Edward Younkins

Professor de Economia e Negócios da Wheeling Jesuit University. 

Escreveu diversos livros e artigos sobre os grandes pensadores liberais, a relação entre Ayn Rand e a Escola Austríaca e o impacto da ficção na divulgação das ideias capitalistas.

Confira todos os artigos do autor no site do Le Québécois Libre.



Ayn Rand versus Friedrich A. Hayek


No século XX, poucos autores fizeram mais que Ayn Rand e Friedrich A. Hayek para afastar a opinião intelectual do estatismo e reorientá-la na direção de uma sociedade livre. Embora discordem em muitas questões filosóficas e sociais, eles aceitam, de modo geral, a superioridade do livre mercado. A defesa do capitalismo de Rand difere dramaticamente do conceito de ordem espontânea desenvolvido por Hayek. Além disso, ele chancela atividades do Estado que entram em conflito com as definições de direitos e liberdade de Rand. O propósito desse breve ensaio é descrever, explicar e comparar as ideias desses dois influentes pensadores. Para fazê-lo, apresento e explico um quadro comparativo que oferece um sumário das diferenças entre Rand e Hayek em diversos pontos.

Em seus primeiros anos, Hayek e Rand foram rejeitados por intelectuais, mas aclamados por empresários. Hayek começou a ser notado no meio intelectual pela publicação de O Caminho da Servidão, em 1944. Ele escreveu diversos livros e artigos, ocupou posições acadêmicas, e recebeu o prêmio Nobel de Economia em 1974. Rand nunca escreveu trabalhos acadêmicos, tampouco ocupou posições acadêmicas. Sua filosofia deve ser extraída de seus ensaios e de sua ficção.

Nas faculdades, Hayek foi lido antes, e recebeu muito mais atenção, que Rand. Pelos intelectuais em geral, era considerado um acadêmico responsável e respeitado, enquanto Rand não o era. Sua visão antiestatista era mais aceitável para os intelectuais porque permitia algumas exceções ao capitalismo laissez-faire. Em seus escritos, ele deu aval a algumas intervenções estatais. Em seu imensa e variada produção intelectual, abordou diversas áreas, incluindo antropologia, biologia evolucionária, ciência cognitiva, filosofia, economia, linguística, ciência política e história intelectual. Durante os últimos 25 anos, a obra de Rand tem sido cada vez mais estudada. Hoje existe uma Ayn Rand Society - afiliada à American Philosophical Association - e uma publicação acadêmica dedicada ao estudo de suas ideias – o The Journal of Ayn Rand Studies. Além disso, seus escritos hoje são trabalhados nas faculdades.

Quadro comparativo resumido

O quadro (ao final do texto) oferece uma comparação resumida entre as posições de Rand e Hayek, com base numa variedade de fatores e dimensões. Com respeito à metafísica e à epistemologia, Rand defende que “A é A” e que a realidade é apreensível. Por outro lado, Hayek defende que a realidade é inapreensível, e que o que os homens vêem são representações ou reproduções distorcidas de objetos existentes no mundo. O cético Hayek vai mais longe, afirmando que a noção das coisas em si (por exemplo, o mundo numenal) pode ser rejeitada. Enquanto a fundação de Rand é a realidade, o melhor que Hayek pode oferecer como fundação são palavras e linguagem.

Hayek defende a visão de que a mente humana deve ter categorias a priori que são anteriores a, e responsáveis pela habilidade de perceber e interpretar o mundo externo. Ele complementa essa visão kantiana ao argumentar que as categorias mentais de cada indivíduo são reestruturadas de acordo às experiências particulares de cada um. As conexões neurais de cada indivíduo podem, portanto, serem vistas como semipermanentes e influenciadas pelo ambiente e experiências dele. As categorias mentais evoluem à medida que cada indivíduo específico experimenta o mundo. De acordo com Hayek, existe um conhecimento pré-sensorial integrado na estrutura da mente, e nas conexões sinápticas do sistema nervoso, que pode ser criado e modificado com o tempo. Para o neokantiano Hayek, o conhecimento tem sempre uma característica subjetiva.

Para Rand, a razão é ativa, volitiva e eficiente. Segue disso ela considerar a racionalidade a virtude primária do homem. Ela vê o progresso por meio da ciência e tecnologia como resultado da habilidade humana de pensar conceitualmente, e analisar logicamente via indução e dedução. Rand também defende que as pessoas podem desenvolver conceitos objetivos que correspondem à realidade.

Em sua filosofia, Hayek relega um papel inferior à razão. Ele concede um valor modesto às capacidades de raciocínio das pessoas. Ele afirma que a razão é passiva, mero produto social. A mensagem de humildade intelectual de Hayek dirige-se principalmente ao racionalismo construtivista em vez do racionalismo crítico. Como um “antirracionalista”, defende que o mundo é muito complexo para qualquer planejador desenhar e construir, de modo intencional, as instituições sociais. Não obstante, ele acredita no potencial limitado do racionalismo crítico através do qual indivíduos usam conhecimento local e tácito nas decisões cotidianas. Hayek vê o progresso como produto de um processo evolucionário dinâmico. Ele afirmou que não podemos conhecer a realidade, mas que podemos analisar palavras e a linguagem em sua evolução. A análise linguística, bem como algumas verificações empíricas concedem a Hayek alguma fundação analítica. Sua teoria coerente dos conceitos é baseada no acordo entre as mentes. Para Hayek, conceitos “acontecem” na mente. É claro, sua teoria geral de conhecimento é a de que indivíduos sabem muito mais do que pode ser expressado em palavras.

