Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Gatilhos mentais e microagressão como estratégias


Em sua vida, quantas vezes você presenciou um consenso geral sobre a significado de um grande fenômeno cultural?

Está acontecendo agora, quando libertários, conservadores, progressistas e radicais de esquerda concordam que a podridão tomou conta do politicamente correto (PC). O inferno está congelando e os porcos agora podem voar. Os sintomas de PC são bem-conhecidos: hipersensibilidade para com pequenos deslizes, ataques verbais pesados contra inimigos ideológicos e vozes dissonantes dentro das fileiras, e o uso de métodos autoritários para impor a conformidade e silenciar os dissidentes.

Então, permitam que a minha contribuição seja uma indicação de como a filosofia estabeleceu as bases para esse fenômeno, e como somente a filosofia pode nos ajudar a entendê-lo.

As piores manifestações do PC estão nas universidades e suas zonas de influência cultural. Os campi são locais de treinamento. Dentro de muitas aulas, as listas de leitura são pequenas, opiniões contrárias são combatidas e a ortodoxia de opinião é imposta; defensores de outras visões de mundo são afastados por protestos, e aqueles que são convidados são expulsos aos gritos. Quando os estudantes concluem a graduação, eles se tornam ativistas e/ou colaboradores das causas intelectuais e políticas do mainstream.

Estudantes, administradores e professores contribuem para o problema – e os professores são os mais perigosos.

Embora os estudantes sejam quase sempre incrivelmente passionais, são igualmente influenciáveis, podendo ser conduzidos em direções bizarras pela sua própria inteligência com consistência implacável. Eles têm idade suficiente para saber que o PC é um problema, mas são jovens, e tenho inclinação a dar uma colher de chá por tolices que cometem na sua juventude.

Administradores são profissionais plenamente habilitados, e eu os culpo de forma moderada. Sim, a maioria dos administradores é muito pressionada. E são comandados por reitores de universidades que são contratados para manter o dinheiro girando e oferecer eficiência administrativa. Defender uma missão educacional é parte do trabalho de um reitor, mas, na prática, está muito abaixo na lista de prioridades. E como as fontes governamentais fornecem uma grande somas de dinheiro para a educação, direta ou indiretamente, rara é a administração de uma universidade que não sacrificará a qualidade educacional se ela for conflituosa com uma ordem governamental. O caso que ocorreu na Northwestern University com a reitora Laura Kipnis e o seu ordálio Title IXas presented in The Chronicle of Higher Education, é um exemplo claro. (E aqui no The Washington Post.)

Um problema mais profundo é a filosofia que nos levou a permitir grande envolvimento estatal na área educacional. “Quem paga a orquestra é que escolhe a música” – aqueles que são suspeitos de, ou ofendidos pelo financiamento privado da educação tem por muito tempo negligenciado alegremente o financiamento público da educação, inclusive pedindo seu aumento como uma questão de princípios políticos.

Mas a filosofia política é somente parte do problema. A filosofia moral e a filosofia da linguagem causaram tanto ou mais dano. Isso nos leva aos professores que desenvolveram o aparato teórico da PC ao longo das últimas duas gerações.

Os dois conceitos principais do vocabulário do PC são gatilhos e microagressões. A educação universitária é, na maior parte das vezes, uma conversa entre escritores e leitores, oradores e ouvintes. A análise do “gatilho” trata primeiro de quem ouve, enquanto a análise da “microagressão” trata primeiro de quem fala. 

A teoria do gatilho diz que algumas pessoas são altamente vulneráveis. Elas sofreram pelo menos um grande trauma no passado, e sua habilidade de levar uma vida normal depende agora de não reviverem a experiência traumática. Contudo, ao invés de esperar que as vítimas pós-traumáticas controlem suas respostas ao mundo e/ou procurem terapia, a teoria do gatilho diz que sua vulnerabilidade impõe uma obrigação ao resto de nós de evitar desencadeá-las. Em um contexto educacional, todavia, não use as palavras-gatilho está frequentemente em conflito com discuta questões complexas e controversas. E a conclusão é que deveríamos sacrificar a discussão a fim de evitar os gatilhos[1].

Tudo isso se alinha bem à alegação de que vivemos em uma sociedade que é tão racista e sexista que virtualmente todas as minorias e mulheres sofrem enormemente. A própria universidade é um microcosmo daquela sociedade doente, manifestando racismo e sexismo institucionalizados – mas deveria esforçar-se para se tornar uma área segura onde o processo de cura poderia ocorrer. A conclusão, novamente, é que os espíritos mais fortes que podem lidar com os tópicos mais pesados e a competição inerente ao desafio do debate deveriam reprimir sua expressão de forma a acomodar a capacidade emotiva dos mais frágeis.

