Tara Smith

Professora de Filosofia na Universidade do Texas, em Austin.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, teoria política, ética e moral.



NENHUM TRIBUTO A CESAR - O BEM E O MAL NA REVOLTA DE ATLAS - PARTE II


James Taggart

Mais tarde na história, quando um mendigo fica entediado ao receber uma esmola de U$ 100 de Jim, Jim fica perturbado ao reconhecer indistintamente que a indiferença do mendigo aos valores espelha a sua própria. Independentemente de qual seja a posição social, o cargo ou a riqueza de Jim, aquele mendigo esfarrapado personifica o caráter básico de Jim. Contudo, nós também passamos a conhecer melhor a profunda e viciosa devoção de Jim à premissa da morte. Ele revela agressivamente o ódio contra os valores objetivos em si e contra as pessoas que os conquistam[1]. Desde a infância, Jim sente ciúmes, inveja e desprezo por Francisco e Dagny. Ele pega carona enquanto ridiculariza as conquistas deles como não verdadeiramente notáveis ou como somente produtos da sorte. Sua atitude com relação aos homens hábeis está claramente evidenciada na animosidade que direciona a Hank, em uma conversa com Lillian: “Eu queria vê-lo levar uma surra – disse Taggart. – Queria ouvi-lo gritar de dor, só uma vez.[2]

Depois de uma relação casual de sexo com Betty Pope (emblemática do vazio profundo de valores em suas vidas), sua triste manhã seguinte de letárgica, irritante e indignada acusação contra a vida em geral resplandece repentinamente quando ele foca sua atenção em “dar uma rasteira” na sua irmã na reunião de diretoria que ocorrerá posteriormente naquele dia[3]. Jim e Betty unem seus ressentimentos pelo sucesso de Dagny e se focam nos planos de Jim de “botá-la em seu devido lugar[4]”. Somente a perspectiva de uma queda de produção reacende alguma aparência de desejo no casal. “Talvez eu termine levando você hoje à noite ao restaurante armênio”, Jim fala à Betty, depois de contemplar sua armadilha à Dagny[5].

Em uma conversa reveladora com Cherryl, Jim confessa sua atitude com respeito a todos os empreendedores: “Tudo o que eles sejam capazes de fazer, eu posso desfazer. Eles que construam uma ferrovia: se eu quiser, eu a quebro, assim! – estalou os dedos –, como quem quebra uma espinha!”[6]. Quando Cherryl sussurra um significado para sua declaração, Jim recua, na maneira típica de um fujão:

“Você quer quebrar espinhas? – sussurrou ela, trêmula”.

“Eu não disse isso! – gritou ele. – O que há com você? Eu não disse isso!”[7]

A resposta de Jim presume que se ele recusar a admitir sua natureza, ela não será o que é.

Lillian Rearden

Lillian ilustra outra variação da premissa da morte. Ela não parece tão diretamente comprometida quanto Jim com a destruição como tal, mas está mais disposta a derivar certo senso de superioridade sobre Hank, em particular. Ela age, Hank gradualmente compreende, como se acreditasse que ao atacar a força dele lhe será concedida algum valor. Ela procura destruí-lo precisamente por suas virtudes, “como o símbolo da força viva do homem”.

Note, por exemplo, que ao descobrir que Hank está tendo um caso, Lillian não reconhece o que isto significa na vida de Hank. Ela não lamenta o desgaste de seu casamento como outra pessoa o faria – como se para ela isto fosse um valor genuíno. Em vez disso, ela está alegre pelo que considera o “colapso” do “vangloriado sentimento de honra” de Hank, além de se mostrar animada pela perspectiva de ele ser condenado a viver como um “hipócrita”. Ao permanecer sua esposa, Lillian espera ser um lembrete impiedoso da “depravação” de Hank[8].