Rand apresenta um argumento positivo para a liberdade, com base na natureza do homem e do mundo. Ela explica que a natureza particular do homem se manifesta em seu pensamento racional, bem como em seu livre arbítrio. Cada pessoa tem a habilidade de pensar seus próprios pensamentos e controlar suas próprias energias em seu esforço de ação guiado pelo pensamento. Pessoas são seres racionais com livre arbítrio que têm a habilidade de realizar seus propósitos, fins e intenções de vida. Rand defende que cada indivíduo tem significado moral: ele existe, percebe, experimenta, pensa e age através de seu corpo em pontos únicos no tempo e no espaço. Segue-se que o indivíduo particular é a unidade de valor e de análise social. Cada indivíduo é responsável por pensar por si próprio, agir de acordo com seus próprios pensamentos, e alcançar sua própria felicidade.

Hayek nega a existência do livre arbítrio. Contudo, ele explica que as pessoas agem como se tivessem livre arbítrio porque nunca foram capazes de identificar como são influenciadas a agir de certa forma por vários fatores biológicos, culturais e ambientais. Seu caso negativo de liberdade baseia-se na ideia de que nenhuma pessoa ou agência governamental é capaz de controlar a complexa multiplicidade de elementos necessários para fazê-lo. Tal conhecimento relevante nunca é possuído em sua totalidade por um único indivíduo: existem muitas circunstâncias e variáveis afetando a situação a serem levadas em conta. Sua solução para esse grande problema é permitir às pessoas a “liberdade” para perseguir e empregar a informação que julgam ser a mais relevante para seus objetivos específicos. Para Hayek, a liberdade é boa porque melhor promove o crescimento do conhecimento na sociedade. Hayek explica que, no ordenamento da sociedade, deveríamos depender ao máximo de forças espontâneas (como os preços de mercado) e, ao mínimo, da força. Reconhecendo a natureza socialmente-construída do homem, ele não vê indivíduos como agentes independentes, mas como criaturas da sociedade

De acordo com Rand, o princípio dos direitos do homem pode ser logicamente derivado da natureza e das necessidades humanas. Direito é um conceito moral. Para Rand, o direito fundamental do indivíduo é o direito dele a sua própria vida. Ela explica que direitos são identificações objetivas conceituais de requerimentos factuais da vida de uma pessoa no contexto social. Um direito é um princípio moral que define e sanciona a liberdade de ação do indivíduo dentro do contexto social. Discussões sobre direitos individuais são amplamente ausentes nos escritos de Hayek. No máximo, ele diz que direitos são criados pela sociedade por meio do mecanismo da lei.

Enquanto Rand fala de lei objetiva, Hayek fala de estado de direito. Leis objetivas devem ser claramente expressas em termos de princípios essenciais. Elas devem ser objetivamente justificáveis, imparciais, consistentes e inteligíveis. Rand explica que a lei objetiva é derivada do princípio racional dos direitos individuais. A lei objetiva lida com requerimentos específicos da vida humana. Indivíduos devem saber, com antecedência, o que a lei proíbe-os de fazer, o que constitui uma violação, e qual pena será imposta caso infrinjam a lei. Hayek diz que o estado de direito é o oposto do governo arbitrário. O estado de direito defende que a coerção governamental deve ser limitada por normas abstratas, gerais e conhecidas. Segundo Hayek, certas normas de conduta abstratas vieram à tona porque grupos que as adotaram tornaram-se mais capazes de sobreviver e prosperar. Essas normas são igualmente aplicáveis a todos e mantêm uma esfera de responsabilidade.

Rand propõe uma moralidade racional objetiva baseada na razão e no egoísmo (egoísmo racional). Em sua ética biocêntrica, o comportamento moral é julgado em relação à realização de objetivos específicos com o fim último sendo a vida individual e seu florescimento, bem como a felicidade. Para Hayek, a ética é baseada na evolução, e nas emoções. Para Hayek, a ética é uma função da biologia e da socialização, cuja formação se dá por meio de hábitos e imitação.

Rand defende um sistema social de capitalismo de livre mercado em que a única função do Estado é a proteção dos direitos individuais. Hayek, por outro lado, permite algumas exceções e intervenções para fazer as coisas funcionarem. Ele defende que é aceitável que o governo forneça bens públicos, bem como uma rede de assistência social.

Para Rand, a consciência individual do ser humano é o nível mais elevado de funcionamento mental. Para Hayek, é uma estrutura supraconsciente de conexões neurais por meio das quais a atividade mental consciente ganha significado. Ele afirma que esse mecanismo metaconsciente é tomado como dado pelos seres humanos. O conjunto de impulsos psicológicos da pessoa forma o que Hayek chamou de ordem sensorial. Percepção e reconhecimento de padrão seguem uma ordem sensorial que é alterada pela própria percepção e histórico de experiências do indivíduo.

Ayn Rand só reconhece dívida intelectual para com Aristóteles. Ambos defenderam que, para tornar a vida totalmente humana (ou seja, prosperar), um indivíduo deve adquirir virtudes e fazer uso da razão tanto quanto possível. Hayek foi influenciado por Kant e Popper em epistemologia, Ferguson e Smith em teoria evolucionária, Hume em ética e Wittgenstein em linguística.

A leitura de ambos gigantes intelectuais é muito recomendada para qualquer estudante da liberdade. “Embora Rand e Hayek discordem em muitas questões filosóficas, ele geralmente concordam na importância do livre mercado, e estão entre os defensores mais conhecidos do capitalismo no século XX.”

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Publicado originalmente em Le Québécois Libre

Traduzido por Matheus Pacini

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