Ayn Rand



Em uma carta de 1971, Ayn Rand explica a situação política atual do Brasil


A confusão intelectual é a marca distintiva do século XX, induzida por aqueles cuja tarefa seria precisamente proporcionar a iluminação: os intelectuais modernos.

Um de seus métodos é a destruição da linguagem – isto é, do pensamento e, por consequência, da comunicação – por meio de anticonceitos. Um anticonceito é um termo desnecessário e racionalmente inútil, desenhado para substituir e destruir algum conceito válido. O uso de anticonceitos concede a quem os ouve uma sensação de compreensão aproximada. Contudo, no âmbito da cognição, não há nada pior que o aproximado. Se, armado de aproximações, você se vê renunciando ao objetivo de entender o mundo atual, verifique as suas premissas, e as palavras que você está ouvindo. Entender o que se lê ou ouve hoje em dia requer uma tradução especial.

Nesse contexto, permitam-me uma breve apresentação. Na filosofia, defendo a razão. Na prática, demonstro que o homem precisa de filosofia para descobrir a forma correta de viver na Terra. No jornalismo, traduzo, quando necessário, o significado dos piores anticonceitos em nossa obscuridade cultural. Por tudo isso, podem me chamar de demolidora de banalidades.

Um dos anticonceitos da moda é “polarização”. Seu significado não é muito claro, exceto por ser algo ruim – indesejável, socialmente destrutivo, maligno: algo que dividiria o país em bandos e conflitos irreconciliáveis. Ele é sobretudo usado em contextos políticos, e serve como uma espécie de “argumento da intimidação”, pois substitui uma discussão sobre os méritos (a verdade ou a falsidade) de uma ideia pela acusação ameaçadora de que tal ideia “polarizaria” o país, o que supostamente deve fazer com que um de seus oponentes se retire, com a desculpa de que “não era isso que eu queria dizer.”

“Polarização” é um termo tomado da física; o dicionário define “polaridade” como: a presença ou manifestação de dois princípios ou tendências opostos ou contrastantes.

Transplantado da física para as ciências sociais, esse termo significa uma situação em que os homens têm ideias (princípios) ou perspectivas, objetivos ou valores (tendências), “opostos ou contrastantes”. Quando o usamos como termo pejorativo, isso significa que os homens não deveriam discordar em seus pontos de vistas, ideias, objetivos e valores; que tais diferenças são ruins; e que os homens não devem discordar entre si.

Essa noção é propagada pelos próprios intelectuais que se queixam da conformidade, que criticam o status quo, que exigem mudanças, e que proclamam que o direito de discordar inclui o direito a implementá-lo pelo uso da força física.

Mas – os antipolarizadoes poderiam protestar – eles não se opõem a todos os desacordos; o termo-chave na definição anterior é princípios, o que é verdade. São os princípios – os princípios fundamentais – que eles estão tratando de eliminar do debate público a todo custo. É um choque de princípios fundamentais o que o termo “polarização” pretende ocultar e evitar. Os princípios fundamentais, eles sustentam, devem ser aceitos sem críticas – por fé, instinto, implicação ou compromisso emocional – e nunca devem ser nomeados ou questionados. Não, a eles pouca importam o desacordo e as diferenças, diferenças como entre São Pedro e São Paulo, entre Auguste Comte e Karl Marx, ou entre o senador Muskie e o senador Kennedy. Mas não se atrevam a discutir as diferenças entre Aristóteles e Marcuse, entre Adam Smith e J. M. Keynes, ou entre George Washington e Richard Nixon. Isso seria polarizar o país, dizem eles. E, sem dúvida, seria isso mesmo.

Os defensores mais tímidos, assustados e conservadores do status quo – do status quo intelectual – são os progressistas atuais (os líderes conservadores nunca se aventuraram no terreno do intelecto). O que esses temem descobrir é o fato de que o status quo intelectual que herdaram está em ruínas, que não tem nenhuma base ideológica sobre a qual se sustentar, muito menos material para ser construído. Educados na filosofia do Pragmatismo, foram ensinados que os princípios são indemonstráveis, impraticáveis ou inexistentes, e isso destruiu sua capacidade para integrar ideias, lidar com abstrações e ver mais além do horizonte do momento presente. As abstrações, segundo eles, são “simplistas” (outro anticonceito); porém, a miopia é sofisticada. “Não polarizem!”, “não armem confusão!” são expressões do mesmo tipo de pânico.