Em resposta ao comentário de Jim de que ele gostaria de ver Hank quebrado (notar acima), Lillian reflete: “Não sei construir as siderúrgicas dele, mas posso destruí-las. Não posso produzir o metal dele, mas posso tirá-lo dele. Não posso fazer os homens se ajoelharem de admiração à minha frente, mas posso fazê-los cair de joelhos”[9]. Quando Lillian e Jim transam (outro par bem-casado de companheiros de cama), o que motiva a ambos é o ódio contra o bem. A sua intenção é denegrir o caráter de Hank (iludindo a si próprios que têm o poder de fazê-lo). Da mesma forma, quando Lillian diz a Dagny que tinha sido ela quem havia revelado o caso de Hank aos burocratas que, então, o usaram para extorquir sua assinatura nos “certificados de doação”, Dagny detecta um quê de prazer na confissão de Lillian. Foi ela quem havia tirado o metal Rearden dele, Lillian se vangloria[10]. Perversa, se não pateticamente, ela implica que isso é algo do que se orgulhar. Lilian continua, na conversa com Dagny:

A senhorita não pode fazer nada. Não pode me impedir nem com todo esse dinheiro que é capaz de ganhar e eu não sou. Não há lucro que possa me oferecer; eu não tenho ganância. Não estou sendo paga pelos burocratas para fazer isso. Estou agindo sem pensar em lucro. Sem lucro. A senhorita me compreende?[11]

A maldade de sua atitude – sua atitude com respeito a todos os valores – é exatamente o que Dagny, Hank e o leitor passam a entender sobre Lillian. O que Lillian escolhe não entender é o que esse “orgulho” revela sobre ela mesma. Pois não buscar valores é não buscar a vida.

Robert Stadler

Rand reconhece que a maioria das pessoas não odeia conscientemente o bem[12]. Outras formas de mal podem ser tão virulentas quanto, todavia. Stadler, por exemplo, representa ainda outra variação diferente do mal. Stadler é o paradigma do pragmatismo. Como tal, ele é um assistente do mal que abre o caminho para as pessoas mais deliberadamente más serem efetivas[13].

Na superfície, Stadler parece defender um fim nobre: o progresso da ciência. Ele diz a si mesmo que deve fazer concessões aos oponentes da razão (burocratas do governo, demandas da sociedade) de forma a avançar tal fim. Sacrifícios são inevitáveis, segundo ele. Ainda assim, ao longo da história, nós vemos que seus compromissos pragmáticos não são motivados por julgamentos táticos inocentemente mal orientados. Nos bastidores, Stadler venera a arbitrariedade. Como ele alega a Galt,

Não sou um traidor, John! Não sou! Eu estava servindo à causa da inteligência! O que eu via à frente, o que eu queria, o que eu sentia não podia ser contado em miseráveis dólares! Eu queria um laboratório! Eu precisava de um laboratório! A mim pouco me importava de onde ele viesse ou como seria obtido! Eu poderia fazer tanta coisa! Podia subir tanto! Você não tem pena? … Eu queria![14]

A atitude de Stadler é: ele quer o que ele quer; obter o que ele quer é tudo o que interessa. Para torná-la realidade, ele desconsidera as repercussões de longo prazo dos meios que adota, e as precondições para que os resultados sejam objetivamente valiosos. Ele oferece diversas racionalizações para seus compromissos, tentando persuadir a si próprio que um indivíduo deve usar a fraude e a força, que “os homens não estão preparados para ouvir a verdade ou a voz da razão”[15], que ele “não tinha escolha” e “não há como viver se não se aceitam as condições deles, não há!”[16]. Stadler não é, em princípio, diferente de quem age por capricho, elevando seus desejos acima dos fatos da realidade. Seu crime é de certa forma pior que o de Jim, já que Stadler dispunha da razão para fazer um melhor julgamento. Através do programa pragmático que adota, seu prodigioso intelecto é direcionado não para a criação de conhecimento valioso, mas para o Instituto Científico Nacional e sua meta de desqualificar o metal Rearden e para o Projeto X, per se um exercício de aniquilação. Ao final, Stadler não pode mais fugir da essência destruidora de vida do seu pragmatismo quando, em sua extensa confissão (quase apologia) a Galt, ele se depara declarando: “Você é o homem que tem de ser destruído!”[17]. A alternativa “isto ou aquilo” entre o caminho da razão e da vida e o caminho da irracionalidade e da morte é inevitável.

