletivo ou a sociedade – é a unidade básica de responsabilidade moral e política.

Esse é o princípio do individualismo, que contrasta com o coletivismo.

O individualismo é a ideia de que a vida do indivíduo lhe pertence, e ele possui o direito inalienável de viver como bem entender – desde que não viole direitos alheios.

O coletivismo é a ideia de que a vida do indivíduo pertence não a ele, mas ao grupo ou sociedade do qual faz parte, onde ele não possui direitos e deve sacrificar seus valores e objetivos para o bem de todos. De acordo com o coletivismo, a sociedade é a base da responsabilidade moral e política, e o indivíduo só possui valor enquanto parte de um grupo/coletivo. Como um defensor desta ideia afirma:

O homem não tem direitos, exceto aqueles que a sociedade permite que possua. Do dia de seu nascimento ao dia de sua morte, a sociedade permite-lhe desfrutar de certos direitos e o priva de outros: não porque a sociedade deseja favorecê-lo ou reprimi-lo, mas porque sua própria preservação, bem-estar e felicidade vem em primeiro lugar.

O coletivismo é a ideologia que deu origem ao comunismo (onde a comunidade é a única preocupação), socialismo (onde a sociedade é a única preocupação), nacionalismo ou nazismo (onde a “supremacia de raça” é a única preocupação). E, como a história mostra, essa ideologia é responsável pelo sofrimento, miséria e assassinato de centenas de milhões de pessoas – e contando. 

A direita liberal defende o individualismo porque é baseada na razão e apoia a vida. Nós rejeitamos o coletivismo porque vai contra a razão e a vida, e é maléfico[9].

Um governo que defende direitos é um bem necessário.

Um governo defende direitos ao banir a força física das relações sociais, e usando a força física somente em retaliação contra aqueles que iniciam seu uso. Tal governo proíbe assassinatos, estupros, assaltos, fraudes, extorsões e coisas do gênero; processa supostos criminosos; pune os culpados; defende cidadãos de agressões estrangeiras; e resolve disputas por direitos.

Ao contrário da visão de anarquistas, o governo defensor de direitos é tanto possível quanto necessário. Podemos ver que é possível observando alguns governos operarem de maneira mais próxima a este ideal que outros (exemplo, governos dos Estados Unidos e Noruega x Irã e Coreia do Norte), e percebendo as ações que um governo defensor de direitos precisa fazer para se tornar 100% assim: revogar leis e políticas onde o uso da força é permitido, e continuar desta forma até atingir o ideal moral de seu uso apenas em momentos de retaliação.

Podemos ver que um governo defensor de direitos é necessário percebendo que não é possível prosperar se precisamos com frequência nos preocupar com agressões de criminosos, desavenças com vizinhos ou ataques de nações estrangeiras. Observe por esse ângulo.

Algumas pessoas não respeitam direitos e irão usar a força para conseguir o que querem.[10]

Considere Larry Nassar, Bernie Madoff, os figurões da máfia e todos os outros criminosos que usam força, extorsão, fraude ou semelhante para satisfazer seus desejos irracionais. Se quisermos vidas pacíficas, produtivas e felizes, é preciso saber lidar com tais criaturas, para que não tenhamos a necessidade de constante preocupação com ataques, agressões e fraudes contra nós ou nossos entes queridos. Ao delegar ao governo a tarefa de usar força de retaliação contra este tipo de pessoa, podemos viver de forma segura e pacífica.

Na ausência de um governo assim, teríamos de nos defender de predadores solitários e gangues violentas que estariam livres para vagar pelas ruas, estuprando, roubando e matando. Para aliviar essa condição inconcebível e para resguardar nossas vidas, propriedades e entes queridos, teríamos de formar milícias ou gangues. O resultado seria guerra de gangues como regra.

Um governo defensor de direitos resolve este problema fornecendo leis que protegem políticas, tribunais e prisões.

Agressores forasteiros, regimes desonestos e grupos terroristas podem e procuram coagir e assassinar pessoas pacíficas.

Considere os regimes homicidas no Irã, Arábia Saudita e Coreia do Norte; e os grupos terroristas al Qaeda, Hamas e Hezbollah. Quando grupos ou regimes teocráticos, socialistas e nefastos violam ou ameaçam direitos, precisamos de formas para eliminar estas ameaças. Um governo defensor de direitos, equipado com poderio militar, serve a este propósito. Sem tal governo, teríamos de nos defender destas agressões – o que exigiria a formação de milícias e gangues, o que, por sua vez, implica em ameaças dessas gangues aos nossos direitos sem a existência de leis governamentais que os impeçam.

Um governo defensor de direitos soluciona esse problema fornecendo um exército cuja função é limitada a lidar com agressores externos.

Disputas de direitos podem e surgem entre pessoas racionais, honestas e respeitáveis.