E tudo isso quer dizer que a geração do gatilho é um produto de alta teoria – um conjunto de alegações elaborado por acadêmicos que:

  • A teoria psicológica do gatilho é verdadeira.
  • A teoria sociológica do racismo e sexismo institucionalizados é verdadeira.
  • A teoria moral do sacrifício dos mais fortes em prol dos mais fracos é verdadeira.

As pessoas que não simpatizam com essa postura argumentam que o movimento anti-gatilho produzirá uma geração de delicados “flocos de neve” que derretem a menor exposição ao calor, e uma educação frágil na qual nenhum assunto sério é discutido.

Essa resposta insensível é verdadeira. Mas evitar aquelas consequências também significa compreender a fonte, e parte do poder da teoria do gatilho é que pode derivar de fenômenos psicologicamente genuínos.

Nós podemos imaginar como se sente um calouro ao chegar na universidade, perdido intelectual e emocionalmente. Um indivíduo sente-se rodeado por pessoas ameaçadoramente espertas e assertivas, forçado a encarar desafios para os quais um indivíduo não se sente preparado. Você fica assustado. Você se sente um fracassado. Sentimentos profundos de fraqueza e fracasso podem gerar processos patológicos – como exemplo, ataques diretos a outrem, transferência de culpa aos outros (reler Dostoievsky e Nietzsche é instrutivo aqui).

Outra parte da estratégia do gatilho, todavia, é mais calculada e envolve usar a benevolência de outras pessoas contra elas próprias.

Por analogia, pense nos muito pobres. Algumas pessoas que se encontram na pobreza consideram como uma questão de vergonha, e como uma questão de orgulho que escondam sua pobreza ao mesmo tempo que tentam sair dela. Outras decidem pedir ou mendigar por apoio, gentilmente exigindo ajuda. Elas esperam que a empatia e solicitude normais na maioria das pessoas – para com idosos, gestantes, portadores de deficiência e assim por diante – virão em seu auxílio.

Existem aquelas, todavia, que irão mais longe e demandarão assistência como uma questão de obrigação. Talvez você tenha encontrado mendigos na rua que dirão, enquanto você está passando: certo, finja que não está me vendo ou vá desfrutar do seu café ou algo do gênero. A estratégia é fazê-lo sentir-se culpado e desconfortável em face de uma possível confrontação –logo, mais provável a ajudá-lo.

Outros tipos de mendigos usarão sua fraqueza como algo positivo. Normalmente, escondemos nossas chagas, fraquezas e deformidades, novamente, como uma questão de orgulho pessoal e para evitar tornar os outros desconfortáveis. Mas para alguns, tornar outros desconfortáveis é parte de uma estratégia calculada, uma tática para desequilibrá-los, tornando-os mais maleáveis.

O ponto não é que a pobreza e as injustiças não sejam questões reais e sérias que merecem atenção. O ponto é que as mesmas táticas estão sendo utilizadas na estratégia de gatilho – o uso explícito da fraqueza, do trauma e da vitimização como forma de desequilibrar e manipular os supostos inimigos / adversários de um indivíduo.

É a diferença entre (1) Eu tenho uma fraqueza, mas vou escondê-la e/ou resolvê-la, e (2) eu tenho uma fraqueza e vou cultivá-la e usá-la contra você.

A teoria oficial do gatilho é assim uma frente de batalha nas Guerras pela Justiça Social, uma versão da qual acredita profundamente que a sociedade é um campo de trabalho brutal de conflito entre fortes e fracos. Nesta, espera-se que tenhamos empatia pelos fracos e condenemos os fortes, sendo legítima qualquer tática contra os fortes, pois é por uma causa moral – aquela dos oprimidos.

Na geração passada, Jonathan Rauch capturou a dinâmica em seu agora clássico Kindly Inquisitors. A benevolência da bondade em resposta à fraqueza foi transformada, ele temia, em estratégia de inquisição. Prescientemente verdadeiro, Sr. Rauch.

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A teoria da microagressão poderia ser vista como um sinal de progresso. O luxo da obsessão com pequenos sinais de racismo ou sexismo implica que o problema das macroagressões tenha sido resolvido.

Se o ambiente onde você vive (casa, bairro, cidade) – para estabelecer um paralelo – é sujo e insalubre, então o seu foco estará primeiro na limpeza macro deste ambiente. Somente quando estiver limpo é que você se dedicará a detectar sinais de sujeira nos cantos e locais de difícil acesso.