Embora as ações de Lillian e Stadler certamente reflitam ódio pelo bem como tal, Jim é o mais completa e descaradamente comprometido com isso. Lillian, seja qual for sua forma pervertida, acredita que obtém algum valor ao permanecer em uma relação com alguém como Hank. Stadler convence-se de que o fim nobre da ciência justifica seus meios agressivos. Jim, todavia, busca a destruição como tal. Sua campanha contra os valores é total e muito mais irrestrita que a dos outros. Isso fica evidente na sua relação com Cherryl, a quem ele repetidamente coloca em situações humilhantes. Jim saboreia seu esquema para exterminar a ambição e sufocar os mais sinceros esforços dela para se tornar a melhor pessoa que ela pode ser. Quando ela finalmente desfruta de uma tarde prazerosa em um evento social, ele a admoesta por tê-lo envergonhado em público.

Em Jim, Cherryl confronta o “mal pelo mal” e a constatação arrepiante é que ele é: “um assassino… pelo prazer de matar”[18]. Seu caráter sanguinário fica ainda mais claro quando, durante a tortura de Galt, ele não fica satisfeito com nada menos que a morte de Galt. Considere sua conversa com Ferris:

– Não! – gritou Taggart.

– Jim, você não acha que já foi suficiente? Não esqueça, temos que ter cuidado.

– Não! Não foi o bastante! Ele ainda nem gritou!

– Jim! – berrou Mouch de repente, apavorado com algo que viu no rosto de Taggart. – Não podemos matá-lo! Você sabe!

– Não me importo! Quero derrotá-lo! Quero ouvi-lo gritar! Quero…

E então foi Taggart que gritou. Foi um grito prolongado, súbito e lancinante, como se tivesse visto algo subitamente, embora não estivesse olhando para nada e seus olhos parecessem cegos. O que ele estava vendo era algo dentro de si próprio. As paredes protetoras da emoção, do fingimento, de pensamentos incompletos e palavras falsas, construídas por ele ao longo de toda a sua vida, haviam desabado num único momento – o instante em que ele compreendeu que queria que Galt morresse, apesar de ter plena consciência de que ele próprio morreria em seguida[19].

A terrível verdade com a qual Jim se defronta é que ele tinha buscado a destruição pela destruição. Seu motivo “era a volúpia de destruir tudo o que era vivo, em benefício do que não era[20]”.

Essa é a premissa da morte.

Frente ao que o bem é e faz, o ódio ao bem é o ódio à vida. Os caminhos dos vilões de RA nos ajudam a entender a análise de Galt daqueles vivendo sob a premissa da morte:

Eles não querem possuir a sua fortuna: querem que vocês a percam. Não querem ter sucesso, e sim que vocês fracassem. Não querem viver, e sim que vocês morram. Não desejam nada, só odeiam a existência e vivem correndo, tentando não descobrir que o ódio que sentem é inspirado pelas próprias pessoas[21]

O culto à morte é de longe a coisa mais difícil que Hank e Dagny precisam entender sobre seu inimigo antes que possam libertar-se a si próprios das garras do mal. Após uma paulatina acumulação de dicas e insights, todavia, ambos finalmente reconhecem a dura verdade. Em uma conversa final com sua família, que está em pânico pelo fato de Hank ter cortado suas pensões e que busca novas táticas psicológicas para ganhar a renovação de seu apoio, ele percebe que o apelo desesperado de sua mãe, “nós queremos viver”, não é verdadeiro.

Ah, isso não – disse ele com uma expressão de espanto que terminou virando horror, à medida que foi entendendo o pleno significado daquilo. – Não querem, não. Se quisessem, teriam sabido dar valor a mim[22].

Ao terem meramente zombado e tratado com desdém tudo aquilo que os mantém vivos – o trabalho de Hank e suas conquistas – revela-se a imagem vexatória de suas vidas. Eles não sabem como tratar valores porque eles sequer sabem o que um valor realmente é. Por que eles nunca encontram ou descobrem o que um valor realmente é? Porque eles não valorizam suas vidas.

Dagny tem uma epifania solene similar quando, explicando a Jim e a Cuffy Meigs os inevitáveis resultados desastrosos que se seguiriam à rota proposta por eles para a rodovia, ocorre-lhe que ambos já sabem de tudo que ela poderia vir a dizer sobre sua futilidade. Isto simplesmente não importa para eles. Ela percebe que, de forma mais abrangente, aquela “indiferença inanimada era o estado permanente das pessoas ao seu redor”[23]. Outros encontros com saqueadores, sobre condições cada vez mais difíceis, provocam o espanto recorrente acerca dessa espécie estranha, “Aqueles que optavam por esse estado, pensou ela, queriam viver?[24]

