Craig Biddle

Editor-presidente do The Objective Standard.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, filosofia, ética e política

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CAPITALISMO POR QUE ASSIM DIZ A CIÊNCIA (METAFÍSICA, EPISTEMOLOGIA E ÉTICA)


Se a ciência apoia esmagadoramente um sistema social em particular excluindo todos os outros, deveríamos adotar e defender tal sistema?

Este é o caso do capitalismo.

Embora alguns defensores do capitalismo afirmem que ele está enraizado na religião, na fé, e em Deus – e apesar de alguns defensores do socialismo, comunismo, e outras formas de estatismo alegarem que esses sistemas são apoiados pela ciência – podemos ver, pela análise detalhada, que o capitalismo - e apenas o capitalismo - é enraizado e apoiado pela ciência.

Para concretizar este ponto, vamos considerar algumas ciências em relação ao capitalismo e o estatismo. Primeiro, todavia, definamos alguns termos-chave, traçando uma linha clara e crucial.

O capitalismo é o sistema social em que o governo protege os direitos individuais banindo o uso de força física das relações sociais, utilizando-a apenas em retaliação contra quem iniciou seu uso. Consequentemente, o capitalismo deixa indivíduos e negócios inteiramente livres para agir de acordo com seus julgamentos – desde que ninguém inicie ou ameace iniciar força física contra pessoas (isto é, desde que eles não violem direitos).1

O capitalismo puro – capitalismo laissez-faire – ainda não existe. O mais próximo disso ocorreu nos Estados Unidos da América por algumas décadas após a Guerra Civil. Mas, começando em 1890 (com a lei Antitruste Sherman), a intervenção governamental na economia se expandiu continuamente; hoje, o governo coage e controla virtualmente todas as negócios até certo ponto – através de leis que violam direitos, regulamentações e impostos/tarifas. Reconhecendo que, em relação a certos assuntos sociais e pessoais, a coerção governamental diminuiu e a proteção de direitos se expandiu (por exemplo, tratamento igual perante a lei para pessoas negras, legalização do aborto, legalização do casamento gay). No que tange os direitos de propriedade, os negócios e a economia, a coerção governamental aumentou a violação de direitos (por exemplo, leis antitruste, restrições de importação, confisco civil, licenciamentos, regulamentações, tributação). E, aqui, chegamos ao estatismo.

O estatismo engloba qualquer sistema social que permite ao governo (dentro da lei) iniciar força física contra indivíduos ou negócios – seja por (alegado) bem da nação, comunidade, sociedade, raça, classe, tribo, ou “Deus”. Ao contrário do capitalismo, que deixa as pessoas totalmente livres para agir de acordo com seu julgamento, o estatismo força as pessoas a agir contra o próprio julgamento até certo ponto.

A iniciação de força por governos estatistas varia imensamente em grau, e os graus importam.2 Alguns governos – como a Rússia Soviética, a Alemanha Nacional Socialista, e atualmente a Coreia do Norte e a Arábia Saudita – impõem níveis extremos de força contra pessoas, de modo que eles não possam viver ou “vivam” unicamente como marionetes ou propriedade do estado, da tribo, ou de uma suposta divindade. Outros - como a atual África do Sul, Grécia e Guatemala - iniciam menos força, de modo que as pessoas podem vivenciar algo mais próximo do que é viver como um ser humano. E outros ainda, como Noruega, Canadá e Estados Unidos iniciam ainda menos força.3

Países em que o governo inicia graus/níveis de força relativamente menores podem, talvez, ser chamados de “sistemas mistos” – mas eles são estatistas. Qualquer sistema em que o Estado inicia legalmente a força contra indivíduos é, de fato e direito, estatista. Esta é a linha que distingue todas as formas e graus/níveis de estatismo do capitalismo puro: sob o estatismo, o governo tem a permissão legal para violar direitos. Sob o capitalismo puro (radical, como diria Rand), o governo é legalmente proibido de fazê-lo.

