Elan Journo



Pesquisar no Google não o torna mais esperto ou (a morte da competência)


Tom Nichols está certo em nos advertir sobre a “morte da competência”.

Ele não afirma que existem menos especialistas genuínos, nem que eles, às vezes, erram. Em vez disso, ele argumenta que existe um reconhecimento cada vez menor pela ideia de competência – em especial, competência científica e intelectual – na cultura. Nichols identifica um “colapso alimentado pelo Google, baseado na Wikipedia e reforçado por blogs de qualquer divisão existente entre professionais e leigos, estudantes e professores, especialistas e curiosos – em outras palavras, entre aqueles com alguma realização em uma área, e aqueles com nenhuma.”

Nichols, professor no Naval War College e na Harvard Extension School, primeiro destacou esse problema em um post no seu blog que viralizou. Ele explora a questão no detalhe em sua obra The Death of Expertise: The Campaign against Established Knowledge and Why It Matters. Eu considero o seu livro provocador, mas, em vez de resenhá-lo, prefiro destacar alguns pontos sobre o fenômeno cultural tratado por Nichols, pois ele está em todo lugar, é perigoso e é de difícil compreensão.

Uma atitude perniciosa frente ao conhecimento

Surfe algum tempo na internet, e você está fadado a observar o fenômeno que Nichols tenta explicar.

Praticamente todo mundo reconhece a competência quando se trata de atletas profissionais, advogados ou pilotos. Stephen Curry pode jogar basquete com uma habilidade que quase ninguém pode igualar. Se você se envolve numa confusão com a polícia, você liga para um advogado. Quando você embarca num transatlântico, coloca a sua vida nas mãos de pilotos cuja competência é regularmente aprimorada por treinamentos constantes e milhares de horas de voo.

Mas as coisas são diferentes quando se trata da competência em campos científicos e intelectuais, particularmente quando se cruzam com política pública. É possível constatar tal fato, por exemplo, no número crescente de pais que se recusam a vacinar seus filhos. Muitos se recusam a fazê-lo não porque questionam a evidência ou o rigor científico dos estudos, mas porque negam a evidência e o custo talvez mortal de não vacinar seus filhos. Citemos um exemplo político: um tema da campanha presidencial de Donald Trump foi uma rejeição da competência. Trump permaneceu inabalado por sua própria ignorância em políticas públicas (por exemplo, relembre o seu tropeço com respeito à tríade nuclear), e quando considerou especialistas como pior que inúteis. Ele nos assegurou que ele próprio poderia fazer melhor que os especialistas de quase todas as áreas; ele admitiu que “ninguém sabia que o sistema de saúde poderia ser tão complicado”).

O que Nichols busca identificar e explicar é uma atitude perniciosa frente ao conhecimento. Não é “apenas uma rejeição do conhecimento existente, mas, fundamentalmente, uma rejeição da ciência e da racionalidade desapaixonada, que são as bases da civilização moderna.” É a noção, nas palavras de Nichols, que “todos os cidadãos acreditam ser especialistas em tudo.”

Qualquer afirmação de competência de um especialista atual, todavia, produz uma explosão de raiva em certos círculos da sociedade americana, que acusam tais alegações de “apelos à autoridade”, de sinais claros de “elitismo” e de um esforço óbvio de repressão do diálogo democrático via uso de credenciais acadêmicas. Hoje, a maioria dos americanos acredita que ter direitos iguais num sistema político equivale a aceitar o valor da opinião de uma pessoa como igual ao de todas as outras. É uma declaração vazia de igualdade que é sempre ilógica, às vezes, engraçada e, frequentemente, perigosa.

Um problema derivado de fatores múltiplos

Nichols gasta diversos capítulos buscando as fontes dessa atitude, a qual ele acredita ter sido amplificada, mas não criada, pela Era da Informação. E alguma das causas que ele cita – notavelmente, certas dinâmicas na educação superior – são reveladoras. Um ponto valioso da análise de Nichols, todavia, foca nas questões em que nos faz refletir. Indicarei só alguns.

Primeiro, a resistência cultural contra a competência é um problema. Mas você também pode interpretá-la como reveladora de algo que muitas pessoas não entendem – ou, talvez, tem uma concepção equivocada – de competência. Formar e reconhecer o conceito de “competência” pode ser mais difícil em alguns campos que outros. Com um mecânico, um padeiro ou um alfaiate, digamos, existem produtos tangíveis (um pedaço de pão) e os resultados podem ser facilmente mensurados por padrões conhecidos (o carro liga, o terno serve, e o pão alimenta).

É uma desafio diferente entender competência no caso de trabalhadores do conhecimento, notavelmente nos campos científico e intelectual. Olhando de fora, é difícil apreciar a vasta gama de conhecimento que deve ser adquirida e dominada, por exemplo, em relações internacionais (a área de Nichols). Ou, considere os anos de treinamento científico e prático requerido para se tornar um mestre. Sem uma apreciação total desse tipo de treinamento, pode ser difícil formar uma concepção correta do que engloba a “competência”.

Além disso, você não precisa ser um Sheldon Cooper para desprezar certos campos. Alguns são moldados por abordagens profundamente falhas ao conhecimento, e outros são politizados (o debate em torno do aquecimento global antropogênico). Essas poucas observações – e existem outros problemas que podemos citar – colaboram para a atitude suspeita das pessoas com respeito à competência: acima de tudo, nenhuma pessoa racional deseja viver em uma sociedade comandada pelos reis-filósofos de Platão, ou pior.

É preciso trabalho, então, para conceptualizar o que conta como “competência” e pensar criticamente sobre o que é dito pelos especialistas. E tenho observado que muitas pessoas têm, na melhor das hipóteses, um conceito confuso de “competência”.

Segundo, eu tendo a concordar com a avaliação de Nichols de que a hostilidade contra a competência se deriva, pelo menos em parte, de um tipo de igualitarianismo (a ideia, nas palavras dele, de que “a opinião de cada pessoa sobre qualquer coisa deve ser aceita como igual a de todas as outras). E suspeito que, por isso, ela se manifeste frequentemente como um tipo de ressentimento. Esse é um ponto tocado por Nichols, mas que ele não explora em profundidade.)

Se levarmos a ideia filosófica do igualitarismo à sua consequência lógica, veremos como ela pode prejudicar a forma como as pessoas pensam sobre competência. Enquanto muitas pessoas supõem que o igualitarismo significa elevar todos a um patamar melhor, seguindo a lógica e a realidade, as coisas funciona doutra forma. Você não pode transformar todo mundo em Isaac Newton. Na prática, a ideia do igualitarismo necessita rebaixar quem está no topo. Nesse caso: especialistas que obtiveram conhecimento profundo de um campo particular. Na lógica, o igualitarismo significa rebaixar a realização científica de Newton ao mesmo patamar do uso de cristais para a cura do câncer.

Sem dúvida, há ainda muito a entender sobre esse fenômeno cultural, e a análise de Nichols é um bom lugar para começar.

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Publicado originalmente em New Ideal.

Traduzido por Matheus Pacini.

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