A impotência do mal

Embora o reconhecimento de que seus inimigos abraçam a premissa da morte seja crítico para a recusa final de Hank e Dagny a qualquer tipo de cooperação que ainda pudesse ocorrer, um fato secundário, porém adjacente, com o qual devem lidar é a impotência do mal e, correlativamente, sua dependência intrínseca do bem. Dada a natureza essencial do mal – “o irracional, o cego, o antirreal” –, ele não contribui em nada para o progresso da vida humana. Aqueles que buscam viver não tem nada a ganhar com a evasão, irracionalidade ou qualquer uma de seus produtos. Como Galt observa, um homem não tem benefício algum em buscar os vícios humanos”[25].

As demandas que o mal impõe sobre o bem não são meramente neutras ou benignas, todavia. Elas são um tipo de veneno. Um homem só tem a perder ao cooperar com o mal. Os “resgates” que os heróis pagam para subornar seus adversários não geram nada, porque são pagos em troca de nenhum valor positivo. Mesmo o Ama de Leite eventualmente percebe isso, algo evidenciado em sua explicação do fato de ter defendido a siderúrgica de Rearden da apropriação governamental. Quando Rearden observa, surpreso, que o Ama de Leite se expôs, ele responde: 

Mas eu não tinha outra saída! … Eu não podia ajudá-los a destruir a siderúrgica, podia? … Quanto tempo eu ia aguentar ficar evitando me expor? Até eles pegarem o senhor? … E o que eu faria se me poupasse a esse preço?… O senhor… me entende, não é, Sr. Rearden?)[26]

O Ama de Leite finalmente entendeu, em outras palavras, que se o ato de viver requer que se corra um grande risco pelo bem de seus valores, esse é o preço que ele pagará. Pois, depois de um longo período de confusa ambivalência, ele decidiu que isso é o que ele quer: viver. E ele nada ganha ao tomar ações baseadas em um código antitético de morte (o contraste com Stadler é marcante).

Como o mal em si é incapaz de sustentar a vida, sua existência depende totalmente do apoio que recebe do bem. O poder do irracional resulta do poder que o racional concede-lhe. Ainda no início, quando se encontrou com o oficial descrito como o “guarda de trânsito”, Hank detecta que seus adversários necessitam de algo dele, embora ele ainda não esteja certo do que se trata[27].

Posteriormente, no jantar do Dia de Ação de Graças, Hank percebe que a culpa que Lilian busca lhe imputar depende de ele aceitar os seus padrões[28], e ele percebe o mesmo na discussão com o Dr. Ferris sobre a chantagem baseada em seu caso com Dagny[29]. Muito depois, quando Jim assegura sua confiança de que “ele fará algo” para manter a produção mesmo sob restrições sufocantes, Hank reconhece plenamente que ele tinha tornado possível a exploração dos saqueadores. Eles dependem completamente de nós, ele percebe; temos alimentado nosso próprios predadores. (Note que quando Hank começa a dar menos atenção aos desejos de sua família, recusando muitas das demandas que tinha atendido no passado, até mesmo eles têm problema em continuar negando sua abjeta dependência dele). Em outra cena com Philip, Hank reconhece que Philip está fazendo Valer sua fraqueza e ausência de valores como fonte principal de sua influência sobre ele[30] (esse é um exemplo do que Galt chama de culto ao zero).

Na verdade, Francisco explica sua dependência à Dagny, embora ela ainda não a compreenda totalmente. Francisco expõe:

“Produzimos a riqueza do mundo, mas deixamos que nossos inimigos elaborassem seu código moral.

– Mas nunca aceitamos o código deles. Vivemos segundo nossos próprios padrões.

