Edward Younkins

Professor de Economia e Negócios da Wheeling Jesuit University. 

Escreveu diversos livros e artigos sobre os grandes pensadores liberais, a relação entre Ayn Rand e a Escola Austríaca e o impacto da ficção na divulgação das ideias capitalistas.

Confira todos os artigos do autor no site do Le Québécois Libre.



O politicamente correto ameaça uma sociedade livre


O politicamente correto envolve a mudança da ênfase da crítica marxista - da economia para a cultura. A premissa subjacente do politicamente correto é que se a elite pode mudar a linguagem, então, pode mudar a forma como os indivíduos agem e, assim, mudar a sociedade. O politicamente correto corrompeu a mídia, as universidades, os negócios, o Congresso, a política, etc. Declarar que alguns pensamentos ou palavras são “corretos”, enquanto outros não, permite aos pensadores “corretos” fugir do livre debate de ideias lançando mão de ameaças, intimidação e força contra os pensadores “incorretos”.

De acordo com o multiculturalismo e o politicamente correto, toda a história é ditada pelo poder que determinados grupos definidos por raça, etnia ou gênero têm sobre outros grupos. Alguns grupos são qualificados como “vítimas sagradas”, naturalmente bons, independentemente do que quaisquer um de seus membros fizer individualmente. Por exemplo, feministas radicais ensinam que, no passado, homens tinham todo o poder, que oprimiram as mulheres, e que os homens de hoje devem pagar pela transgressões dos homens do passado. No mundo do politicamente correto, homens brancos são qualificados automática e universalmente perversos e imorais.

O multiculturalismo leva à linguagem politicamente correta. Tal linguagem deve ser consistente com os princípios multiculturalistas. Isso significa que a linguagem deveria: (1) não favorece um grupo em detrimento de outro, (2) não infringir os direitos de qualquer grupo à soberania; (3) não interferir na relação pacífica de qualquer grupo minoritário com outros grupos; (4) não impedir a sociedade (isto é, o Estado) em sua tentativa de proteger grupos culturais (isto é, minorias sociais, econômicas e étnicas) cujas visões são declaradas igualmente válidas e que têm o "direito” à oportunidade, integridade e ponto de vista; e (5) não promover estereótipos de nenhum tipo.

A obsessão da elite moralmente superior, sensível e notavelmente solidária para com os sentimentos subjetivos das pessoas é parte prevalente da visão terapêutica do homem. Esse fascínio com a sensitividade espalhou-se na mídia e nas universidades, levando à criação de eufemismos baratos que abdicam da precisão conceptual em nome de sentimentos e simpatia. Infelizmente, essas “manobras linguísticas” apenas camuflam a realidade em vez de mudá-la.

Defensores do politicamente correto tentam homogeneizar nossa linguagem e pensamento não só para aumentar a autoestima de minorias, mulheres e beneficiários do assistencialismo, mas também para preservar a imagem moral do próprio Estado de bem-estar. Uma estratégia para alcançar tal objetivo é eliminar palavras e expressões depreciativas, discriminatórias e ofensivas, bem como substituir o vocabulário inofensivo à custa da economia, clareza e lógica. Outra estratégia é desconstruir uma palavra ou expressão em suas partes constituintes, tratando-as como particulares, focando no significado secundário subjacente das partes constituintes. Por exemplo, diz-se que o termo mankind[1] é excludente, enganador e enviesado quando empregado para se referir tanto a homens como mulheres.

O politicamente correto falha em entender que a linguagem é o resultado de um processo social evolutivo que resulta numa ordem sistêmica alcançada sem o uso de um planejamento central deliberado. Note que a linguagem surge automaticamente de acidentes, experiências, empréstimos e corrupções de outras línguas. Ninguém pretendeu excluir as mulheres quando termos genéricos como mankind foram usados. Com respeito aos seres humanos, o gênero masculino foi usado para denotar a espécie (mankind). Por outro lado, tanto países como navios são referidos pelo gênero feminino. Contudo, tal uso não implica que aqueles que usam os termos masculinos tenham pensamentos hostis ou excludentes com respeito às mulheres! Isso leva as pessoas a crer que todo uso de termos genéricos masculinos é evidência do antagonismo masculino para com as mulheres quando, na verdade, tal uso meramente ocorre para evitar a estranheza na linguagem, maximizando o entendimento geral.

O politicamente correto provê uma linguagem pela qual é fácil se tornar vítima, culpando algo ou alguém por seus problemas. Pense em expressões como culturalmente carente, mentalmente incapacitado, etc. O politicamente correto envolve muitas pessoas tentando explicar as razões de sua falta de sucesso. Essas explicações vitimizantes incluem normalmente a ideia de que a pessoa está tendo dificuldades devido a sua raça ou gênero. Em essência, o politicamente correto é uma forma de racionalizar quem você é por que está nas condições que está.

