Marsha Enright

Empreendedora na área de educação, palestrante e escritora.

Escreveu diversos artigos sobre temas como Objetivismo, educação e liberdade, método Montessori e seminários socráticos.

Para mais artigos, visite o site do FountainHead Institute.



O livre mercado pode ser salvo sem Ayn Rand?


Esse artigo foi publicado em 2010.

Já se passou um ano da publicação do artigo de Stephen Moore, Atlas Shrugged: from Fiction to Fact in 52 Years (A Revolta de Atlas: da ficção à realidade em 52 anos) - que pareceu provocar uma explosão de interesse em Ayn Rand. As vendas desse romance profético triplicaram; duas biografias da vida de Rand têm vendido muito; e referências a ela na mídia dispararam.

No entanto, alguns defensores do livre mercado continuam a repudiar Rand e suas ideias, como já o vem fazendo há décadas. No passado, eram conservadores como William F. Buckley do National Review criticando “A Revolta de Atlas”; hoje, os críticos incluem libertários, tais como Heather Wilhelm da Illinois Public Policy Institute, autor de Is Ayn Rand Bad for the Market?” (Ayn Rand é ruim para o mercado?).

Mas no afã de se afastar de Ayn Rand, sucumbem a uma armadilha filosófica mortal, que resulta de seu apreensivo desejo de se desculpar pelos motivos individualistas, autointeressados que, de fato, impulsionam o livre mercado. Essa ansiedade os leva a defender o capitalismo pela premissa oposta (contrária): que ele é bom porque é “dirigido ao outro” – isto é, concede a certos grupos, como os pobres, oportunidades para adquirir riqueza e poder.

Ao longo das décadas, tal posição levou seus apologistas a lançar cruzadas insensatas e fúteis, tais como conservadorismo solidário e libertarianismo bleeding-heart, que não são defesas do capitalismo, mas materializações de seu oposto. Por exemplo, conservadores e alguns libertários foram presas fáceis das armadilhas morais e lógicas do coletivismo quando, liderados pelo “conservador solidário” George W. Bush, criaram Medicare Parte D, então a maior droga assistencialista do Estado de bem-estar.

Da mesma forma, Wilhelm resumiu o que muitos na direita pensam, ao escrever que o livre mercado é mais bem “vendido” na premissa de que, sobretudo, ajuda os mais necessitados da sociedade. Ela complementa: “a insistência de Rand na irracionalidade do altruísmo, todavia, tende a ofuscar e, até mesmo, invalidar essa mensagem”.

Com certeza, sim – e por uma razão: ninguém pode defender o capitalismo e o livre mercado lógica e consistentemente sem uma validação moral do autointeresse iluminado como o bem/valor maior.

Afinal, a esquerda não chegou ao poder porque tinha fatos e argumentos racionais ao seu lado. O argumento empírico da superioridade do capitalismo em permitir uma vida melhor aos pobres é esmagadora, seja ao comparar Chile a Cuba, Hong Kong à China comunista, ou toda a China comunista do passado à sua versão atual. Então, vem a pergunta: por que esses argumentos não conquistaram todos aqueles que dizem querer ajudar os pobres?

A resposta é que a chegada da esquerda ao poder não se deu por fatos econômicos, mas sim por uma visão moral levemente temperada com intervencionismo. Essa visão foi aceita por milhões só porque a filosofia moral do autossacrifício é que domina a nossa cultura.

Essa ética/moralidade altruísta afirma que o bem maior (valor máximo) de cada indivíduo é viver pelo bem dos outros – para a sociedade ou para o coletivo. Em última instância, isso implica que cada um de nós é escravo moral de outrem. Vemos isso na citação de Marx “de cada um, conforme sua capacidade; para cada um, conforme sua necessidade”, na exortação de Hitler a viver pelo povo alemão, ou na crença de Pol Pot de que “como ele [o indivíduo] não tem mais uso, não há ganho se ele viver, e nem perda se ele morrer”, a moralidade do autossacrifício destrói a liberdade porque subordina a vida do indivíduo ao interesse do grupo.