– Sim… e pagamos resgates por isso! Resgates materiais e espirituais, sob a forma do dinheiro que nossos inimigos recebiam sem merecê-lo e da honra que nós é que merecíamos, mas não recebíamos. Foi esta a nossa culpa: o fato de estarmos dispostos a pagar. Nós mantivemos a humanidade viva e, no entanto, permitimos que os homens nos desprezassem e venerassem nossos destruidores. Permitimos que eles reverenciassem a incompetência e a brutalidade, os que recebiam o que não mereciam e davam o imerecido. Ao aceitar o castigo não por nossas faltas, mas por nossas virtudes, traímos nosso código e tornamos o deles possível...”[31]

Eventualmente, Dagny passa a ver a validade da acusação de Francisco de que, ao sustentar os saqueadores, ela age como uma destruidora. Dagny e Hank tinham ambos sido inconscientemente cúmplices de seu próprio estrangulamento e do assalto a tudo o que é bom. O que eles finalmente constatam é que, como Galt coloca: “o mal é impotente e só dispõe do poder que lhe permitimos arrancar de nós. Morram, porque aprendemos que um zero não pode hipotecar a vida.”[32]

A Necessidade de se Afastar

Crucial à aceitação de Hank e Dagny de que é necessário abandonar a sociedade dos saqueadores é seu reconhecimento eventual de que não existe refúgio à alternativa entre vida e morte; nenhuma solução “intermediária” pode ser sustentada. Tudo é ditado pela lei do terceiro excluído, incluindo suas próprias ações. Eles próprios, portanto, ou buscam sua felicidade ou são contra ela; ou eles apoiam suas vidas ou apoiam suas mortes. “Não existe suicídio temporário,” como observa Hank[33]. Dagny acredita por muito tempo que as concessões aos seus inimigos não prejudicarão seus próprios valores (fato evidente em sua disposição a pagar resgates desde que pudesse manter a rodovia). Contudo, dado o inextinguível e polar antagonismo entre vida e morte, qualquer concessão ao mal é nociva para o indivíduo.

Stadler é um retrato deprimente disso. Como um pragmático, Stadler tenta contornar a alternativa fundamental, segmentando-a. Ele denuncia Dagny e Galt como “idealistas utópicos” [34], implicando que o ideal e o prático vivem em domínios distintos. As pessoas são o problema, ele insiste, e sugerindo que as pessoas suplantam a realidade, Stadler finge que pode de alguma forma escapar do caráter inevitável da existência humana – e que ele pode sobreviver sem respeitar a lei do terceiro excluído, o que significa: sem respeitar a natureza básica da realidade, o fato que A é A. (A ironia dele ser a mente mais respeitada da ciência é marcante). Como resultado dessas evasões, nós vemos Stadler descer aos mais profundos níveis de destruição, culminando em seu pedido de execução de Galt. Ainda assim, naquela cena, nós também testemunhamos a autodestruição de Stadler. Ele começa a reunião com Galt suplicando por sua inocência (contra seu reconhecimento interno de culpa) e acaba em agonia:

Ah, você vai ser morto, sim! Não vai vencer! Não podem deixar que vença! Você é o homem que tem de ser destruído!

A interjeição que o Dr. Stadler soltou foi um grito sufocado, como se a imobilidade do vulto à janela tivesse servido como um refletor silencioso e, de repente, lhe fizesse ver o significado integral das próprias palavras.

– Não! – gemeu o Dr. Stadler, sacudindo a cabeça, para escapar daqueles olhos verdes imóveis. – Não!… Não!… Não!

A voz de Galt tinha a mesma austeridade inflexível de seu olhar:

– O senhor disse tudo o que eu queria lhe dizer.

O Dr. Stadler esmurrou a porta. Quando ela foi aberta, ele saiu correndo.

A sanção imposta pelo bem protege o mal e oculta a sua dependência intrínseca do bem. O sustento provido por essas sanções torna mais difícil para entender que a alternativa é entre uma coisa ou outra. Mas é o reconhecimento da alternativa mutuamente exclusiva e conjuntamente exaustiva entre o padrão de vida e o padrão de morte que permite que os heróis eventualmente vejam quem são seus aliados e seus inimigos, e o caminho atual necessário para sua felicidade. Quando pela primeira vez Francisco diz a Dagny que ela é o inimigo a quem ele deve derrotar, em vez de Jim ou Mouch, ela não acredita. Muito depois, no Vale de Galt, Galt similarmente observa que o plano dela é aquele do inimigo. É somente quando ela e Hank entendem a verdade disso – que eles têm ajudado os inimigos de Galt ao lutarem contra os desertores, e que eles têm lutado contra eles próprios – é que aceitam o imperativo da greve.