Vítimas são ensinadas que seus fracassos e sofrimento são invariavelmente o resultado de alguma condição injusta e retificável que os engenheiros sociais poderiam remediar se os insensíveis apenas permitissem. Isso reforça a visão errônea de que a vida humana pode ser perfeita, e que todo sofrimento é uma anomalia que pode ser corrigida. Pessoas são levadas a crer que o mundo deveria ser um lugar onde nunca sofressem decepções/desilusões ou fracasso. É claro, a trágica verdade é que as pessoas podem fracassar e que indivíduos são desiguais em talentos e realizações.

Em alguns campi, buscar padrões mais elevados de realização humana não é mais valioso que o pensamento politicamente correto. Nos campi, a liberdade acadêmica através do livre discurso é acompanhada por altos custos sociais, onde a verdade é vista como nada mais que perspectivas diferentes oferecidas por grupos distintos promovendo seus próprios interesses. Vieses impostos pela educação restringem o pensamento dos estudantes enquanto currículos são desenvolvidos para serem não sexistas, centrados na paz, sem vieses e, é claro, politicamente corretos.

Nos campi das faculdades americanas, estudantes são ensinados que os sistemas de valor são subjetivos e construídos de acordo com raça, etnia, gênero e classe social. O resultado são currículos corrompidos, departamentos de estudos de gênero, departamentos de estudos negros, polícia de pensamento, códigos de discurso, etc. Estudantes não são ensinados que homens e mulheres são realmente diferentes ou que raças e grupos étnicos, de fato, têm características específicas.

O politicamente correto (e o multiculturalismo) ameaçam a liberdade de expressão nas esferas acadêmica e não acadêmica e, até mesmo, a própria fundação da sociedade americana. Em essência, o governo tem eliminado a maior parte da proteção à liberdade de expressão no mercado de trabalho. A livre expressão, bem econômico pelo qual acadêmicos ganham a vida, te, se saído um pouco melhor no mundo universitário.

De modo geral, o politicamente correto inclui um número de iniciativas: alterar vocabulários de modo a não ofender grupos particulares, ação afirmativa nas universidades (cotas) e no recrutamento empresarial, educação multicultural, e ampliação do escopo dos textos clássicos para incluir escritos de autores das “minorias” e mulheres. Além disso, ocorrem workshops em que pessoas são ensinadas por “especialistas” como se harmonizar com os sentimentos dos outros, evitando ser culpado de “assédio sexual” ou “insensibilidade racial” e assim por diante.

O politicamente correto é usado para eliminar o debate e desacreditar oponentes de vários “programas sociais” pelo rótulo de racistas, misóginos e extremistas. O politicamente correto é uma ferramenta multicultural que limita o pensamento na educação, ciência e cultura por meio da intimidação e da coerção. Embora as vítimas tenham o direito de articular suas visões, o mesmo direito não existe para pessoas de pensamentos opostos.

O politicamente correto insiste em “verdades” contrárias à realidade, à natureza humana e à experiência. Ele prega que o poder estatal deve ser usado para impor o pensamento, a linguagem e o comportamento politicamente correto, por mais que esse não esteja de acordo com a realidade percebida. O Estado tornou-se o protetor das vítimas escolhidas, o defensor da diversidade e da autoestima, o sensibilizador da consciência dos indivíduos, e o promotor da autoestima das vítimas. Para conseguir o supracitado, o Estado intervém nas atividades humanas e comerciais por meio de ação afirmativa, leis contra discurso de ódio e crimes de ódio, a aprovação de cotas para admissão em universidades e assim por diante.

O Estado recompensa quem personifica as vítimas favoritas e expropria os direitos políticos e o reconhecimento cultural de indivíduos que não o fazem. Políticos politicamente corretos geralmente acatam a agenda de qualquer minoria que afirma que ela própria ou seus antepassados foram tratados injustamente. As vítimas encontram um ‘vitimador”, demandando compensação sob a forma de dinheiro, ou discriminação positiva com respeito à obtenção de empregos ou admissão às universidades. Além disso, vítimas frequentemente buscam afirmação ao insistir que a história foi reescrita.

O politicamente correto é uma perversão da moralidade, bem como uma contradição da realidade que requer intervenções estatais constantes para sua implementação. Nós não queremos que os Estados Unidos se tornam um país com uma ideologia não baseada na realidade, imposta sob coerção estatal. O politicamente correto ameaça a sociedade livre ao encorajar “pensamento de grupo” e ao alcançar conformidade via intimidação e força. Devemos lutar contra o politicamente correto ao se comprometer com a verdade pelo uso de argumentos racionais e lógicos. Como o politicamente correto está destruindo a sociedade ocidental, é imperativo recapturar a linguagem, reestabelecendo a propriedade privada dos meios de expressão, desafiando conceitos politicamente corretos e lutando pela realidade.

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Traduzido por Matheus Pacini

Publicado originalmente em Rebirth of Reason.

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[1] N. do T. – mankind é formada pela união de man (homem) e kind (gênero), cuja tradução em português é humanidade. O movimento de desconstrução diz que isso seria um sinal de preconceito.