Tara Smith

Professora de Filosofia na Universidade do Texas, em Austin.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, teoria política, ética e moral.



Nenhum tributo a Cesar - O Bem e o Mal na Revolta de Atlas - PARTE I


A Revolta de Atlas nos ajuda a entender as consequências de vida e morte da racionalidade e da irracionalidade. Correlativamente, ela ilustra a inevitabilidade das escolhas de valores. Ao demonstrar como o princípio do terceiro excluído funciona no campo da ação humana, Ayn Rand dramatiza vividamente como toda a escolha que uma homem faz é boa ou ruim na medida em que gera repercussões em sua existência. Somente com uma compreensão consistente desse fato é que podemos entender totalmente o enredo do romance. Esse fundamental “isso ou aquilo” também explica o caráter absolutista da filosofia moral de Rand.

Para nos ajudar a assimilar a importância do insight de Rand, este ensaio examinará a escolha entre o bem e o mal. Em particular, o foco do artigo será a natureza mutuamente exclusiva e conjuntamente exaustiva dessas alternativas, com o objetivo de elucidar suas consequências de vida ou morte. E isto será feito em quatro etapas. Primeiro, para indicar as raízes da moralidade na questão de vida ou morte, esboçaremos a visão de Rand sobre a natureza básica do valor. Em seguida, traçaremos os elementos centrais ao processo crescente de compreensão que os protagonistas da novela A Revolta de Atlas têm sobre as características de suas alternativas de escolha ao longo da história. Depois, observaremos como o crescimento do conhecimento altera o seu curso de ação. Finalmente, e de forma mais breve, mostraremos como o “isso ou aquilo” e a natureza mutuamente exclusiva dessa alternativa ditam o caráter absolutista do código moral de Rand. Tudo isso, acredito, ajudará o leitor a entender o tema de A Revolta de Atlas – o papel da razão na existência humana – de forma mais completa[2].

A NATUREZA E AS FUNDAÇÕES DO VALOR

Para entender as consequências de vida ou morte da autoridade moral e a inevitabilidade das escolhas de valores, devemos primeiro entender a visão de Rand sobre o que é moralidade. Embora este seja um tema amplo e que merece por si só uma extensa explanação, um resumo básico deve ser suficiente aqui[3].

Em A Revolta de Atlas (RA)[4], Rand ilustra como a moralidade e a racionalidade são indissociáveis. “A razão humana é sua faculdade moral”[5], observa John Galt – o protagonista da novela –, e “pensar é a única virtude básica do homem”[6]. O racional é o moral. Rand chegou a essa conclusão ao investigar as raízes da moralidade[7].

“Moralidade é um código de valores para orientar as escolhas e as ações do homem – as escolhas e ações que determinam o propósito e o trajeto de sua vida[8]. Contudo, Rand questiona, por que um indivíduo deveria ser moral? Por quais razões faz sentido considerar algumas coisas boas ou valorosas? E o que ela encontra como resposta é que algo pode ser bom ou ruim somente com respeito a organismos vivos. Para objetos inanimados, não existe o conceito de valor. Nada pode ser bom ou ruim para um banco, um relógio ou uma pedra na medida em que essas entidades não têm nada a ganhar ou perder como resultado dos efeitos “de qualquer coisa” sobre eles. “Ganhos” e “perdas” são possíveis somente com respeito a algum fim. Realmente, essa é a maneira pela qual medimos ganhos e perdas: pelo impacto das coisas sobre a realização (ou a manutenção) de uma meta. Como Rand explica,

“Valor” é algo pelo qual uma pessoa age para obter e/ou manter. O conceito de “valor” não é uma primária; isso pressupõe uma resposta para a questão: valor para quem e para quê? Isso pressupõe uma entidade capaz de agir para alcançar um objetivo diante de uma alternativa. Onde não há alternativa, nenhum objetivo ou valor são possíveis[9].

Os valores surgem, em outras palavras, somente com respeito às entidades que perseguem um fim cuja realização pode ser positiva ou negativamente afetada pelas ações daquelas entidades.