É questionável – mesmo na plena decadência intelectual atual – que alguém possa safar-se ao declarar explicitamente: “eliminemos qualquer debate sobre princípios fundamentais!” (mesmo que alguns tenham tentado). Por outro lado, se alguém declara: “não nos polarizemos”, sugerindo uma vaga imagem de gangues prontas para brigar entre si (sem mencionar o objeto da briga), ele consegue silenciar os mentalmente tímidos. Usar “polarização” como termo pejorativo quer dizer: suprimir os princípios fundamentais. Em essência, é assim que funcionam os anticonceitos.

Os líderes dos intelectuais atuais estão conscientes do fato de que a medida cautelar para evitar a polarização implica que a unidade – a unidade da nação – deve ter prioridade sobre a razão, a lógica, a verdade: o que é um princípio fundamental do coletivismo. Mas os intelectuais comuns não estão conscientes disso: é uma conclusão demasiado abstrata para eles. Como as crianças e os selvagens, eles acreditam que os desejos humanos sejam onipotentes, que tudo funcionaria perfeitamente se conseguíssemos que todos concordassem em tudo, e que qualquer coisa pode ser resolvida cooperando, negociando e cedendo aqui e ali.

Essa tem sido a doutrina dominante em nossa vida política, acadêmica e intelectual durante os últimos 50 anos ou mais, sem que tenha havido dissidentes notáveis, exceto um: a realidade.

O ideal do “consenso” não funcionou. Ele não conduziu à harmonia social entre os homens, nem à segurança, à confiança, à unidade, ao entendimento mútuo ou à boa vontade. Conduziu-nos, sim, a uma sensação geral de hostilidade, medo, incerteza, letargia, amargura e cinismo, para não falar de uma desconfiança cada vez maior de todos sobre todos.

Os mesmos intelectuais que defendem a não polarização agora se lamentam da “brecha da credibilidade”. Não se dão conta de que essa última é consequência inevitável da primeira.

Se os princípios claros, as definições inequívocas e as metas inflexíveis são excluídas do debate público, então, um orador ou um escritor tem que se esforçar para ocultar o significado do que quer dizer (se tem algo a dizer) sob capas de generalidades sem sentido ou ambiguidades populares, porém seguras. Independentemente de sua mensagem ser boa ou ruim, verdadeira ou falsa, ele não pode comunicá-la abertamente, senão que deve transmiti-lo de contrabando ao subconsciente de seu público por meio da mesmo palavrório desfocado, enganoso e evasivo. Deve esforçar-se por ser mal-interpretado no maior número de formas possíveis pelo maior número de pessoas: essa é a única forma de manter a ilusão de unidade.

Se, em tais condições, insta-se as pessoas a cooperar, negociar e fazer concessões, como podem fazê-lo? Como vão cooperar, se o seu objetivo comum não foi nomeado explicitamente? Como vão negociar, se as intenções dos diferentes indivíduos ou grupos envolvidos não foram reveladas? Como podem saber, quando cedem em algo, se chegaram a um acordo razoável ou se hipotecaram seu futuro? Não há forma de fazê-lo, afinal, problemas concretos nem sequer podem ser captados, e muito menos julgados ou resolvidos – sem fazer referência a princípios abstratos – os homens passam a considerar as relações sociais não como uma questão de lidar uns com os outros, mas sim como um desafio de ser mais rápido em se aproveitar do outro. E o pior de tudo não é que essa política converte aos homens que atuam de boa fé em presa fácil de criminosos e manipuladores. O pior de tudo são os mal-entendidos autênticos entre homens honestos, entre quem sinceramente crê que esse palavrório impreciso significa duas coisas opostas. Se há alguma forma mais segura de gerar desconfiança e desengano entre as pessoas, eu não sei qual é.

