Tara Smith

Professora de Filosofia na Universidade do Texas, em Austin.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, teoria política, ética e moral.



NENHUM TRIBUTO A CESAR - O BEM E O MAL NA REVOLTA DE ATLAS - PARTE III


CONHECIMENTO DO “ISSO OU AQUILO” EM AÇÃO

O crescente entendimento de Hank e Dagny sobre a natureza de seus inimigos claramente guia suas ações. De fato, um leitor só pode entender satisfatoriamente o romance se compreender, como eles o fizeram, a oposição mortal entre o bem e o mal. Sem isso, certos aspectos da história podem parecer injustificados. Examinemos a seguir, então, como o entendimento correto da natureza do bem e do mal esclarece o que poderiam ser, de outra forma, aspectos problemáticos do romance.

Considere, primeiro, algumas das terminologias do livro. “Destruidores” pode inicialmente parecer um termo muito duro para caracterizar ou aqueles que estão convencendo produtores a abandonar suas atividades ou aqueles da mesma laia de Jim. Chamá-los de “destruidores” parece desproporcional se comparamos os desacordos reais entre esses campos opostos. Ainda assim, na verdade, o termo é precisamente pertinente, pois denomina a essência do que o mal e a irracionalidade fazem: ameaçam a vida. Destruição é destruição, independentemente do seu nível.

O termo “saqueadores”, da mesma forma, pode parecer um epíteto mal adaptado para os adversários dos heróis. Afinal, essas pessoas não estão invadindo lojas e fugindo com as mercadorias. Ainda assim, o termo é inteiramente pertinente, pois esse é o caráter essencial dessas pessoas. Dado que aqueles que são irracionais não criam valores e, logo, não têm nada a oferecer em suas interações com os outros, eles dependem completamente do que os outros produzem. Note que, na tentativa final e mais importante do Sr. Thompson persuadir Galt a cooperar, por exemplo, tudo o que ele pode oferecer é a ameaça de usar a força. Das qualidades e valores que a vida humana depende, todavia, Thompson nada pode prover, como Galt o informa[1].

Nós podemos ter um pouco mais de dificuldade em aceitar o fato de Galt chamar Dagny de sua “inimiga”, responsável pelas condições perigosas das quais ele é vítima no mundo. O que essa dura caracterização reflete, todavia, é o fato de que o mal, por si só, é impotente. Qualquer eficácia da qual desfrute é o resultado do poder que o bem lhe concede ao cooperar com seus padrões. As boas intenções de Dagny não são suficientes. A causalidade dita a ação apropriada, não os desejos, por mais inocentes que sejam. E uma pessoa que está verdadeiramente do lado dos grevistas não deixará as coisas mais fáceis para os que os ameaçam. Indivíduos que aprovam o mal em qualquer forma ou nível são facilitadores do mal, tornando-se, assim, eles mesmos inimigos do bem.

Quando deixamos de lado a linguagem e analisamos as ações dos personagens, a escolha principal que reflete o reconhecimento dos heróis da natureza “isso ou aquilo” de sua alternativa é a decisão de entrar em greve. Não há forma de minimizar o quão profunda é essa ação. Ao lançar a greve, Galt está abandonando seu motor e a felicidade de ver o completo usufruto de todo seu potencial transformador. Todos os grevistas estão deixando suas antigas vidas para trás. Eles estão abandonando seus valores específicos aos quais tinham sido veementemente devotos (sobretudo, seu trabalho). Para Francisco, a greve fere os sentimentos da mulher que lhe é tão cara. Ele deve permitir que Dagny o considere um playboy inútil, além de tornar a vida dela mais difícil através da contratação de outros produtores, continuamente drenando para longe dela o sustento material e espiritual. Desnecessário dizer, também lhe dói abandonar sua relação, vendo-a sofrer tanto.