Como a vida é literalmente um processo de geração e manutenção de ação, os seres vivos efetivamente buscam um fim: sua existência contínua[10]. Ser uma entidade viva é estar engajado no processo de ação contínua (quando uma entidade não está engajada em tal ação, ela não está funcionando como um organismo vivo). Com relação a esse fim (sua existência), várias coisas podem ser benéficas ou prejudiciais. Isso não implica que todos os seres humanos necessariamente buscam aquele fim ou consideram sua existência como um objetivo consciente. O indivíduo é livre para rejeitar sua vida e sofrer as consequências. A questão, antes disso, é que os fins tornam os benefícios possíveis. Separado de sua relação com um fim, o conceito de “benefícios” não teria sentido.  

No entanto, os organismos vivos não são recipientes passivos e impotentes dos impactos de eventos externos. Suas ações afetam sua sobrevivência. Portanto, é importante entender que isso, mais especificamente, é o que dá origem ao fenômeno dos valores. É o que nos permite identificar certos elementos na ação dos organismos como objetivamente bons para eles.

Todos os organismos vivos precisam agir de forma a sustentar sua existência. Por conseguinte, algo construtivo para a existência de um organismo é bom para ele; algo que é destrutivo, ruim. Para uma planta, absorver raios solares ou água pode ser um valor; para um determinado animal, pode ser a aquisição de nozes ou pequenos frutos ou até mesmo um local seguro onde hibernar. Para um ser humano, alimento, dinheiro, conhecimento ou amizades seriam normalmente considerados valores. Obviamente, há particularidades de espécie para espécie[11]. Mas a base comum de todos esses valores, todavia, é o fato de que a existência dos organismos depende de sua ação com foco na manutenção de sua existência.

Não obstante as similaridades dos seres humanos com outros organismos, a forma distinta segundo a qual os seres humanos enfrentam a alternativa da existência ou da não existência gera uma necessidade única por moralidade. Dado que os seres humanos selecionam voluntariamente suas ações, devemos avaliar racionalmente nossas opções, identificando o provável impacto das coisas sobre nossas vidas de forma a buscar aquelas coisas que oferecem uma contribuição positiva e evitar aquelas coisas potencialmente prejudiciais. Somente as primeiras são valores objetivos. Um homem deveria procurar obter e manter certas coisas, em outras palavras – ela necessita da orientação de um código moral que identifique valores objetivos – somente se e porque ela busca sua existência. O que subscreve a autoridade da moralidade é a causalidade: se um indivíduo busca certo fim, ele deve respeitar as condições necessárias e estabelecer os meios requeridos por meio da realização dos valores adequados. Um código moral racional é proposto para ajudá-lo a fazer isso. Sem o desejo de viver, a exigência de algum tipo de moralidade dissolve-se; nenhuma “obrigação” moral é então garantida[12]. Isso explica a afirmação de Galt de que um “mandamento moral” é uma contradição em termos[13].

O que Rand identifica, então, é o fato de que, para os seres humanos, “o padrão de valor... – o padrão pelo qual um indivíduo julga o que é bom ou mau – é a vida humana, ou: aquilo que é requerido para a sobrevivência do homem como homem”[14]. E a própria vida do homem é o seu justo propósito. Rand destaca que a “vida” não se refere somente à subsistência física, mas ao ajuste geral e à condição saudável para um organismo que está destinado a prosperar no futuro. Dado que os seres humanos são seres mentais assim como seres materiais e as condições psicológicas e físicas de um homem afetam-se mutuamente, o padrão de vida classifica a condição da psique humana (suas crenças, valores, disposição emocional, métodos cognitivos e assim por diante)[15]. O que é importante para nossos propósitos é que esse padrão fornece a base para a identificação dos valores objetivos, isto é, a base de distinção entre aquelas coisas que são verdadeiramente do interesse de um indivíduo e aquelas coisas que são tratadas assim por indivíduos particulares, mas que não são de seu interesse. Embora sua dimensão possa variar consideravelmente, todos os valores objetivos oferecem algum tipo de contribuição positiva ao bem-estar do indivíduo[16]. (Doravante, minhas referências a “valores” serão restritas aos valores para os seres humanos, a menos que o contexto indique claramente o contrário).