Essa é a ética/moralidade que nos trouxe a carnificina do século XX.

Os argumentos de conservadores solidários e libertários bleeding-heart nada fazem para desafiar tal ética. Eles meramente tentam encaixar o capitalismo na filosofia moral coletivista, exclamando, aos quatro ventos: “não se preocupem; mesmo que o pecador e individualista autointeresse impulsione o capitalismo, ele é bom porque pode ser canalizado para servir aos pobres”.

Em outras palavras, esses supostos defensores do capitalismo meramente adotaram a política do “eu-também”, a alegação da moral coletivista que nossa responsabilidade ética primária deveria ser o bem-estar das outras pessoas. Nessa visão, eles marcham no mesmo ritmo daqueles na esquerda que condenam o individualismo e o capitalismo como sendo anti-pobreza e anti-caridade.

Essa visão não poderia se afastar mais da verdade. O capitalismo de livre mercado surge da visão social que se preocupa com a menor minoria de todas: o indivíduo. Essa visão reconhece que a superioridade moral do direito do indivíduo à vida, à liberdade e à busca da felicidade – a própria visão identificada por Thomas Jefferson na Declaração da Independência e pela qual lutaram os pais fundadores.

Qual é esse direito, se não o direito de cada pessoa perseguir o seu maior autointeresse? Lembre-se de que o slogan da Revolução Americana foi Don´t Tread on Me (tradução livre, não me enrole).

Ainda assim, aquela “egoísta” Revolução Americana estabeleceu um sistema social que criou a nação mais produtiva que o mundo já viu, com o maior nível de distribuição de riqueza. Foi um sistema baseado nos direitos individuais, governo limitado, e igualdade perante à lei, em que todo mundo poderia manter e gozar os frutos de seu próprio esforço.

Esse sistema era justo porque concedia oportunidade igual a todos – e o desafio altivo – de fazer o máximo de sua própria vida, fosse rico ou pobre. Na verdade, só uma sociedade capitalista pode verdadeiramente servir os interesses dos pobres e desamparados, assim como os ricos e capazes, porque ele está, em essência, baseada na justiça para o indivíduo. E a justiça para o indivíduo é a justiça para todos.

É isso que torna o capitalismo moralmente superior ao coletivismo.

Ironicamente, ao contrário das alegações prevalentes sobre o autointeresse, as sociedades capitalistas, como a dos Estados Unidos, também são as mais caridosas. Nosso sistema individualista criou uma nação de magnanimidade, devido à produtividade, à abundância e à simpatia benevolente por outros indivíduos em dificuldade para exercer seu direito à vida, liberdade e felicidade.

É incrível que, em sua acusação à Rand de coisas como “dura mensagem” e “linguagem de confrontação”, muitos defensores de livre mercado não se perguntaram o porquê de seus escritos terem inspirado milhões a se tornar defensores do capitalismo. Eles não entendem que ela complementa a visão oitocentista da Revolução Americana ao apresentar uma ética que justifica totalmente o capitalismo e a liberdade individual.

A ético do autointeresse racional defende o direito do indivíduo a sua própria vida, ao poder de sua própria liberdade, e à glória da busca de sua própria felicidade. Ela disse: “Minha filosofia, em sua essência, é o conceito de Homem como um ser heroico, tendo a felicidade como o propósito moral da sua vida, a conquista produtiva como sua mais nobre atividade, e a razão como seu único referencial”. Sua mensagem – de que a “a postura do homem deve ser ereta, e sua mente racional e intransigente, de modo a trilhar caminhos ilimitados” — é um apelo à glória do indivíduo livre.

Necessitamos urgentemente adotar a visão radiana de nobreza e grandeza moral de um sistema social baseado no autointeresse iluminado se nós, os defensores do capitalismo no sec. XXI, finalmente quisermos nos livrar das garras mortais do coletivismo. E essa é uma visão que devemos defender com “nossa vida, nossa sorte e nossa honra.”

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Tradução e revisão por Matheus Pacini

Publicado originalmente em Daily Caller.

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