Ao se recusar a continuar cooperando com aqueles que iriam destruí-los, os grevistas estão deixando para trás muitas pessoas decentes, tais como Eddie Willers e Gwen Ives[2]. Eles não são indiferentes a isso. A consideração dos heróis por outros homens racionais é palpável em diversos episódios. O tratamento compassivo de Hank para com o Ama de Leite, muito antes de ele ter demostrado qualquer coisa semelhante a pessoas com a estatura moral de Eddie e Gwen, já é um indicativo da preocupação genuína de Hank com qualquer pessoa que efetivamente valoriza a vida. Hank tinha detectado alguns traços promissores no Ama de Leite, uma avaliação posteriormente justificada pela sua performance heroica no evento da invasão da Usina. Da mesma forma, a generosidade de Dagny com Cherryl e a prostituta testemunha o seu respeito por aqueles que seguem a premissa da vida. Apesar dessa sincera benevolência, os grevistas reconhecem que eles não são responsáveis pelo bem-estar dos outros. A ideia de que eles deveriam arriscar suas vidas em prol das necessidades dos outros reflete o código de irracionalidade que estão rejeitando. Os grevistas são compelidos a desertar o mundo dos saqueadores, sabendo que algumas pessoas boas sofrerão muito como resultado, e porque nenhum compromisso entre a vida e a morte é sustentável. Se um homem escolhe viver, ele deve aceitar que suas opções são claras. “Vida – e um pouco de morte” não é uma prescrição viável.

            Uma vez que se entende a razão pela qual a greve faz sentido, fica mais fácil dissipar qualquer receio sobre algumas das outras ações dos heróis. O inevitável divórcio de Hank contra a vontade de Lillian, por exemplo, sem “nada de pensão ou partilha de bens”[3], reflete seu reconhecimento definitivo que, depois do tratamento dela para com ele no decorrer dos seus anos de casamento, ele não lhe devia mais nada. Qualquer obrigação que ele possa ter incorrido ao casar-se com ela foi há muito quitada. Ela não ofereceu nenhum valor genuíno a ele e tampouco o faz agora; na verdade, ela busca ativamente destruí-lo. Portanto, ele não tem nenhuma razão para continuar a sustentá-la. Considere ainda a recusa de Galt ao pedido de Francisco para que Dagny ficasse sua última semana no Vale com ele, em sua cabana. Consentir com tal pedido teria traído o sentimento de Galt por Dagny. A verdade é: ele a deseja. Ter feito tal sacrifício por Francisco teria falsificado o valor que ela tem para ele. Sacrifícios falsificam o valor que coisas diferentes têm, para uma pessoa, e falsificam a natureza intrínseca do valor. Qualquer sacrifício dos valores de um homem, o prejudica[4].

Duas das outras escolhas dos heróis parecem mais perturbadoras. Quando Dagny é “prisioneira” no Vale, perdida e supostamente morta para o mundo exterior, Galt não permite que ela notifique a Rearden que está bem[5]. Isso poderia parecer cruel, dado que o leitor sabe que Hank e Dagny são verdadeiramente pessoas boas. Todavia, uma vez que você entende a oposição estrita entre o bem e o mal, o raciocínio adjacente a essa política é muito claro. Qualquer pessoa que não seja um residente leal do Vale é um inimigo, seja por vontade ou por acidente. Isso inclui fura-greves e membros prospectivos, tais como Dagny e Hank. À medida que eles ainda estão cooperando com os destruidores, eles estão tornando a vida dos grevistas mais difícil. Consequentemente, os grevistas não devem lhes dar espaço. Reduzir o peso que carregam de algum jeito adicionaria carga extra às costas dos próprios grevistas, arriscando sua segurança.

Tenham em mente que não existe nada que os saqueadores não fariam para obter a cooperação de Galt. Isso está claro quando os vemos, cada vez mais desesperados, recorrer a armas e tortura[6]. Como os grevistas que ainda estão fora estão involuntariamente ajudando os destruidores (e os destruidores de tudo que abraçam a premissa da vida), qualquer conhecimento que essas pessoas possuem do Vale tornam-nas perigosas, à medida que podem divulgar sua existência (inadvertidamente ou sob coerção), comprometendo, assim, a segurança dos residentes. Em resumo, qualquer cooperação com o mundo dos saqueadores é uma ameaça a todos os grevistas. E por essa razão, os grevistas não podem permití-la. A “necessidade” de informação de Hank sobre o estado de Dagny não obriga os grevistas a oferecerem tal informação, particularmente dado que seu curso de ação continua a opor-se ao deles[7].

Finalmente, considerem o momento em que Dagny atira no guarda durante o resgate de Galt[8]. Ela necessariamente tem que matá-lo?