Como a autoridade da moralidade é dependente do compromisso de um indivíduo com sua vida – seu desejo por existência contínua – é importante ter um entendimento correto do que isso significa. A “escolha pela vida” não consiste em uma preferência puramente intelectual por um estado clínico-médico manifestado em uma ocasião isolada. Em vez disso, é um comprometimento total e sincero traduzido em diversas ações que um indivíduo toma diariamente. Um homem escolhe viver ao conduzir seus dias com uma atitude pró-vida, ao buscar o melhor possível para sua vida, ao perseguir de forma ativa e contínua os objetivos que ajudarão a melhorá-la. O homem que verdadeiramente abraça sua vida trata seu florescimento como a razão maior para tudo o que faz[17]. Essa postura é clara nos heróis d’A Revolta de Atlas. E é notavelmente ausente entre os vilões.

Note que certos fins dos vilões, que normalmente funcionariam como valores na vida de um indivíduo, não o são para eles. O dinheiro de Jim é, por exemplo, estéril: nada gera de produtivo para a sua vida. Sua riqueza não resulta de suas próprias ações em prol de sua vida e não é usado por ele para alcançar seu bem-estar objetivo. Isso não significa que ele não desfrute do seu dinheiro; ao fingir que o dinheiro prova algo sobre seu mérito relativo em relação aos outros, Jim ocasionalmente obtém uma reafirmação passageira. Mas sua riqueza não representa a realização de valores objetivos e, verdadeiramente, não contribui para promover a sua vida.

Da mesma forma, o casamento de Lillian não representa um valor genuíno para ela. O desejo de exercer um sentido perverso de superioridade moral sobre Hank, e sua antecipação de prazer em pegar seu marido com sua amante, revelam que seus fins pessoais são qualquer coisa menos saudáveis. Seu casamento com Hank não reflete a celebração de seu valor objetivo para ela, nem do fato de que ela é um valor para ele; em vez disso, este casamento reflete o desejo fútil de Lilian em obter valor por meio da destruição da virtude de outro homem. Ela despreza o bracelete feito de metal Rearden (o qual é um valor para Dagny e Hank) e dorme com Jim somente como um testamento do desejo que ambos têm de obliterar valores.

Um caso diferente a ser considerado é a Taggart Transcontinental. Dagny trata a ferrovia como um valor durante grande parte do livro, até que ela finalmente se une à greve. Ainda assim, o fato de Dagny considerá-la como um empreendimento que servia à vida não a torna forçosamente isso. A atitude não determina os efeitos positivos e/ou negativos que as coisas representam para a existência humana. Embora a rodovia tivesse grande valor para muitos, no início da história, seu valor não é intrínseco. Sua habilidade de servir à vida de qualquer pessoa não pode resistir aos abusos impostos por seus saqueadores. Ao ser corrompida por demandas altruístas e restrições coercivas, o triste fato com o qual Dagny finalmente se depara é que sua amada ferrovia, e o seu trabalho na administração, não são mais fatores construtivos para sua vida[18].

Esses são somente alguns exemplos de como as personagens de RA abraçam ou não suas vidas. Quando se trata de propor um código de moralidade para guiar um indivíduo que realmente deseja viver, Rand identifica como princípio central a racionalidade, pois esse é o principal requerimento de nossa existência. Seres humanos devem deliberadamente utilizar seus poderes de raciocínio conceitual para gerar valores que satisfazem suas necessidades. “A mente do homem é sua ferramenta básica de sobrevivência”, Galt observa:

Para permanecer vivo, ele tem de agir, e, para que possa agir, tem de conhecer a natureza e o propósito de sua ação. Ele não pode se alimentar sem conhecer qual é seu alimento e como tem de agir para obtê-lo. Não pode cavar um buraco, nem construir um cíclotron, sem conhecer seu objetivo e os meios de atingi-lo. Para permanecer vivo, ele tem de pensar[19].