Na política, os intelectuais professam seu desejo de “fazer com que a democracia funcione”, bem como seu respeito à vontade do povo, tal como foi expressada pelo voto. Como o povo vai eleger ou confiar em seus representantes, em uma era de linguagem não polarizada? Um sistema parlamentarista se mantém ou acaba segundo a qualidade – a precisão – da comunicação pública (e de sua condição prévia: a liberdade de informação). Um programa, uma plataforma, uma promessa ou uma previsão de futuro não podem ser oferecidas exceto em termos e princípios claramente definidos: e tais princípios são o único meio que as pessoas têm para determinar se um candidato cumpriu com sua palavra ou não. Nas últimas décadas, as pessoas se acostumaram cinicamente a ignorar as frases vazias da oratória das companhas eleitorais, e a votar com base em implicações. Mas isso não funciona, como ficou claro no caso do Sr. Nixon, que fez um giro de 180°, jogando no lixo todos os princípios aproximados que ele disse apoiar.

Na ausência de polarização intelectual, estamos presenciando o crescimento do tipo mais grotesco de divisão ou polarização existencial, que é: a guerra de grupos de pressão. O país está dividido em dezenas de bandos cegos e surdos, mas barulhentos, cada um deles unido não por lealdade ou ideias, mas por um acidente de raça, idade, sexo ou religião, ou por um capricho frenético de um dado momento; não por um grupo de valores que podem ter em comum, senão por um ódio comum contra algum outro grupo; não por escolha, mas por medo.

Quando os homens abandonam os princípios (quero dizer, quando abandonam a faculdade conceptual), os dois resultados principais são: individualmente, a impossibilidade de projetar o futuro; socialmente, a impossibilidade de se comunicar. Presos em um labirinto de problemas imediatos, sem forma nem meios para captar contexto, causas, consequências ou soluções, os homens buscam uma saída tramando uns contra os outros, o que significa: aceitando a força física, a força bruta, como o último juiz de qualquer disputa. Uma mentalidade de horizontes reduzidos vê outros homens como a causa imediata de seus problemas; não consegue ver mais além; obrigar os outros a aceitar suas demandas é a única resposta que podem conceber. Mas esses outros, agindo sob o mesmo não princípio, tramam entre si para forçar suas demandas a terceiros, o que faz com que suas vítimas, por sua vez, confabulem contra eles em um ciclo sem fim. Quem é a vítima final? A menor minoria da Terra, o indivíduo – isto é, cada homem como homem.

“Há solução?” Sim. Em seu estado atual, o que esse país mais precisa é um guia que aclare, tranquilize e inspire confiança e credibilidade; um guia de princípios fundamentais, ou seja, ele precisa de polarização intelectual. Isso devolveria à nossa atmosfera cultural algo quase totalmente esquecido: a honestidade e, seu corolário, a clareza. Estabeleceria o requisito mínimo para se ter um discurso civilizado: que quem propõe ideias se esforce em se fazer entender e coloque suas cartas na mesa (incluindo axiomas). Isso não deixaria espaço para pessoas influentes que se especializam no ininteligível, que propõem contradições flagrantes, que buscam fins sem se preocupar com os meios, que mantêm princípios fundamentais sem se atrever a nomeá-los abertamente e que difundem anticonceitos. Isso permitiria conhecer exatamente sua própria posição e a de seus adversários. Isso permitiria às pessoas tomar decisões conscientes e aceitar as consequências... ou mudar de direção, se se derem conta de que estão equivocados. O que elas recuperariam é o poder de entender, considerar, julgar e se comunicar entre si. O que elas perderiam é a sensação de estarem se afogando em um oceano de perplexidade e impotência.

“E se os homens não se puserem de acordo?” Nenhum desacordo aberto pode ser tão destrutivo como a hostilidade secreta, inominável e virulenta que está fragmentando o país.

Mas, “não é preferível a ‘união’?”. A união é uma consequência, não algo primário. A união de um gangue de linchamento ou de tropas de assalto nazistas não é desejável. Só princípios fundamentais, racionalmente validados, claramente entendidos e voluntariamente aceitos podem criar o tipo de união que é desejável entre os homens.

Mas, “tais princípios não podem ser definidos”. Verifique suas premissas e as de quem lhe disse isso. Há uma ciência cuja tarefa é descobrir e definir princípios fundamentai. É a ciência esquecida, descuidada, subvertida e atualmente despreciada, a base de todas as outras ciências: a filosofia.
 

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Publicado originalmente em Ayn Rand Letters.

Revisado por Matheus Pacini.

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