Finalmente, devemos ser claros sobre a natureza da ciência. No sentido relevante aqui, ciência é o uso sistemático da razão (isto é, observação, integração e lógica) para a compreensão de algum aspecto ou esfera da realidade em termos de princípios (verdades gerais). A ciência da biologia, por exemplo, está interessada na natureza, desenvolvimento, estruturas e modos de sobrevivência de organismos vivos. A ciência da psicologia tem como foco a natureza da mente humana e os requisitos para uma mente saudável e feliz. E a ciência da moralidade está interessada na natureza dos valores, do bem e do mal, bem como dos princípios apropriados de ação.

Com essa reflexão em mente, vejamos o que a ciência tem a dizer sobre o capitalismo e o estatismo. Para essa finalidade, consideraremos um conjunto amplo de ciências, incluindo economia, negócios, psicologia, biologia, moralidade, epistemologia e metafísica. Em cada caso, focaremos em aspectos básicos da ciência em questão, embora uma análise similar possa ser aplicada a outros aspectos e ciências também.

Moralidade e Capitalismo

A moralidade científica (em oposição à baseada na fé ou sentimentos) está interessada na natureza dos valores, no padrão de bem ou mal, bem como nos princípios da ação apropriada – derivada dos meios de observação e da lógica. Os princípios básicos dessa ciência são os seguintes (que foram inicialmente formulados por Ayn Rand):

  • Valores são coisas que seres vivos agem para obter ou manter para sustentar ou melhorar suas vidas (alimento, moradia, dinheiro, felicidade, liberdade).
  • A única razão pela qual os seres vivos precisam de valores é para viver. (Se você não quer viver, você não precisa de nada; você pode simplesmente parar e esperar a morte).
  • Para os seres humanos, o objetivo definitivo dos valores é manter e promover o valor final: a vida. (Uma árvore, por exemplo, absorve luz solar, água e nutrientes – imprescindíveis para a fotossíntese. Da mesma forma, uma coruja se limpa para poder voar bem – para capturar suas presas – e assim sobreviver e se desenvolver).
  • O padrão de valor para qualquer ser vivo são os requisitos de sua vida de acordo com sua natureza. (O padrão de valor de uma coruja são requisitos para viver de acordo como uma coruja; o padrão de valor de uma pessoa são os requisitos necessários para que ela viva como um ser humano.)
  • O padrão de valor moral – valor esse pertencente aos seres humanos no domínio da escolha – são os requisitos da vida humana definidos pela natureza humana. Escolhas e ações que promovem ou protegem a vida humana são morais (pensamento, produção, comércio); aquelas que causam danos ou destroem são imorais ou más (evasão, roubo, assassinato).
  • Como cada pessoa é um indivíduo particular – com seu próprio corpo, mente e vida – ela tem a sua vida como valor final; e fazer de sua vida a melhor possível, a mais feliz que puder ser como o propósito moral mais elevado.
  • Cada indivíduo é um fim em si mesmo, não um meio para o fim dos outros: portanto, possui o direito moral de agir de acordo com suas avaliações, viver para seu próprio bem, e buscar sua própria felicidade – nunca se sacrificando pelos outros, ou sacrificando os outros para si e, muito menos, sendo sacrificado pelos outros em nome de algum suposto “bem maior”.

De imediato o mais relevante desses princípios é o último, que é o princípio basilar do capitalismo: o princípio dos direitos individuais.

Para as pessoas poderem viver como seres humanos – ao invés de mestres e escravos, de agressores e vítimas – elas devem ser livres para agir de acordo com seus meios básicos de sobrevivência: o julgamento de suas mentes racionais. Enquanto o capitalismo laissez-faire reconhece e encoraja esse princípio, o estatismo (de qualquer estirpe) o viola.

Enquanto o socialismo e o comunismo defendem que o governo deve coercitivamente redistribuir riqueza e valores “de cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com sua necessidade”, enquanto o nacionalismo mantém que o governo deve forçar indivíduos e empresas a agir de acordo com “os interesses da nação” e enquanto teocracias alegam que o governo deveria fazer cumprir os mandamentos de algum suposto Deus, o capitalismo defende que o governo deveria proteger o direito moral de cada indivíduo de agir com base em seu próprio julgamento.

Banindo a iniciação de força física das relações sociais, e deixando as pessoas totalmente livres para agir de acordo com suas mentes racionais, o capitalismo legaliza a moralidade científica.

A ciência da moralidade dá suporte ao capitalismo.