Como Rand elabora em outra parte,

Para um animal, a questão de sobrevivência é primariamente física; para o homem, primariamente epistemológica. A única recompensa do homem, todavia, é que enquanto os animais sobrevivem ao se ajustarem ao seu ambiente, o homem sobrevive ao ajustar seu ambiente às suas necessidades. Se ocorrer uma seca, os animais morrem – o homem constrói canais de irrigação; se ocorrer uma enchente, os animais perecem – o homem constrói represas; se uma matilha de lobos atacar, os animais morrem – o homem escreve a Constituição dos Estados Unidos. Mas ninguém obtém alimento, segurança ou liberdade – por instinto.[20]

Tudo isso deveria nos ajudar a entender o vínculo entre razão e moralidade expresso na declaração de Galt: “esta, a qualquer momento, em qualquer questão, é a sua escolha moral básica: pensar ou não pensar, existência ou não existência, A ou não A, entidade ou zero”[21]. Dado que os valores são baseados na escolha entre existência e não existência, toda a decisão que busca acrescentar ou subtrair da existência de um homem é uma questão de moralidade. Correspondentemente, a escolha entre o bem e o mal com a qual um homem se defronta em quaisquer de suas ações é, em sua raiz, a escolha entre vida e morte. As seguintes questões: “Eu deveria ser moral ou imoral?” ou “Eu deveria seguir um princípio racional ou trapacear?” resumem-se a: “Eu deveria agir para viver ou para morrer?

ENTENDENDO AS ALTERNATIVAS

Tendo esboçado de forma básica a definição de bem e mal para Rand, nós podemos agora considerar a forma pela qual as personagens centrais na RA vivenciam tais conceitos.

No início do livro, os grevistas entendem o que “escolher a vida”, como um ser humano, requer. Hank e Dagny, não. Suspensos em um tipo de limbo, Hank e Dagny não abraçam conscientemente os ideais dos saqueadores, ainda que suas ações sejam condescendentes com partes substanciais deles. A razão para tal é a falta de conhecimento de sua parte e, à medida que a narrativa se desenrola, nós testemunhamos o crescimento constante de seu entendimento. Quando Dagny se retira para a cabana na floresta, por exemplo, ela interpreta incorretamente seu conflito entre desistir da vida ao abandonar tudo, como muitos outros fizeram, ou continuar trabalhando, nos termos dos saqueadores[22]. Gradualmente, ela e Hank verificam que os grevistas não desistiram. Eles simplesmente “escolheram suas vidas”, em uma completa compreensão de quais são os termos da vida humana.

Essencialmente, o que Hank e Dagny eventualmente percebem é que o mundo é movido por duas premissas básicas – da vida e da morte – e que a escolha entre elas é mutuamente exclusiva. Seus oponentes não buscam a vida, eles aprendem, e consequentemente, nenhum valor pode ser obtido dessas pessoas. Concessões às exigências da morte não podem fazer progredir a vida. São essas constatações que convencem Hank e Dagny a retirar sua sanção a padrões irracionais como a única forma de conquistar sua própria felicidade. É pelo reconhecimento do caráter autodestrutivo de suas concessões aos saqueadores que eles finalmente renunciam àqueles fardos e se unem à greve.

A premissa da morte

O mal que os heróis de RA combatem não é uma força autônoma no universo; não é uma presença anônima e inevitável. Embora o conceito de mal tenha adquirido todos os tipos de conotações sombrias e amplamente místicas com o passar dos anos, na verdade, o “mal” refere-se àquelas ações, ideias, objetos, políticas e pessoas cuja natureza é essencialmente antagônica às condições do florescimento humano. Assim como o “bem” é o que promove a vida humana, o mal é o que trabalha contra ela[23]. A descoberta mais simples e decisiva feita por Hank e Dagny é que seus adversários não valorizam suas vidas. Eles se dedicam, em vez disso, ao que Galt chama de moralidade da morte[24]. Independentemente de reconhecerem tal fato em termos tão explícitos, a morte é o objetivo e o critério de seu programa.