A incompatibilidade fundamental entre o código da vida e o código da morte torna a resposta clara. A escolha do guarda está entre obedecer às ordens de Ferris ou às de Dagny. Quando ele lamenta não saber o que fazer – como ele pode decidir? – ela responde de forma prática: “é a sua vida”. Isso, Rand mostrou, é o que está em jogo para cada um de nós, em todas as decisões. O guarda tenta fugir da alternativa - a necessidade de escolher entre os dois - buscando esconder-se em algum local neutro. Mas um homem não pode escapar de tal escolha. A única alternativa à vida é a destruição, como a morte do guarda deixa evidente.

Ao defender a prisão de Galt, o guarda está defendendo o coletivismo, o altruísmo, os princípios irracionais que estão consumindo-a viva. Dagny mira no coração do guarda porque ela escolhe a vida. Ao fazê-lo – e sabendo, agora, das condições não negociáveis da vida e da natureza do inimigo – ela não arriscará a missão, deixando ameaças à solta. É a sua vida ou a dele, ela percebe (e, é claro, a vida do guarda ou a de Galt). Em nome do seu amor por suas vidas, os heróis devem matar o que os está matando.

A preocupação de que qualquer uma das ações que acabei de analisar seja cruel ou indevidamente severa, deveríamos reconhecer, revela a crença persistente de que uma pessoa pode permanecer neutra frente a padrões incompatíveis, servindo sem custo aos fins mutuamente contraditórios da vida e da morte. Galt observa a decisão de Dagny de deixar o Vale: se lhe parece difícil, é porque você ainda acha que uma coisa não exclui a outra. Mas a senhorita vai se convencer de que não há outro jeito[9]. Isso é precisamente o que eventualmente aprendem todas as pessoas que aderiram à greve.

O homem não pode evitar a lei da identidade e a lei do terceiro excluído. A vida e a morte são “isso ou aquilo”. A busca pela vida deve ser, correspondentemente, intransigente. Lembre-se de que os heróis passam a perceber que seus oponentes apoiam a premissa da morte. Jim, Lillian e Stadler não são aliados mal orientados que estão em busca da mesma coisa. Se fossem, os heróis poderiam racionalmente pensar, “oh, eles vão se dar conta, eventualmente; eles verão que o nosso caminho é o melhor”. O triste fato é que os saqueadores não buscam o mesmo que os produtores. Da mesma maneira, tudo o que os saqueadores estão fazendo e que se pode esperar que façam no futuro é obstruir a vida dos produtores. A única coisa que resta fazer aos que amam a vida, consequentemente, é retirar o apoio que têm oferecido aos seus destruidores e renunciar ao peso que têm carregado em nome dos seus inimigos. A libertação dos heróis depende de sua total rejeição de todos os padrões irracionais. Seu completo comprometimento para com sua própria felicidade depende do reconhecimento de que qualquer coisa menos que isso é suicídio.

ABSOLUTISMO MORAL

A filosofia moral de Ayn Rand é absolutista. A autoridade dos princípios morais é inequívoca. Quando um princípio moral se aplica corretamente, ele não pode ser violado. Quando um princípio moral devidamente se aplica, ele não pode ser violado. Galt observa: “há dois lados em toda questão: um está certo e o outro, errado, mas o meio é sempre mal” [10]. O absolutismo não significa que todas as respostas morais são fáceis de alcançar, mas que existe uma prova definitiva sobre um tema que, conforme seu valor último, indica o caminho apropriado de ação. A complexidade de certos casos não é uma desculpa para fingir que a lógica mudou. A adesão do homem aos princípios morais racionais, correspondentemente, deve ser intransigente. “No domínio da moralidade, nada menos que a perfeição é aceitável”[11].

O termo “absolutismo” é utilizado às vezes de forma ligeiramente diferente para se referir a uma ampla extensão de um código moral que governa todos (ou quase todos) os tipos de escolhas que um homem encontra. Tal código é absoluto por ser extensivo, não permitindo “exceções” quanto às exigências morais. Embora o escopo da autoridade moral seja estritamente distinto do rigor ou da frouxidão relativa a qualquer um de seus princípios individuais (isto é, a questão de quando é ou não permissível violar um princípio moral particular é independente do número de casos que são governados pelos princípios morais), ambos sentidos de absolutismo são oriundos da mesma fonte, como veremos. No que se segue, usarei “absolutismo” no primeiro sentido, para me referir ao fato de que os princípios morais não permitem violações. Será aparente, todavia, que ambos os sentidos de absolutismo estão frequentemente envolvidos.