Epistemologia e Capitalismo

A Epistemologia diz respeito à natureza e aos meios de conhecimento humano. A epistemologia objetiva (isto é, uma epistemologia baseada na observação, oposta à epistemologia baseada na fé ou sentimento) demonstra que seres humanos obtêm conhecimento por meio da razão: observação perceptual, integração de conceitos e lógica.

É por meio da razão que o homem descobre os princípios da mecânica, engenharia e física, além de como produzir tratores, pontes, aviões, energia nuclear e iPhones. É através da razão que o homem descobre os princípios da biologia e da química, como produzir remédios, curar doenças e prolongar a vida. É por meio da razão que o homem descobre os princípios da música e como criar e tocar pianos e violinos; os princípios da dança e como se apresentar e ensinar balé e tango; os princípios da agricultura e como cultivar e aprimorar os campos; os princípios da psicologia e como analisar emoções e aprimorar o processo de pensamento; os princípios da moralidade e como buscar a felicidade e definir direitos; os princípios da política e como estabelecer liberdade e defender direitos. E assim por diante.

Pessoas adquirem e aplicam o conhecimento por meio da razão. E, para poderem usar a razão, ganhar conhecimento e aplicar suas mentes para melhorar suas vidas, eles devem ser livres para fazê-lo.

A ciência da epistemologia clama por capitalismo.

Metafísica e Capitalismo

A última ciência da nossa pequena avaliação, a Metafísica, diz respeito às leis mais básicas da existência. Ela pergunta e responde às perguntas: quais são os fatos mais fundamentais da realidade? O que é verdade em tudo que existe? Os dois princípios básicos dessa ciência são as leis da identidade e causalidade.

A lei da identidade diz que tudo é alguma coisa específica; tudo possui propriedades que fazem algo ser o que é; tudo possui uma natureza: uma coisa é o que é. (Um carvalho é um carvalho; uma coruja é uma coruja.) A lei da causalidade é a lei da identidade aplicada à ação: uma coisa pode agir apenas de acordo com sua natureza. (Um carvalho pode crescer; não pode se limpar. Uma coruja pode voar; não pode fazer fotossíntese.)

Aplicada ao homem, essas leis significam (entre outras coisas) que o homem possui uma natureza específica, incluindo seus meios específicos de aquisição de conhecimento e meios básicos de sobrevivência (veja acima) – e que ele pode agir e viver apenas de acordo com sua natureza e apenas na extensão em que ele é livre para fazê-lo. O homem não pode adquirir conhecimento por meios irracionais (isto é, fé, percepção extrassensorial, ou meramente por crença), e ele não pode prosperar agindo irracionalmente. Se ele quer viver e prosperar, ele deve reconhecer sua natureza vigente, empregar sua faculdade racional e agir de acordo. E, para tal, deve ser livre.

Capitalismo trata o homem como ele é: um ser que vive e prospera através do uso da razão. O capitalismo também trata a coerção como ela é: um obstáculo que impede uma pessoa de empregar plenamente seus meios básicos de viver uma vida humana. Em reconhecimento dos fatos metafísicos apresentados, o capitalismo deixa as pessoas totalmente livres, de modo que possam pensar, agir, viver e prosperar completamente como seres humanos. Assim Ayn Rand resumiu esse ponto: “É o fato metafísico básico da natureza humana – a conexão entre sua sobrevivência e o uso da razão – que o capitalismo reconhece e protege.”

A ciência da metafísica clama por capitalismo.

O que isto tudo isto significa para as pessoas que são pró-ciência? E o que significa para as pessoas que são pró-capitalismo? As respostas são claras. Qualquer um que é genuinamente pró-ciência deve advogar o sistema social designado pela ciência: capitalismo. (Você não é realmente pró-ciência se você rejeita estas conclusões básicas.) E qualquer um que é genuinamente pró-capitalismo deve defender esse sistema com a ciência. (Você não é realmente pró-capitalismo se você não dá suporte aos fatos observáveis, aos princípios válidos e à lógica.)

Quem defende a ciência e quem defende o capitalismo é a mesma pessoa. Já é hora que tal união seja reconhecida.

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Publicado originalmente em The Objective Standard.

Revisado por Matheus Pacini.

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