Em boa parte da trama, Hank e Dagny concedem o benefício da dúvida aos seus adversários, mesmo quando eles impõem exigências cada vez mais onerosas, penalizam o sucesso dos produtores ou procuram impor culpa e sofrimento. “Certamente eles buscam a mesma coisa que nós”, Hank e Dagny assumem, “certamente eles querem viver.” “Eu posso suportar Jim (a rodovia, a família);” “Eu posso aturar a manutenção dos compromissos sociais vazios com Lillian”; “Eu posso tolerar suas irracionalidades”. Quando as políticas públicas dos saqueadores saem pela culatra e a consequente retração econômica se intensifica, Hank e Dagny esperam que, naturalmente, os outros reconhecerão os erros de seu curso de ação. Na verdade, porém, o que os heróis percebem é que não existe erro nenhum no curso de ação dos saqueadores. Tendo aceitado a premissa da morte, a destruição que sua filosofia impõe é o que eles realmente estão buscando[25].

Note que a suposição benevolente de Hank e Dagny – de que todas as pessoas estão “do mesmo lado” - é exatamente o que é contestado em diversos de seus encontros com os grevistas. Quando Francisco visita Rearden em sua siderúrgica, Francisco acusa Hank de ter colocado sua “virtude a serviço do mal”[26]. Desnecessário dizer, é Rearden dificilmente vê seu curso de ação desta forma. Francisco explica:

O senhor é culpado de um grande pecado, Sr. Rearden, muito mais culpado do que eles dizem, só que não do jeito que dizem. A pior culpa é aceitar uma culpa imerecida, e é isso o que vem fazendo a vida toda. O senhor vem pagando uma chantagem não pelos seus vícios, mas pelas suas virtudes. O senhor se dispõe a arcar com o fardo de um castigo imerecido e o deixa ficar cada vez mais pesado quanto mais pratica suas virtudes. Mas as suas virtudes são aquelas que mantêm os homens vivos. O seu código moral, o que o senhor vem seguindo, mas que jamais afirmou, nem reconheceu nem defendeu, é o que preserva a existência do homem. Se o senhor foi punido por tê-lo observado, qual a natureza daqueles que o puniram? O seu código era o da vida. Então qual é o deles?[27]

No Vale, depois de Dagny explicar sua razão para retornar ao mundo “real”, a resposta de Akston expõe um fato que ela ainda não tinha identificado. Ela se pronuncia:

“Se querem saber qual é a única razão que me obriga a voltar, eu lhes digo: não consigo abandonar à ruína toda a grandeza do mundo, tudo aquilo que era meu e de vocês, que foi feito por nós e ainda é nosso por direito – porque não consigo acreditar que os homens sejam capazes de se recusar a ver, de permanecer cegos e surdos para sempre, quando a verdade é nossa e suas vidas dependem de eles a aceitarem. Eles ainda amam a vida – e é isso o que ainda resta de suas mentes e que não foi corrompido. Enquanto os homens desejarem viver, não posso perder essa batalha”.

“E eles ainda desejam viver? – perguntou Akston em voz baixa. – Não, não me responda agora. Apenas leve esta pergunta consigo. É a última premissa que você ainda terá de verificar”[28].

Considere uma discussão anterior, na qual Dagny explica sua perseverança a Francisco:

Ela olhou para a cidade. “A vida de um homem capaz que poderia ter morrido naquela catástrofe, mas que vai escapar da próxima, que eu vou impedir que aconteça. Um homem de mente intransigente e ambição ilimitada, que ama a sua própria vida... tipo de homem que é como nós éramos no começo, você e eu. Você desistiu dele. Eu não”.

Francisco fechou os olhos por um instante, e o leve apertar de seus lábios era um sorriso, um sorriso que substituía um gemido de compreensão, ironia e dor. Perguntou, com voz suave: “Você acha que ainda pode servir a esse homem administrando a rede ferroviária?”

“Sim.”

“Está bem, Dagny. Não vou tentar detê-la. Enquanto você pensar assim, nada poderá detê-la. Ainda bem. Você vai parar no dia em que descobrir que seu trabalho está a serviço não da vida daquele homem, e sim de sua destruição.[29]

Um pouco depois, ela continua:

“Conseguir manter a Taggart Transcontinental em funcionamento é o único lucro que quero. Que me importa se eles me obrigarem a pagar resgates? Eles podem ficar com o que quiserem. A ferrovia é minha...”