De maneira interessante, o absolutismo da filosofia moral de Rand é fonte de muita hostilidade em sua direção. Não é somente a substância de sua teoria moral – sua defesa heterodoxa do egoísmo – que muitas pessoas consideram sujeita a objeções, mas o caráter “extremo” e inadequado daquele código. O ceticismo para com o absolutismo é compreensível, dado que sua afirmação é sempre arbitrária (como um dogma religioso). Além disso, como a doutrina moral reinante do altruísmo requer violações (já que ninguém poderia sobreviver se obedecesse consistentemente a um código de autosacrifício), a maioria das pessoas subconscientemente conclui que qualquer demanda por aderência perfeita é intrinsecamente impraticável. Tal qual, isso alimenta uma falta de seriedade com respeito aos padrões morais[12]. Embora o absolutismo moral seja um tópico muito amplo para ser explorado aqui em detalhes, é útil ver que sua fundação está na alternativa mutuamente exclusiva entre o bem e o mal que temos analisado até o presente momento. Antes de concluir, em seguida, permitam-me indicar rapidamente suas bases.

Rand mostra que o mal é contra a vida. Seja qual for sua manifestação ou grau particular, seja qual for sua motivação ou conscientização de seu impacto por parte do agente em dada ocasião, isto que é mal trabalha para impedir a vida humana. Como o bem é o que faz avançar a vida humana, e como toda a escolha que um homem faz ou alimenta ou envenena sua vida, o “isto ou aquilo” na escolha entre o bem e o mal é tanto inescapável quanto de profunda consequência. Essa natureza “isto ou aquilo” das escolhas humanas prescreve, por conseguinte, o absolutismo em relação tanto ao escopo abrangente da moralidade quanto a sua sumidade, sua recusa em permitir compromisso. Um homem não pode servir à sua vida fingindo que o domínio da moralidade é mais circunscrito do que não é, assim como um homem não pode servir à sua vida fingindo que violações aos princípios racionais serão benéficas para si. Galt indica a razão básica quando diz:

Qualquer transigência entre a comida e o veneno só pode representar uma vitória para a morte. Qualquer transigência entre o bem e o mal só pode ser favorável ao mal. É como na transfusão de sangue que tira do bem para abastecer o mal: aquele que transige faz o papel de tubo de transfusão[13].

O avanço da vida, como visto ao longo da obra, não tem nada a ganhar daquilo que prejudica a vida.

Note que, por mais que a natureza destrutiva do mal seja sombria para uma pessoa, a pessoa pode compreensivelmente ser negligente quanto a ela. Se a moralidade é um jogo, então a bondade é um jogo e a natureza das escolhas individuais parece não ter nenhuma importância real. Uma pessoa deve claramente apreender a relevância dos princípios morais para enxergar o preço de desviar-se deles. Ao compreender o que está em jogo e a incompatibilidade fundamental entre o bem e o mal, Rand demonstra que comprometer um princípio moral válido é prejudicial para si. Tal premissa da ação é, na verdade: “eu não estou realmente comprometido com minha felicidade”, ou “eu quero viver – tipo, um pouco, mas não plenamente”. Como todas as escolhas do homem carregam consequências para sua existência, todavia, o homem que procura viver não pode se permitir vagar entre ações que fazem avançar e que fazem diminuir sua vida. Em vez disso, ele deve identificar cada opção específica que ele contempla como sendo essencialmente uma “ação de vida” ou “ação de morte”, vigilantemente restringindo a si mesmo da última. É a natureza mutuamente exclusiva e conjuntamente exaustiva da alternativa entre a vida e morte e, correspondentemente, entre o bem e o mal, em outras palavras, o que dita o absolutismo da moralidade.

Assim como a obra A Revolta de Atlas mostra que um homem não deveria apoiar a maldade dos outros, o fato do absolutismo moral é que ele não deveria tolerar nenhum mal em si próprio. Tais concessões ao irracional são igualmente autodestrutivas. Dado que a alternativa fundamental de um homem é entre a vida e a morte, ele não pode fazer o bem a si próprio trapaceando nos princípios racionais fomentadores da vida. A existência não permite tributos a dois Césares.