A teoria do gatilho, como discutida anteriormente, propõe colocar em primeiro lugar as necessidades de indivíduos hipersensíveis que poderiam ser mais prejudicados ao ouvir certas palavras ou frases. A teoria da microagressão ataca o falar de certas palavras ou frases, argumentando que elas denunciam racismo e sexismo inconscientes, ou algum outro tipo de –ismo de mau gosto.

É claro, existe uma agenda ideológica em voga, suportada por um forte corpo teórico.

O contexto é o grande progresso aparente que tivemos contra os preconceitos sociais. Sexismo, racismo e etnocentrismo eram máculas na existência humana em todo o lugar até o Iluminismo dos anos 1700. Desde então, temos obtido grande progresso em direção à liberdade, igualdade e tolerância.

Estatísticas confiáveis mostram que, em muitas partes do mundo, obtemos progressos significativos. E especialmente na educação superior, à qual me dedico como professor, virtualmente todas as pessoas são sensíveis às questões de raça, classe e gênero, às vezes dolorosamente, e cuidam para evitar qualquer possibilidade de serem percebidas como agentes de preconceito, ofensas ou notas injustas.

Para a maioria de nós antirracistas e antissexistas, o progresso é uma ótima notícia que merece todo nosso orgulho.

Mas para uma minoria de intelectuais e ativistas, o progresso parece fraudulento e uma ameaça ao seu próprio bem-estar. Se a identidade e a carreira de um indivíduo dependem da luta contra o racismo e o sexismo, a ausência de racismo e sexismo é um sério problema.

Os teoristas da microagressão sentem-se felizes, portanto, por ter aprendido de Marx e Freud. Quando as condições dos trabalhadores melhoraram drasticamente sob o capitalismo, contrário à previsão de Marx, muitos marxistas não viram nisso uma derrota. Eles se convenceram de que a exploração capitalista deveria ainda existir e resolveram buscar formas de explorações estruturais escondidas. Quando os pacientes disseram aos seus terapeutas que não tinham traumas profundos de infância, muitos terapeutas freudianos desconsideraram tal afirmação como mecanismo de defesa de falsa consciência e foram procurar neuroses reprimidas.

A teoria da microagressão é uma variante: uma das suas principais alegações é a de que o racismo e o sexismo não acabaram ou mesmo foram reduzidos, mas sim que passaram à clandestinidade, tornando-se incrustados em nossas estruturas institucionais. Com isso, racismo e sexismo institucionalizados.  

Tais teorias “institucionais” são como dobrar seus investimentos em uma aposta ruim. Em face do progresso inesperado conquistado por seus adversários intelectuais e pela falta de evidência do tipo de racismo e sexismo prevalentes que sua teoria requer, eles se voltam a análises quase-conspiratórias. O progresso cultural tem que ser meramente aparente – e o trabalho dos teoristas treinados para criticar deve ser agora detectar e expor a cultura secreta das maquinações racistas e sexistas.

Tudo isso inclui nossas estruturas linguísticas. Microagressões são palavras e frases que funcionam como códigos para racismo ou sexismo, mesmo que os falantes não estejam cientes de que estejam falando em códigos. A cortesia tradicional nos pede para sermos cuidadosos com respeito às críticas, mas a teoria da microagressão diz-nos que não somos os melhores juízes quanto à classificação de nossas palavras, redefinindo insultos para incluir posições substantivas com as quais ela discorda sobre questões controversas.

Um dos principais teoristas é Derald Wing Sue, cuja obra Microaggressions in Everyday Life: Race, Gender, and Sexual Orientation é o trabalho que os líderes em universidades como Berkeley e Michigan estão usando para aprovar leves códigos de discurso que silenciam visões com as quais discordam. O objetivo do professor Sue em seu texto, como diz, é identificar as muitas “mensagens subliminares insultantes e hostis” no discurso acadêmico e cotidiano.

Considere o debate relativo à ação afirmativa (política de cotas), por exemplo. Os oponentes das políticas de cotas dizem: nós podemos e devemos esforçar-nos para ser neutros quanto à cor e ao gênero nos processos de admissão, na correção de provas, nas contratações ou promoções, de forma que as políticas de cotas são uma má ideia. Defensores das políticas de cotas dizem: nós ainda precisamos levar em conta a cor e o gênero, de forma que as políticas de cotas são uma boa ideia.

Para desgosto dos defensores, os oponentes das políticas de cotas têm levado a melhor, deixando as políticas de cotas como populares somente entre uma minoria de intelectuais e ativistas de certo tipo. Portanto, os defensores concluem que as políticas de cotas precisam de novas táticas.