Você acha isso? Acha que, como precisam de você, isso quer dizer que está protegida? Você acha que pode lhes dar o que eles querem? Não, você não vai parar enquanto não vir com seus próprios olhos e entender o que eles realmente querem. Sabe, Dagny, nos ensinaram que algumas coisas são de Deus e outras de César. Talvez o Deus deles permitisse isso. Mas o homem que você diz que estamos servindo não permite isso. Ele não permite que se sirva a dois senhores, não admite uma guerra entre a mente e o corpo, um fosso entre os valores e as ações, nenhum tributo pago a César. Ele não admite nenhum César[30].

De certa maneira, Francisco está negando qualquer conflito inerente entre as demandas da mente e do corpo de um indivíduo. Estes não são dois senhores em guerra contra os quais o homem está fadado a lutar incessantemente. (Hank, em particular, é atormentado por um conflito entre servir padrões racionais no campo material e padrões irracionais dos outros no campo espiritual. Isso é mais dolorosamente evidenciado em sua atitude na relação com Dagny[31]. Eventualmente, ele entende a dinâmica de sua relação). Mais fundamentalmente, todavia, Francisco está observando que o homem não reconhece nenhum soberano, a não ser a realidade. Se um homem deseja existir – se ele busca alcançar sua própria felicidade – então ele deve respeitar as demandas impostas pela natureza da realidade. Ele deve respeitar o fato de que A é A – em suas crenças, desejos e ações. Esse é o preço que sua vida exige. Como a realidade não é um mestre a tempo parcial, todavia, e como sua soberania não é dividida com outros mestres, as condições causais necessárias para a própria felicidade de um homem são o seu único Deus. A realidade não permite deferência a rivais. À medida que um homem paga tributo a outro soberano (alternativo), ele afronta os requerimentos de sua própria felicidade.

A alegação de que os personagens nefastos de RA agem com base na premissa da morte pode inicialmente parecer muito pessimista, eu acho, pois isto é difícil de aceitar, como Akston comenta a Dagny (citada acima). Para apreciar a verdade desse fato e seu significado para o enredo, precisamos compreender mais precisamente o que é a premissa da morte e como ela se manifesta nestes personagens.

Essencialmente, a aceitação da premissa da morte significa que uma pessoa não valoriza a sua vida. A alternativa entre A e não A, quando o A em questão é a vida, é a alternativa entre vida e morte. À medida que as ações de uma pessoa não são movidas pela ambição de avançar em sua vida, elas se tornam, assim, antivida.

Assim como abraçar a sua vida não é simplesmente uma atitude vivenciada em uma única ocasião, a premissa da morte não é necessariamente uma declaração consciente feita em um único momento. As pessoas que seguem a premissa da morte não precisam explicitamente decidir: “Eu odeio a vida. Eu me comprometo a retardar a vida sempre e quando possível”. Sua premissa vigente é manifestada, em vez disso, na forma como elas vivem seus dias. Mais especificamente, ela consiste em menosprezar (e frequentemente se opor ativamente) à busca de valores objetivos.

Indivíduos que seguem a premissa da vida são fundamentalmente pensadores e valorizadores. Eles reconhecem que a sobrevivência humana depende do exercício da razão. E eles aceitam a responsabilidade correlata de usar a racionalidade como meio para adquirir conhecimento, realizar fins e obter valores. Nós observamos isso durante toda a obra na orientação básica dos heróis. Todos são personagens admiráveis, de Dagny e Galt até Eddie Willers e Gwen Ives; repetidamente respondem os problemas com pensamento lógico e execução de ações práticas. Eles assumem o comando de suas mentes e de suas ações.