No final, os “deveres” morais são inflexíveis porque a realidade é inflexível. Tudo é governado pela lei do terceiro excluído, incluindo os efeitos das ações humanas. Um código moral que se propõe a servir a vida humana deve respeitar as condições da vida. Assim como deve qualquer pessoa que busque sua vida.

CONCLUSÃO

No capítulo de abertura de A Revolta de Atlas, Eddie se recorda de uma conversa de infância na qual ele e Dagny afirmaram uma devoção ao que há de “melhor dentro de nós”, por mais que na época ele ainda não estivesse certo sobre o que exatamente isso significava. Não era sobre “negócios ou ganhar a vida” que ele pensava na época, mas consistia em:

“...algo como ganhar batalhas, salvar pessoas de incêndios ou escalar montanhas.” “Para quê?”, perguntou ela. E ele: “No último domingo, o pastor disse que devemos procurar alcançar o melhor de nós. O que você acha que há de melhor em nós?” “Não sei.” E ele concluiu: “Precisamos descobrir.” Ela não disse mais nada. Estava olhando para longe, para a estrada de ferro, que se perdia na distância”[14].

No capítulo final do livro, Eddie identifica essa qualidade de forma mais específica. O que é certo é: “trabalho, modo de ganhar a vida, aquilo que há num homem que torna isso possível – isso é o que há de melhor em nós, era isso que tinha de ser defendido…[15]

O melhor dentro de nós é aquilo que deseja viver – sincera e inequivocamente, e com total compreensão do que a vida humana exige. A Revolta de Atlas ilustra que esse amor pela vida humana incorpora tanto o conhecimento quanto o desejo. O amor à vida não é simplesmente um desejo ardente pela felicidade pessoal ou por sentir uma emoção ou estado de espírito. É um compromisso deliberado e informado. A qualidade dentro de nós que torna todos os valores possível depende do conhecimento dos requisitos causais da felicidade de um indivíduo assim como o compromisso com alcançar a sua felicidade, à luz daquele conhecimento. Amar sua vida – retirando todas as sanções do mal, recusando-se a pagar tributos a falsos deuses ou prestar-lhes juramento – requer um repúdio completo de qualquer coisa que prejudique a vida. Como simbolizado no ato onde Dagny atira no guarda, isto requer a negação de todas abrigo ás premissas e práticas venenosas.

A alternativa entre o bem e o mal - Rand demonstra em A Revolta de Atlas - é fundamentalmente a alternativa entre a vida e a morte de um indivíduo. Conseguir apreciar que não existe um território neutro, que uma pessoa não pode agir sem apoiar algum dos lados, e que as concessões aos padrões irracionais não produzem nenhum valor mas somente alguma forma ou nível de autodestruição, é o que permite aos heróis finalmente perceber que a greve era imperativa. É sua compreensão da natureza inevitável e mutuamente exclusiva da escolha entre vida e morte – e de como a escolha entre o racional e o irracional e entre o bem e o mal refletem isto – que os permite amar plenamente suas vidas em ação. Ela os libera para perseguir, sem apologia, a alegria de sua existência. Permite-lhes experimentar tal alegria[16].

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Tradução por Matheus Pacini. Revisão por Mateus Bernardino.

Publicado com permissão do autor.

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[1]A Revolta de Atlas. Vol III. p. 420-425. Hank oferece uma réplica similar a sugestão de Ferri de que Hank poderia estar melhor caso tivesse aproveitado a oportunidade de se juntar com Ferri em: “mas, se eu houvesse me juntado a vocês – disse Rearden com o mesmo tom impessoal, como se não estivesse falando sobre si próprio –, o que haveria para eu saquear em Orren Boyle?”. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 240. Separadamente, enquanto as pessoas que não criam valor material certamente recebem, às vezes, voluntariamente dos outros, isto não é o que é predominantemente tratado em A Revolva de Atlas. Os adversários dos heróis são os saqueadores, a partir do momento que reivindicam aquilo não merecem e a que não têm o direito.

[2] No romance, o destino de Gwen Ives não é mencionado; portanto, como não sabemos se ela alcança o Vale, parece justo se referir a ela como alguém que fica na mesma situação de Eddie.