Uma das táticas é reinterpretar as alegações dos oponentes como elas próprias sendo insultos. Nós deveríamos esforçar-nos para ser neutros, por exemplo, pode ser considerada como um código de oposição às políticas de cotas – o que, por sua vez, é um disfarce para racismo. Quer eles saibam ou não, aqueles que promovem a neutralidade estão fortalecendo um sistema que prejudica as pessoas de cor, e sua frase nós deveríamos ser neutros os tornam cúmplices do crime. Isto é, eles são microagressores.

Então, se um oponente da ação afirmativa (política de cotas) diz “devíamos ser neutros”, o administrador orientado pela teoria da microagressão pode anunciar “aquela sentença não pode ser expressada, porque expressa racismo”. O oponente replicará, chocado: “eu não sou racista!”, contudo, aquela alegação será rejeitada como inocente – seu ator foi meramente construído com uma falsa consciência e não sabe como decodificar sua sentença para revelar o seu significado real. Um benefício adicional é que o medo de ser acusado de racismo colocará a maioria das pessoas na defensiva, e aqueles imprudentes o bastante para persistir podem ser calados formalmente por meio dos códigos de discurso.

O ponto não é que não existem insultos discretos. É claro que existem. O ponto não é que não existem subtextos. É claro que existem. O ponto é a estratégia de encontrar insultos ou subtextos onde não existem de forma a intimidar os adversários intelectuais de um indivíduo e suprimir a expressão de suas visões.

Mas por que a interpretação das suas palavras por parte do teórico da microagressão é melhor do que a sua? A teoria da microagressão também recebe suporte de teorias subjetivistas de linguagem. Assim como os subjetivistas estéticos dirão que a beleza está nos olhos de quem vê e os subjetivistas éticos argumentarão que o valor moral está no coração de quem sente, os subjetivistas linguísticos argumentarão que o significado está somente na mente de quem fala.

Segue-se que se palavras não tem significados objetivos, somente relativamente subjetivos, então a linguagem não é mais uma ferramenta que um indivíduo utiliza para aprender sobre a realidade e se comunicar com os outros. A linguagem então se torna uma arma de conflito social. É sua palavra contra a minha, e as palavras de seu grupo contra a do outro – sempre e em todo o lugar. Ad hominen não é mais uma falácia porque a linguagem é sempre sobre o subjetivo, e é a “verdade” de meu grupo para o qual as ideais e valores do seu grupo são estranhas e ameaçadoras. Sua intenção não mais importa; somente o que ouvimos.

E especialmente se os ouvintes são membros de um grupo mais fraco e oprimido, à sua interpretação deve ser dada precedência. A teoria da microagressão incorpora assim um tipo de altruísmo linguístico: os meios de opressores poderosos devem ser sacrificados aos meios de suas vítimas mais fracas.

Em seu grande romance, O Homem que Ri, Victor Hugo descreve os Comprachicos – um grupo de artistas itinerantes que intencionalmente distorceram os corpos em crescimento de jovens de forma a serem capazes de usá-los e vendê-los como monstros em prol do lucro. Ayn Rand usou como analogia o exemplo de Hugo para acusar aqueles teoristas educacionais que distorcem as mentes das crianças em desenvolvimento de forma a moldá-las de acordo com suas agendas ideológicas.

As teorias do gatilho e da microagressão são agora a versão do mesmo, só que na educação superior. A teoria do gatilho sabota os influenciáveis e os faz pensar e agir como vítimas, e a teoria da microagressão então usa as vítimas como armas contra aqueles que desafiam os objetivos ideológicos dos microteoristas.

Esse artigo tem auxiliado na busca por soluções. O rejuvenescimento de uma educação liberal, incluindo o uso de princípios de liberdade de expressão, demandará dois tipos de mudanças: uma financeira e outra intelectual.

Os progressos financeiros devem incluir a redução do poder monetário do governo federal sobre o conteúdo da educação superior. E até que isso ocorra, a autonomia intelectual das universidades deve ser protegida com determinação pelos administradores para superar o medo de perder dólares governamentais pelo não cumprimento as regras.

Os progressos intelectuais devem incluir uma atualização do argumento em prol da liberdade acadêmica como essencial para a educação real – com sua audaz (intrépida), aberta e frequentemente contraditória busca pela verdade. E isso, por sua vez, como podemos ver pelos tipos de alegações que as teorias da microagressão e do gatilho utilizam, requererão alguns esforços psicológicos, morais e linguísticos.


[1] Para uma explicação sobre a definição de palavras-gatilho dentro do contexto brasileiro, leia http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/13133-a-palavra-gatilho.html

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Tradução de Matheus Pacini

Revisão de Vinicius Cintra

Publicado originalmente em Every Joe

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