Aqueles que seguem a premissa da morte, pelo contrário, são, em seu nível menos destrutivo, passivos. Eles não exercem suas faculdades racionais. Ao invés de focarem e pensarem com o objetivo de alcançar quaisquer fins, eles distintivamente “chamam o sapo” (como Rand apelida Jim Taggart). Eles se esquivam e contam que os outros atenderão às suas necessidades e satisfarão os seus desejos. Jim, por exemplo, espera que Dagny faça com que a rodovia funcione e que Cherryl – ou alguém – demonstre um afeto que ele não merece (e dessa forma, mesmo desafiando a causalidade, ele espera obter méritos). A catástrofe do túnel é a combustão lógica das numerosas evasões cumulativas (dos indivíduos)[32].

ACESSE AQUI A PARTE 2

___________________________________________

Tradução por Matheus Pacini. Revisão por Mateus Bernardino.

Publicado com permissão do autor.

Curta a nossa página no Facebook.

Inscreva-se em nosso canal no YouTube.

___________________________________________

[1] Originalmente publicado em SMITH, Tara. No Tributes to Caesar: Good or Evil in Atlas Shrugged. Essays on Ayn Rand’s Atlas Shrugged, ed. Robert Mayhew, New York: Lexington Books, 2009, p. 275-298

[2] Rand comenta a respeito do tema em: BOECKMANN, Tore. The Art of Fiction. New York: Plume, 2000, p. 17–18.

[3] Uma explicação mais ampla pode ser encontrada em: RAND, Ayn. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. Porto Alegre: Sulina, 2013; PEIKOFF, Leonard. Objectivism: The Philosophy of Ayn Rand. New York: Dutton, 1991 e SMITH, Tara. Viable Values: A Study of Life as the Root and Reward of Morality. Lanham, Md.: Rowman & Littlefield, 2000.

[4] Em prol da fluência do texto, e tendo em vista que ele trata unicamente da obra A Revolta de Atlas, o tradutor decidiu daqui por diante resumir “A Revolta de Atlas” para “RA”.

[5] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. Vol. II, p. 339

[6] Idem. p. 340

[7] Por “razão”, Rand quer dizer “a faculdade que percebe, identifica e integra os dados fornecidos pelo sentido do homem. (Idem. p. 339)”.  Para mais sobre a natureza da razão, ver: PEIKOFF, Objectivism. p. 152-153;159-163; 220, e sobre a razão como virtude humana primária, p. 220-229. Ainda sobre essa última, veja também: SMITH, Tara. Ayn Rand’s Normative Ethics—The Virtuous Egoist. New York: Cambridge University Press, 2006, p. 48–74.

[8] RAND, Ayn. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 16

[9] RAND, Ayn. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 19

[10] No Oxford English Dictionary (1971) a “vida” é definida como “a série de ações e acontecimentos que constituem a vida de um indivíduo (especialmente a de um ser humano) do nascimento até a morte”. Ver também definições da edição online, a qual inclui: “A propriedade que constitui a diferença essencial entre um animal vivo ou uma planta, ou uma porção viva de tecido orgânico e a matéria morta ou inanimada; o conjunto das atividades funcionais pela qual se manifesta a presença desta propriedade...; a continuidade ou prolongamento da existência animada; oposto à morte”. Ver ainda ANGIER, Natalie Angier. The Canon— A Whirligig Tour of the Beautiful Basics of Science. New York: Houghton Mifflin, 2007. p. 172–73 e BINSWANGER. Harry. The Biological Basis of Teleological Concepts. Marina del Rey, Calif.: Ayn Rand Institute Press, 1990. p. 6–7, 63–64.

[11] Particularidades podem também variar de acordo com as espécies, e com as divisas determinadas pela natureza das espécies. Sobre esta discussão, ver:  SMITH. Viable Values. p. 99–101, 127–28, 183 e RAND. Normative Ethics. p. 27, 30.

[12] Para explicações mais detalhadas sobre isto, ver: RAND, Ayn. “Causality vs. Duty,” Philosophy: Who Needs It. New York: Bobbs-Merrill, 1982. p. 118-119; RAND. Objectivist Ethics. p. 17–18; PEIKOFF. Objectivism. p. 241–48; SMITH. Viable Values. p. 84–90, 93–95, 101–3; RAND. Normative Ethics. p. 21–23.