Pessoas boas podem às vezes discordar a respeito de contratos comerciais, acordos pré-nupciais, delineamento de propriedades, direitos de ir e vir, fornecimento de água e outras questões relativas a seus direitos – e, frequentemente, são incapazes de resolver tais disputas por conta própria. Na ausência de um governo com leis bem-definidas e tribunais imparciais, tais disputas poderiam e ocasionalmente se tornariam violentas.

Em suma, um governo dedicado a defender os direitos individuais permite que as pessoas vivam seguras de criminosos e agressores externos, resolvam de forma pacífica suas disputas de direitos e lhes concede tempo e energia para produzir, trocar valores e viver a vida.

A direita liberal reconhece estes fatos e apoia o estabelecimento e a manutenção de um governo defensor de direitos[11].

O único propósito do governo é defender os direitos individuais.

O governo tem apenas um propósito moral legítimo: defender direitos individuais. Ele cumpre essa função vital proibindo o uso de força física entre as relações sociais e usando força somente para retaliação[12].

Em termos de política interna, na medida em que um indivíduo (ou empresa) se abstém do uso da força física, fraude, extorsão e coisas do tipo, um governo adequado o deixa totalmente livre para agir de acordo com seu julgamento, mantendo e usando os frutos de seus esforços. Na medida em que um indivíduo se envolve em coerção – seja força direta (por exemplo, agressão) ou indireta (por exemplo, fraude) – um governo adequado utiliza a polícia e os tribunais necessários para detê-lo, puni-lo e buscar a restituição de suas vítimas.

Assim como uma sociedade livre exige separação completa de religião e estado, também exige separação da economia e do estado[13]. Além de proteger os direitos proibindo as questões acima mencionadas, o governo não tem razão alguma para interferir na economia. Isso significa não intervir na medicina, saúde, educação, energia, serviços bancários, salários, mídia ou qualquer outra área de produção e comércio. Também significa a não intervenção em nenhum bem-estar corporativo, programa de autorização e nenhum projeto de redistribuição de renda de qualquer tipo.

O mesmo se aplica a política externa: enquanto um país estrangeiro se abstiver de usar (ou ameaçar ou encorajar) força física contra cidadãos sob a proteção de um governo defensor de direitos, este se abstém de interferir em tal país. Porém se um país ou gangue estrangeira ataca (ou ameaça atacar) esses cidadãos, o governo emprega seus recursos para eliminar a ameaça o mais rápido possível, e com mínimo risco de vida a seus cidadãos e soldados.

Tal como acontece na política interna, também é na externa: o único propósito adequado da ação estatal é proteger os direitos dos cidadãos do país. Isso significa que não há ajuda externa, nem estruturação nacional, nem tarifas – nenhuma ação, despesa ou restrição de qualquer tipo, exceto as necessárias para a defesa de direitos[14].

A direita liberal reconhece o fato de que o governo existe apenas para resguardar direitos e nunca pode se envolver na violação dos mesmos.

O único sistema social dedicado à defesa de direitos individuais é o capitalismo laissez faire.

O capitalismo é o sistema social baseado no princípio dos direitos individuais, incluindo os direitos de propriedade, onde o governo se restringe apenas a sua proteção. (Essa é a essência do capitalismo genuíno – não o sistema misto que opera na América hoje, mas o capitalismo laissez faire puro e livre de regulações.)

Sob o capitalismo, o governo proíbe os cidadãos de usar força uns contra os outros, e uma constituição que defende direitos proíbe o governo de usar força contra cidadãos, exceto em retaliação. (A coisa mais próxima disso que existe hoje em dia é a Constituição dos Estados Unidos da América.) Através do capitalismo, todos os cidadãos são iguais perante a lei, e ninguém recebe tratamento especial ou favores do governo. Assim, todos são livres em sua totalidade para agir de acordo com o próprio julgamento, produzir bens ou serviços e oferecê-los para comércio no livre mercado.

Por reconhecer o imperativo moral da defesa de direitos, a direita liberal reconhece o capitalismo como o único sistema social moral – o único que possibilita uma vida civilizada por completo e o máximo de prosperidade humana[15].

A caridade voluntária é a única forma moral de ajudar aqueles que não conseguem ajudar a si mesmos.

Uma porcentagem muito pequena de pessoas possui problemas mentais severos ou por algum outro motivo não é capaz de se sustentar. Para viver, esses poucos desafortunados precisam contar com a caridade de pessoas capacitadas.

Quando pessoas capacitadas ficam livres para agir, manter e usar o fruto de seus esforços, várias se tornam muito ricas – e muitas estão dispostas a ajudar aquelas que não conseguem ser independentes. Mesmo hoje, quando governos federais, estaduais e locais tomam de 30 a 40% de sua renda, os americanos doam mais de 390 bilhões de dólares por ano em caridade[16]. Imagine o quanto doariam se não fossem forçados a financiar incontáveis projetos ridículos ou programas de redistribuição de renda.