Como notamos anteriormente, enquanto Hank e Dagny tentam coexistir com os saqueadores, eles o fazem sob uma premissa enganosa: pois, à medida que os resgates são seu único meio de alcançar seus valores, é sua integridade na devoção àqueles valores que os leva a continuar sua luta. O reconhecimento eventual da premissa da morte de seus oponentes e a completa dependência do mal do seu apoio mostra-lhes a conveniência de retirar tal apoio. Contrária à suposição inicial de Dagny, abandonar o mundo dos saqueadores não significa “desistir”. É, em vez disso, um testemunho do seu amor pela sua vida – tal qual entendido no juramento obrigatório para a entrada no Vale de Galt:

Juro por minha vida… e por meu amor à vida… que jamais viverei por outro homem… nem pedirei a outro homem… que viva… por mim[35].

Isso reflete o conhecimento e aceitação das condições necessárias à vida. Um homem não pode viver sob a premissa da morte. É no final, quando Hank e Dagny reconhecem tal fato – a aliança de seus inimigos com a morte e a profunda impotência do mal - que eles se juntam àqueles que a haviam visto antes deles[36].

LEIA A PARTE FINAL AQUI.

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Tradução por Matheus Pacini. Revisão por Mateus Bernardino.

Publicado com permissão do autor.

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[1] Ele exemplifica o ódio contra o bom por ser bom, que Rand identifica como o degrau mais baixo da maldade em The Age of Envy.

[2] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 215

[3] Antes disso, James Taggart olhou para a sala de estar do seu apartamento imaginando que horas seriam. Não tinha vontade de procurar o relógio... Sentou-se numa poltrona, com seu pijama amarrotado, descalço; ia dar muito trabalho procurar os chinelos. A luz do céu cinzento na janela feriu seus olhos ainda pesados de sono. Sentiu, no interior do crânio, o vazio que prenunciava uma dor de cabeça. Perguntou-se por que diabo fora parar ali, na sala. Ah, sim – lembrou-se – para saber das horas. Detesto as manhãs. E Betty chateada, exclamou: “Aí está mais um dia e nada para fazer”. RAND. A Revolta de Atlas. Vol I. p. 78

[4] RAND. A Revolta de Atlas. Vol I. p. 80

[5] Ghate oferece um exemplo vívido na obra Death Premise, p. 344.

[6] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 192

[7] Idem. p. 192

[8] O castigo que ela procura afligir é uma representação que denuncia seu próprio caráter.

[9] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 215

[10] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 163

[11] Idem. p. 163

[12] RAND. The Age of Envy. p. 149. Notar também seu comentário de que os “homens deliberadamente perversos são uma minoria” em Altruism as Appeasement, The Objectivist 5, January 1966. p. 6.

[13] Veja seu diálogo com Dagny. RAND. A Revolta de Atlas. Vol I. p. 197-204

[14] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 445

[15] A Revolta de Atlas. Vol I. p. 204

[16] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 445

[17] Idem. p. 446

[18] Idem. p. 220

[19] Idem. p. 469

[20] Idem. p. 472. Recomendo a leitura do relato completo que Jim faz sobre si mesmo.

[21] Idem. p. 371. O suicídio de Eric Starnes no dia do casamento da garota que ele deseja (um incidente ocorrido no quarto da garota, de maneira a que fosse descoberto na noite de sua lua-de-mel) é outra ilustração grotesca disto. Devo agradecer a Jason Rheins por ter me lembrado deste exemplo. Ver também: RAND, Ayn. The Age of Envy. p. 133–34.

[22] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 293

[23] Idem. p. 437

[24] Idem. p. 437

[25] Idem. p. 345

[26] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 312-313

[27] A Revolta de Atlas. Vol II. p. 49

[28] Idem. p. 69

[29] Idem. p. 109

[30] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 369

[31] A Revolta de Atlas. Vol II. p. 301

[32] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 347

[33] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 306

[34] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 101

[35] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 40

[36] Peikoff oferece uma explicação esclarecedora de como a virtude da integridade, na visão de Rand, exige enxergar as alternativas com precisão, algo mais forte do que o que indica o vocábulo familiar “por força de vontade”, Objectivism, p. 261-62. Isto é claramente exposto em A Revolta de Atlas, como nós testemunhamos quando Hank e Dagny vieram a compreender a verdadeira natureza de seu inimigo e o papel do inconsciente em sua própria destruição. Ver SALMIERI, Gregory. Discovering Atlantis: Atlas Shrugged’s Demonstration of a New Moral Philosophy.