[13] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 340

[14] RAND. Objectivist Ethics. p. 25-27

[15] Para muito mais detalhes sobre a relação íntima entre o florescimento humano e a existência, ver: RAND. Objectivist Ethics. p. 25–27, e SMITH. Viable Values. p. 125–51.

[16] Notar que este é o parâmetro familiar através do qual nós estabelecemos o bem-estar e distinguimos saúde de doença ou deficiência em todos os organismos. Além disso, no campo da ética, diversos filósofos procuraram explicar que o que é bom para os seres humanos está enraizado nas necessidades da natureza humana (algo concisamente expresso por Peter Geach em sua afirmação de que “homens precisam de virtudes como abelhas precisam do ferrão”). Ver: GEACH. Peter. The Virtues. Cambridge: Cambridge University Press, 1977. p. 17; FOOT, Philippa.  Natural Goodness. Oxford: Clarendon Press, 2001; HURSTHOUSE. Rosalind. On Virtue Ethics. New York: Oxford University Press, 1999; GAUT, Berys. “The Structure of Practical Reason,” em Garrett Cullity e Berys Gaut, eds., Ethics and Practical Reason. Oxford: Clarendon Press, 1997; WALLACE, James D. Virtues and Vices. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1978; ARISTOTLE, Nicomachean Ethics. Para mais sobre a diferença entre objetivo, subjetivo, e valor intrínseco, ver: SMITH, Tara. The Importance of the Subject in Objective Morality: Distinguishing Objective from Intrinsic Value, Social Philosophy and Policy 25, no. 1 (Winter 2008): p. 126–48; SMITH, Tara. ‘Social’ Objectivity and the Objectivity of Value in Science, Values, and Objectivity, Peter Machamer and Gereon Walters, eds., Science, Values, and ObjectivityPittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2004). p. 143–71; WRIGHT, Darryl. Evaluative Concepts and Objective Values: Rand on Moral Objectivity,” Social Philosophy and Policy 25, no. 1 (Winter 2008): p. 149-81; e WRIGHT, Darry. Evaluative Concepts and Objective Value, artigo apresentado na Conference on Concepts and Objectivity, Universidade de Pittsburgh, Sept. 22–24, 2006.

[17] Tomo está formulação de Wright.

[18] Meu obrigado a Greg Salmieri pela conversa que me levou a apreciar esse ponto de forma mais atenta.

[19] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 334

[20] RAND, Ayn. For the New Intellectual. New York: Random House, 1961. p. 10. Citação original: For an animal, the question of survival is primarily physical; for man, primarily epistemological. Man’s unique reward, however, is that while animals survive by adjusting them-selves to their background, man survives by adjusting his background to himself. If a drought strikes them, animals perish—man builds irrigation canals; if a flood strikes them, animals perish—man builds dams; if a carnivorous pack attacks them animals perish—man writes the Constitution of the United States. But one does not obtain food, safety or freedom—by instinct.

[21] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 340

[22] Da mesma forma, em uma passagem anterior, ela diz a Danagger que não está pronta a render o mundo aos saqueadores.

[23] Ver: RAND. Objectivist Ethics. p. 25. Na medida em que o mal é um conceito moral, isto se refere ao que deliberadamente trabalha contra a vida humana. Isto é ação humana intencional e seus resultados podem ser maléficos, não acidentais ou processos naturais além do controle humano.

[24] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 347; 350.

[25] Para uma discussão sobre a premissa de morte, ver: RAND. The Age of Envy.  Return of the Primitive: The Anti-Industrial Revolution, Peter Schwartz, ed. New York: Meridian, 1999. p. 130–58.

[26] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 129

[27] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 130

[28] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 119

[29] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 318

[30] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 319

[31] Ver sua autodelação depois da primeira noite juntos.

[32] Para uma excelente discussão sobre a premissa da morte e a premissa da vida, ver: GHATE, Onkar. The Death Premise in We The Living and Atlas Shrugged, em Robert Mayhew, ed., Essays on Ayn Rand’s. RAND, Ayn. We The Living. Lanham, Md.: Lexington Books, 2004. p. 335–56.