[3] A Revolta de Atlas. Vol II. p. 252

[4] O sacrifício é a rendição de um valor maior por um valor menor. Isto não deve ser confundido com um investimento, no qual a pessoa abdica de um valor pelo ganho de um valor maior ulteriormente. Ver: Rand, “The Ethics of Emergencies,” Virtue of Selfishness, p. 50–53; Peikoff, Objectivism, p. 232–36; Smith, Ayn Rand’s Normative Ethics, p. 38–40.

[5] Depois de explicar que os residentes do Vale não têm nenhuma permissão de comunicação com o mundo exterior, Galt pergunta se Dagny deseja requerer uma exceção especial. Não fica inteiramente claro se ele iria garantir esta concessão, todavia, ou se ela iria fazer tal requisição.

[6] Confiança na força é o resultado natural de um código de irracionalidade. Uma vez que abandonamos a razão, a força é única alternativa fundamental. Ver: RAND, Ayn. Faith and Force, Philosophy: Who Needs It. p. 70–92.

[7] Tenha em mente, também, a lógica envolvendo esta decisão desde a perspectiva da trama. Naquele estágio da história, Dagny encontrou um amor maior que o amor por Hank. Dito isto, colocar o bem-estar de Hank acima do de Galt poderia colocar em risco um valor maior, Galt, por um valor menor (embora um tremendo valor), Hank. E nós sabemos agora que Dagny maliciosamente não fez qualquer sacrifício. (A escolha de entrar em contato ou não com Hank não é, em última instância, sua, é claro, mas isto ajuda a explicar por que ela não resiste à política implementada e procura ser, ela, uma exceção.) Mais tarde, pelo contrário, quando Hank encontra Galt e envia a Dagny uma nota do Vale – “Eu o encontrei. Eu não lhe culpo” – o contexto significativamente diferente justifica esta ruptura da barreira contra a comunicação entre os dois reinos. Dagny é doravante consciente sobre o Vale e sobre a greve. Hank não está então revelando nenhuma nova e potencialmente ameaçadora informação sobre quando Dagny esteve no Vale, no entanto, Hank não teve sinal de sua existência.

[8] A Revolta de Atlas Vol III. p. 475

[9] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 59

[10] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 379

[11] Mantenha em mente que Rand distingue firmemente um erro inocente de uma falha moral, escrevendo que “erros de conhecimento não são rupturas da moralidade”, e que “nenhum código moral adequado pode exigir infalibilidade ou onisciência”. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. p. 115. Também é importante apreciar que a aplicação adequada de princípios morais é contextual. Ver: Objectivism. p. 274–276 e Ayn Rand’s Normative Ethics. p. 36 e p. 94–105. Sobre a perfeição moral, ver: “Morality Without the Wink: A Defense of Moral Perfection,” Journal of Philosophical Research 29 (2004): p. 315–31, e a discussão sobre orgulho em: Ayn Rand’s Normative Ethics, cap. 9.

[12] Considerem a observação de Galt: “um código moral impossível de praticar, que exige a imperfeição e a morte, lhes ensinou a dissolver todas as ideias numa neblina, a não permitir definições firmes, a considerar todos os conceitos aproximações e todas as regras de conduta elásticas, a achar exceções a todos os princípios, a transigir em todos os valores, a ficar sempre no meio. Ao obrigá-los, por meio de extorsão, a aceitar absolutos sobrenaturais, esse código os forçou a rejeitar o absoluto da natureza”. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 387

[13] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 387. Para uma discussão relatando a maneira pela qual o poder do que é bom depende de sua consistência, ver: Peikoff, Objectivism. p. 264–67

[14] A Revolta de Atlas. Vol I. p. 14

[15] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 493

[16] Devo agradecer aos muitos comentários valorosos de participantes aos colóquios patrocinados em conjunto pelo Anthem Fellowship for the Study of Objectivism na Universidade do Texas, em Austin, e pelo Ayn Rand Institute, que ocorreu em Irvine-Califórnia em Janeiro de 2008: Tore Boeckmann, Yaron Brook, Onkar Ghate, Robert Mayhew, Jason Rheins, e Greg Salmieri, e para Debi Ghate, por ter organizado em conjunto este colóquio comigo. A palestra do curso de Gref Salmieri, denominado “Atlas Shrugged as a Work of Philosophy”, dada em Julho de 2007 na OCON, Telluride, foi algo bastante proveitoso para minha maneira de pensar sobre essas questões. Os comentários editoriais de Robert Mayhew acrescentaram bastante a este artigo.