Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Ayn Rand foi um Stalin intelectual?


Grégoire Canlorbe: em minha opinião, a força interna que torna os heróis de Ayn Rand tão viciantes é o poder. Eles fazem parte da indústria ferroviária, fruto de 130 anos de engenhosidade e trabalho duro de milhares de pessoas. Não obstante, eles se consideram os condutores do sistema, carregando a sociedade nas costas. Mal sabem eles que conduzem um legado, e que devem o que são ao trabalho de milhões de pessoas, não só a si mesmos. É esse autoengano que os leva ao individualismo radical. A filosofia de Rand diz respeito ao autoengano em nome da força bruta e, em sua essência, é o desejo de poder de Rand sob uma massa de seguidores. Poder e influência são duas necessidades básicas profundamente interligadas. Metaforicamente falando, somos módulos de um cérebro coletivo, ou seja, uma máquina coletiva de processamento de informação. Poder e influência são duas das paixões mais importantes, paixões que aceleram o processo de troca de informação; ou desaceleram, caso alguém assumir o poder de forma totalitária. Em última instância, Ayn Rand era um ícone totalitário, um Stalin intelectual. Qual seria sua resposta a essa acusação?

Stephen Hicks: sua questão levanta duas questões importantes: quem leva crédito pelo que em projetos colaborativos, e qual é a natureza do poder?

De fato, formamos organizações sociais por acharmos que, trabalhando juntos, podemos fazer mais. Às vezes, trabalhamos juntos focados em um propósito – por exemplo, um grupo de pessoas que se une para retirar uma árvore do meio da estrada. Às vezes, trabalhamos juntos, primeiro, dividindo o trabalho em tarefas e, então, através de um sistema, estabelecemos a ordem de execução de cada tarefa – por exemplo, uma linha de produção.

O individualista corrobora o valor do social, mas insiste em dois subpontos.

O primeiro é que o esforço envolvido é individual. Cada indivíduo do grupo supracitado faz força individualmente, tal como cada indivíduo costura um número X de botões. E o que se aplica ao esforço muscular também se aplica ao esforço cognitivo, que é de importância fundamental para a vida humana. Cada pensamento original é, por definição, individual, alcançado pelo esforço individual. Existe muito valor nas redes cognitivas, mas o valor agregado depende do indivíduo.

Minha leitura de Rand é que ela era muito sensível a isso. Sua grande heroína, Dagny Taggard, reconhece sua dívida para com seu avô, Nathaniel, o fundador da ferrovia, e tem ciência da importância de todos os trabalhadores da companhia – trabalhadores de linha, engenheiros, assistentes executivos, etc – que auxiliam no funcionamento desse complexo sistema ferroviário.

O segundo subponto é que nem todos os indivíduos agregam valor igualmente. Por exemplo, quem costura botões em camisas, se o fizer de forma eficiente, agrega valor ao produto. Mas ele não agrega o mesmo valor de quem desenhou a linha de produção. Quem pensa um sistema pode costurar botões em camisas; porém, no mais das vezes, quem costura botões não pode desenhar um sistema.

Habilidades são individualizadas e desiguais, e o valor agregado dessas habilidades também é individualizado e desigual.

Como medimos os níveis variados de valor agregado e decidimos quem recebe quanto dinheiro, elogio ou fama – que é complicado. Mas isso é o que cada um de nós tenta fazer ao exercer seu julgamento individual sobre o outro, e o que os mercados tentam fazer na determinação de salários e outros preços.

Agora, sobre o poder. Poder é essencial para a vida humana, e toma diversas formas: muscular, intelectual, moral, político, econômico e etc. Mas existe um distinção muito clara entre: (a) alguém com forte desejo de conhecimento e riqueza – que insiste que indivíduos deveriam ganhar seu sustento e negociar pela via voluntária e (b) alguém com forte desejo de impor um sistema de crença aos outros e censurar crenças conflitantes através do poder político – isto é, pela polícia do pensamento – e que obriga os outros a trabalhar em projetos coletivos só para, depois, confiscar o produto – novamente, através do poder político.

Essa é a diferença entre Rand e Stálin.

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Traduzido por Matheus Pacini

Publicado originalmente no site oficial do autor.

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