A direita liberal reconhece e apoia o princípio do estado não possuir direito moral de forçar ninguém a sustentar outrem, onde a caridade moral deve ser voluntária, e quando as pessoas são livres para usar seu tempo e dinheiro como bem entendem, muitas delas são capazes e dispostas a ajudar quem precisa[17].

Os princípios da direita liberal são derivados e apoiados pela observação da realidade e dos fatos e exigências da vida humana. É por isso que são verdadeiros. Por este motivo, são os princípios da ideologia que reconhece e apoia a razão como a única maneira de conhecimento do homem e liberdade como sua única condição política.

O caminho para uma sociedade completamente livre

É claro, nem os Estados Unidos nem qualquer outro país hoje está próximo do ideal da direita liberal. Então, como chegamos lá?

A versão curta é: pensando, falando e lutando por esses princípios e princípios relacionados; encorajando os outros a fazer o mesmo; e dando passos – pequenos ou grandes – para esse ideal a toda oportunidade.

Se comprometer ao longo do caminho é aceitável, desde que não comprometa princípios morais. Em geral, isso significa apenas que um acordo é aceitável quando o efeito real é diminuir a violação de direitos. Um aumento na violação de direitos nunca é moralmente aceitável.

Aplicações adequadas de princípios morais e políticos podem muitas vezes não serem óbvias. O contexto que envolve determinada questão sempre importa, e problemas culturais e políticos podem ser muito complexos, exigindo uma grande análise e busca pela essência. Porém, não podemos começar a aplicar tais princípios de forma consistente até entendê-los e enxergá-los como um sistema integrado de verdades em apoio a uma cultura de razão e liberdade.

Os fundamentos supracitados constituem os princípios básicos da direita liberal. São as melhores ideias tiradas do liberalismo clássico e da direita americana, em sua essência clara, consistente e precisa. Se você concorda com essas ideias – ou concorda de maneira substancial – por favor compartilhe com seus amigos, família e colegas. Quanto mais pessoas abraçarem essa ideologia, mais rapidamente nos moveremos em direção a esse ideal.

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Publicado originalmente em The Objective Standard.

Traduzido por Verônica Ferrari Cervi.

Revisado por Matheus Pacini.

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[1] BIDDLE, Craig. Liberal Right vs. Regressive Left and Religious ‘Right. The Objective Standard, Outono de 2016.

[2] RAND, Ayn. The Objectivist Ethics in The Virtue of Selfishness. New York: Signet, 1964. p. 22.

[3] Para detalhes sobre a operação da razão veja RAND, Ayn. Introduction to Objectivist Epistemology, 2nd ed. New York: New American Library, 1990 e BINSWANGER, Barry. How We Know: Epistemology on an Objectivist Foundation. New York: TOF Publications, 2014.

[4] BIDDLE, Craig. Secular, Objective Morality: Look and See. The Objective Standard, Summer 2017.

[5] RAND, Ayn. “Causality Versus Duty,” in Philosophy: Who Needs It. New York: Signet, 1982, p. 95–101; and BIDDLE, Craig. Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It. Richmond: Glen Allen Press, 2002, p. 43–52.

[6] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Tradução de Felícia Volkweis. Porto Alegre: Sulina, 2013.

[7] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Tradução de Felícia Volkweis. Porto Alegre: Sulina, 2013.

[8] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Tradução de Felícia Volkweis. Porto Alegre: Sulina, 2013.

[9] LOW, A. Maurice. “What is Socialism? III: An Explanation of ‘The Rights’ Men Enjoy in a State of Civilized Society,” North American Review 197, no. 688. Março de 1913, p. 405–6.

[10] BIDDLE, Craig. “Individualism vs. Collectivism: Our Future, Our Choice,” The Objective Standard, Primavera de 2012.

[11] BIDDLE, Craig.“How Would Government Be Funded in a Free Society?,” The Objective Standard,  Verão de 2012.

[12] RAND, Ayn Rand. What Is Capitalism?, in Capitalism: The Unknown Ideal . New York: Signet, 1967, p. 19.

[13] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Tradução de Felícia Volkweis. Porto Alegre: Sulina, 2013.

[14] BIDDLE, Craig. “U.S. Foreign Policy: What’s the Purpose?,” The Objective Standard, Verão de 2015.

[15] BIDDLE, Craig. “Capitalism and the Moral High Ground,” The Objective Standard, Inverno de 2008.

[16] “Números de doações nos EUA.https://givingusa.org/tag/giving-usa-2017/.

[17] Para mais nesse sentido, veja BIDDLE, Loving Life, p. 123–28.